sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Trairi Eleições 2016 - Resultado para Prefeito - Por Distritos

Trairi

Total de eleitores:  43.009

Comparecimento: 82,16%
Abstenções: 17,86
Votos nulos: 1,4%
Votos brancos : 1,85%
Votos válidos: 78,91%

Candidatos a prefeito


- MARCOS PRADO - PSDB (Eleito):

Total de votos: 17. 127
Porcentagem de votos válidos: 51,56%
Porcentagem de votos do total: 39,82%

- GUSTAVO AGUIAR – PDT:

Total de votos: 13.010
Porcentagem de votos válidos: 39,16%
Porcentagem de votos do total: 30,24%

- NARA PORTO - PSD:

Total de votos: 3.083
Porcentagem de votos válidos: 9,28%
Porcentagem de votos do total: 7,16%

Votos válidos por Distritos:

Sede:

Gustavo Aguiar: 48,8%
Marcos Prado: 43%
Nara Porto: 8,2%

Mundaú:

Marcos Prado: 70,18%
Gustavo Aguiar: 21,35%
Nara Porto: 8,47%

Canaan:

Marcos Prado: 48%
Gustavo Aguiar: 40%
Nara Porto: 12%

Gualdrapas:

Marcos Prado: 55,8%
Gustavo Aguiar: 41,9%
Nara Porto: 2,3%

Córrego Fundo:

Marcos Prado: 47,9%
Gustavo Aguiar: 47,8 %
Nara Porto: 4,3%

Votação nas praias (Mundaú, Emboaca, Flecheiras e Guajiru):

Marcos Prado: 62,5%
Gustavo Aguiar: 29%
Nara Porto: 8,5%

Votação por Localidades (Pela ordem dos três candidatos):


                         Marcos Prado - Gustavo Aguiar  -  Nara Porto

Água Boa                    -           214 - 76 -  8
Água Boa dos Sales  -              84 - 44 -  8
Alagadiço de Cima   -            397 - 295 - 60
Algodoim                    -           168 - 167 - 9
Almercegas               -            130 -  69 -  82
Angelim                     -            246 - 47 - 24
Assentamento Batalha -        92 - 76 -  4
Bacumixá                         -      270 - 123 - 126
Bacumixá de Baixo        -        90 - 63 - 64
Barrinha do Norte         -      136 - 113 - 19
Batalha                            -      397 - 156 - 15
Cajazeiras                        -     149 -  72 - 4
Campestre                      -      371 - 183 - 22
Cana Brava                     -      122 - 268 - 48
Canaan                            -     1028 - 949 - 259
Caraúbas                        -       114 -  44 - 16
Carnaúba Torta             -       408 - 383 - 64
Centro                             -     1956 - 2314 - 431
Chão Duro                     -       116 -  79 - 50
Clemente                       -       255 -  70 - 37
Córrego da Ramada     -         85 -  97 - 33
Córrego dos Furtados  -       239  212 - 39
Córrego dos Pires         -         67 – 25 - 2
Córrego Fundo              -       344 - 491 - 18
Curimãs                          -         38 - 23 - 59
Emboaca -             176 - 280 - 27
Estrela -                 150 -  70 - 23
Fazenda Velha  -    61 -  17 - 24
Flecheiras -            937 - 554 - 99
Genipapeiro -         65 -  47 - 8
Guajiru -                331 -  99 - 92
Gualdrapas -         636 - 622 - 29
Gualdr. Bonfim -  126 - 66 - 3
Gurguri -                163 - 86 - 11
Ilha -                       140 - 165 - 15
Jandaíra -                44 -  26 - 34
Lagoas Novas -     261 -  99 - 55
Manguinhos -        30 - 87 -  4
Marrecas -            159 - 179 - 12
Miranda Ipu -       115 -  30 - 7
Mirandinha -        137 -  42 - 3
Mundaú -            1627 - 495 - 196
Mundo Novo -     151 -  80 - 20
Munguba -           266 - 223 - 43
Muribeca -           182 - 121 - 106
Olho Dágua -        97 -  23 - 10
Pe. Anchieta -     360 - 155 - 13
Palmeiras -           68 -  57 - 2
Panan -                199 - 102 - 23
Passa Lição -         94 –-100 - 23
Peixinhos -          204 - 233 - 22
Porteiras -           123 -  23 - 6
Purão -                 355 - 442 - 63
Quebra Braço -   120 - 119 - 7
Riachão -               121 -  56 - 3
Riacho do Meio  -  54 -  76 - 20
Salgado Nicolau -  54 -  78 - 25
Serrinha -              860 - 877 - 124
Serrote -                 60 -  67 - 42
Tamanduá -          131 -  51 - 15
Tigipió -                 217 - 136 - 95
Timbauba -           140 -  50 - 52
Ubaia -                    27 -  13 - 51
Urubu -                 128 -  12 - 44
Várzea Mundaú -  31 -  88 - 34
Vieira -                   113 - 231 - 44
Volta Córrego -    136 -  89 - 12
Zé Aires -               162 -  84 - 5

        




domingo, 9 de outubro de 2016

Praça do Ferreira - As Justificativas para a Derrubada da Coluna da Hora

                                                      O Fatídico Dia


Raimundo Girão discursa a favor da remoção.
Prefeito José Walter na outra ponta.
(Foto Correio do Ceará)
 6 de julho de 1967. Frequentadores da Praça do Ferreira, coração de Fortaleza, assistem a movimentação de autoridades e operários em torno do seu marco. Parecia inacreditável, mas o que os jornais alardeavam estava se concretizando. O abandono, a sujeira e o descaso nos últimos anos vitimava o monumento orgulho do fortalezense. Para nova reforma do logradouro, a Coluna da Hora seria removida. Numa solenidade que contou com discursos e palmas, às nove horas ela, que desde o dia anterior fora cercada por madeira, era demolida. Um dos oradores, elogiando a decisão do prefeito José Walter, afirmava que a coluna já não fazia sentido prático, “motivo pelo qual, sem valor funcional, já não se justificava; se fosse prefeito agora concluiria pela mesma providência, pois o marco do provincianismo cearense, fora de moda, não tem valor histórico, cumpriu a sua tarefa funcional, acompanhando, às vezes atrasada, outras adiantadas, o compasso da cidade”. Poderia ter sido expressão de um bajulador político, um assessor, mas era a voz da pessoa que, há 34 anos, a inaugurara, do ex-prefeito Dr. Raimundo Girão

Cercada por madeira no dia anterior.
(Foto Gazeta de Notícia)
 A Coluna da Hora, de treze metros de altura, em estilo Art Dèco, e projetada pelo engenheiro José Gonçalves Justa, a cargo da construtora Clovis Janja, foi inaugurada no dia 31 de dezembro de 1933, virada da noite para 1934, pelo jovem prefeito Raimundo Girão (33 anos), que anunciara, com certa antecedência, o horário do festejo, na praça do povo cearense, ainda com o Jardim 7 de Setembro. Com todas as poupas, não poderia ter escolhido noite mais encantadora. Fato tão relevante que foi transmitido ao vivo aos lares fortalezenses pelas ondas da Ceará Rádio Clube. Custou, porém, a derrubada do coreto, de 1920, em cuja área surgiu um pequeno jardim. Após a chegada da Banda de Música do Corpo da Segurança Pública, começava, a partir da 20 horas, a animação para a população que lotava o logradouro. O prefeito, já estudioso sobre o Ceará, fez uso da palavra às 23 horas, discorrendo sobre a história da praça, dos antigos gestores e, obviamente, da sua administração. No primeiro segundo do novo ano o “Relógio da Cidade” deu a primeira badalada. Iniciava a mais rica fase do maior símbolo de Fortaleza.

                            Como era a Coluna da Hora (Nirez - O Povo)


1936 - Foto Salles (Arquivo Nirez)
 Conforme repassado pela firma, conta Nirez os detalhes da sua magnitude de então: Com porta de ferro, trata-se de uma “coluna em concreto armado, marca “Portland”, de traço 1 : 2 : 4 foi contraventada com seis contraventamentos. Os claros foram preenchidos com alvenaria de tijolo simples e argamassas de cal ao traço de 1 : 2,1/2, com uma parte de cimento. Fundação em radier de concreto ao traço 1 : 3:  6, sendo nela chumbados os ferros das colunas de modo a formar um só conjunto. A escadaria exterior (calçada), revestida de marmorite polida (mármore artificial) de cor em conjunto  com a coluna, é de alvenaria de tijolos forrados com argamassa de cal com traço 1 : 2,1/2 e uma parte de cimento, bem como as quatro pilastras que a circundam. A escada interior, de grampos de ferro, chumbados na coluna, sendo o seu revestimento feito de pó de pedra , rico em mica e tratado a ácido, perfeitamente alisado e seguindo todos os contornos. 

A Praça como José Walter recebeu (Foto O Povo - Arquivo Nirez)
O centro da escadaria, base da coluna, em elevação, é, exceto uma faixa de 0,30 m, correspondente a um degrau,de mosaicos de três cores. Os vidros assentados são raiados duplos repousando em caixilhos de chumbo. O relógio foi adquirido na América do Norte, por intermédio da firma Byington & Cia,é de fabricação da Zeth Thomaz Clock Co., de Nova York. É uma máquina eletromecânica que funciona com a energia da Ceará Light, tendo corda contínua que e renova constantemente por meio de dois motores. Tem dispositivo para garantir o funcionamento da energia elétrica por doze horas. Possui mostradores nas quatro faces, de vitrolite branca com algarismos gravados a esmalte em baixo relevo, sendo em algarismos  arábicos em duas faces e nas outras duas, algarismos romanos. O relógio custou, montado, funcionando, a quantia de 1.625,00 dólares”.

O Passado de Saudade (Por Nirez - O Povo)


 A praça existe com esse nome desde 1871, após a destruição do Beco do Cotovelo pelo chefe municipal Boticário Ferreira. Antes era um terreno cheio de cajueiros ao redor de areias, cercado de casinhas e, desde 1825, os sobrados do Comendador Machado (hoje Hotel Excelsior) e do Pacheco, que virou sede da Municipalidade (daí o nome da rua Guilherme Rocha ter sido rua Municipal, ou da Municipalidade). Ela foi denominada de Feira Nova, Largo das Trincheiras, D. Pedro II, da Municipalidade, mantendo-se do Ferreira nos dias atuais.

1930. Velho coreto: célebre discurso do Dr. Morais Correia durante a campanha
que levou Fernandes Távora ao Governo Provisório, e a queda do prefeito
Cesar Cals ( Foto O Povo)

 Pelo lado da rua Major Facundo (antiga Palma), encontrávamos a Casa Almeida, o prédio do Majestic, Farmácia Pasteur, escritórios do Luiz Severiano Ribeiro, o Polytheama, o Menescal e, na esquina, a Pernambucana (anteriormente era a Agência de Loterias Nacional e, mais antigo, o Maison Art-Nouveau, de 1907).  Antes da Pernambucana funcionaram o Maison-Richie e o Restaurante Chic, e após, a Broadway, a Rouvanil, Tok Discos e hoje uma loja de bijuteria. Com poucas exceções, os bondes faziam ponto na praça.

1967: Pai João se despede da Coluna da Hora
(Gazeta de Notícias)
 O Jardim 7 de Setembro (ou Avenida 7 de Setembro) foi inaugurado em 1902, a primeira urbanização da praça, pelo intendente Guilherme Rocha, embelezado com pés de benjamins, cercado de grades e colunas, sendo que nas pontas passaram a existir os cafés, Java (nordeste), Restaurante Iracema (sudoeste), Elegante (sudeste) e do Comércio (norte), que perduraram por dezoito anos, quando, em 1920, Godofredo Maciel fez nova reforma, retirando os quiosques e colocando mosaicos por toda a sua extensão, surgindo o coreto, que em 1923 foi reformado e coberto. Entretanto, em 1914, dois anos após a fuga do Comendador Nogueira Accioly, vitimado pela insurreição popular (sendo a sua casa e empresas incendiadas), a mesma passou por nova intervenção, para colocação dos cabos subterrâneos, pelo prefeito Raimundo de Alencar Araripe. Os carros de aluguel que ficavam nos dois lados, sempre com os bancos de duas faces ao lado; os guardas elegantemente vestidos de túnicas de cores caqui, fivelas enormes nos grossos cintos e de capacetes perderam o serviço.

                                    Prefeito José Walter Justifica



A praça entregue por José Walter (Arquivo Nirez)
Conforme o próprio José Walter, a Coluna da Hora foi erguida sobre uma cacimba, e por conta disso a mesma estava cedendo, levando perigo aos transeuntes, além de afetar os relógios, fato que o relojoeiro Muratori se queixava da impossibilidade de os quatro funcionarem com a mesma hora. Fatos que justificaram o superintendente da SUMOV, Lauro Vinhas Lopes, a conveniência da retirada da coluna. “A praça que recebi estava acabada, quase nada restava a não ser o miolo, onde existia a Coluna da Hora. Nas laterais da Major Facundo e Floriano Peixoto havia espaço para carros, eram três pistas, onde se localizavam nada menos que nove postos de taxi. Os carros de aluguel faziam até manobras por cima da praça. Ali mesmo fui atropelado uma vez”, disse o ex-prefeito nos anos 80.

 Na época, 1967, afirmava anúncio nos jornais: “O fortalezense reconhece que o passado tem que ceder às exigências do presente e às perspectivas do futuro”. Com um plano originado de estudos de alunos da Escola de Arquitetura do Ceará, a frente o Dr. José Liberal de Castro, era intenção interditar o transito na área, que seria aumentada ao inserir a ela a extensão pertencente ao extinto Abrigo Central (inaugurado em 15/11/1949 pela gestão de Acrísio Moreira da Rocha, no antigo quarteirão, demolido em 1946, onde existia a Intendência Municipal, e em 1966 retirado por Murilo Borges) e os estacionamentos nas laterais (ruas Floriano Peixoto e Major Facundo): “temos certeza que o povo desta capital receberá com agrado a oportuna transformação porque o fortalezense de hoje já vê o progresso e o embelezamento de sua cidade com olhos de quem descortina horizontes mais largos para a sua terra”.

                   Murilo Borges Tentou Mas Faltou dinheiro 


 O projeto de demolição vinha da administração anterior, general Murilo Borges, inclusive com apresentação de maquete onde se via uma fonte luminosa, com a assinatura do engenheiro Marrocos Aragão. O que inviabilizou a sua realização foi a falta de recursos financeiros. José Walter, porém, resolver arriscar.

José Walter: "Meu Sucessor Não Concluiu a Reforma"


 O prefeito sempre se valeu da premissa de que, embora entregando o cargo em 1971, a praça não foi concluída, nem o seu sucessor, Vicente Fialho, deu prosseguimento, pois faltaram a fonte luminosa, o acabamento dos canteiros com lajes e o monumento ao Boticário Ferreira, serviços prejudicados pela descoberta de um forte lençol freático, conforme o urbanista responsável, Hélio Modesto (José Walter ao jornal O Povo, em 1984).

Eduardo Campos (Pres. da ACL e superintendente dos Diários
Associados) simboliza a destruição da coluna.
(Foto Correio do Ceará)
 O debate ficou entre os técnicos e os políticos, deixando o povo de lado. O ex-prefeito defendia a causa de uma equipe conceituada, que discutiu e ousou, pois o próprio chefe do executivo foi voto vencido quando os arquitetos sugeriram a retirada dos veículos ao redor da praça. Fortaleza crescia e o movimento na praça também, e assim um lugar com jardins não resistiria, num mesmo plano, com o agito de uma grande cidade. Era necessário um ambiente espaçoso para pedestres, com enormes bancos, lugares para grupos variados, e uma galeria de artes interna (Antônio Bandeira), ao mesmo tempo em que a parte mais elevada, próxima ao Cine São Luiz, voltar-se-ia para exposições.

                                       O Polêmico Raimundo Girão


 Raimundo Girão, nascido em 1900 em Banabuiú, pertencente, na época, à Morada Nova CE, criou-se num tempo de muita instabilidade, usufruindo da liberdade que todos os garotos idolatravam, como banhar-se nas águas do rio Jaguaribe, chamadas de “Rinaré” pelos índios jaguaribaras, e essa lembrança levou, entre muitas, para a capital onde foi estudar.

Raimundo Girão e o jornalista Dário Macedo
(Tribuna do Ceará - 1972)
 Em Fortaleza, na Faculdade de Direito do Ceará teve como professores Thomaz Pompeu de Sousa Brasil, Leiria de Andrade, Moraes Correia, Menezes Pimentel, Antônio Augusto de Vasconcelos, Andrade Furtado, e outros grandes educadores.

 Conceituado advogado e admirado pelas autoridades, após a renúncia da candidatura de Matos Peixoto, seu ex-professor, acabou indicado interinamente para a prefeitura em meio, segundo ele, à “vitória da revolução” (Getúlio Vargas) contra o presidente Washington Luís. Mas na hora do voto, quando adotara estilo político conservador, durante as eleições de 1954, perdeu para Acrísio Moreira da Rocha, que foi para o segundo mandato. Culpou traições dentro do seu partido, a UDN. Durante a ditadura militar, foi secretário de Urbanismo do General Cordeiro Neto, tendo como uma das obras a demolição de parte do Palácio da Luz (1960) para prolongar a rua Guilherme Rocha por alguns metros. Consultado, deu o aval para a queda da Coluna da Hora ainda na gestão do general Murilo Borges.

 "Os que têm o poder nas mãos não se interessam pela Cultura"


 Segundo o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo (Filho), Nirez, a praça erguida na administração de José Walter “foi imposta na época da repressão, sem a consulta ao povo, porque era proibido. Uma praça sem alma, toda de cimento, sem arte, sem bancos de madeira, sem iluminação e com esconderijos para guerrilhas”. “Derrubar a Coluna da Hora sem consulta popular foi um ato insensato que pode ser comparado à derrubada do Pão de Açúcar”. “O que devia ser feito era uma reforma , mas o que foi feito foi a destruição de anos de tradição, a substituição de uma praça por um projeto  que nada tem a ver com Fortaleza, de nada funcional, sem diagonais, que nada se identifica com a nossa cultura”. “Nos apegamos às construções dos homens públicos. Mas os que têm o poder nas mãos não se interessam pela cultura”.

 Em 1991, o prefeito Juraci Magalhães entregou a atual praça, Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza (2001) com o monumento ao Boticário Ferreira e a volta da Coluna da Hora. Mas aquela do relojoeiro  Muratori se foi.  Resta-nos as lembranças.

Da nossa praça, esta triste lembrança. Adeus! (Foto: Manuel Lima - Gazeta de Notícias)

Pesquisas: Jornais O Povo e Tribuna do Ceará;  Gazeta de Notícias e Correio do Ceará (Diários Associados). 


                                                                    

                                                             

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A Polícia e as Grandes Manifestações - 1968 - 2016

Bergson Farias. Morto pela ditadura.
 Não existe unanimidade quando tratamos de política. Num País continental como o Brasil, muito menos. Tem-se, sim, lutado por direitos e deveres constitucionais, por liberdade e justiça.  Essa luta por igualdade tornou-se evidente a partir de 1979, com a Lei da Anistia, e gostaríamos que hoje estivéssemos vivendo em paz. Pelo contrário, a desigualdade social se evidencia com o fortalecimento das elites, e a ambição muito mais. Frustra-nos, mais ainda, convivermos com a violência, o assédio e a vigilância preconceituosa. Infelizmente continuamos assistindo a ação da polícia direcionada à repressão aos negros, aos pobres, aos que levantam a voz por eles, abordagens  repressoras que deveriam ter sido sepultadas pelos oficiais.

 28 de março de 1968: ao tomar conhecimento de que estudantes organizavam uma passeata contra os Estados Unidos, o general  Osvaldo Niemeyer Lisboa orienta a polícia a invadir o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, assassinando Edson Luís de Lima, desencadeando forte reação popular, que, após vigília noturna na Assembleia Legislativa, acompanhou a marcha fúnebre de sessenta mil pessoas rumo ao cemitério. Nas principais cidades do País os protestos contra a barbárie impuseram um recuo momentâneo da repressão. Em Fortaleza, na manhã de domingo seguinte, 31, foi realizada uma missa, em memória do estudante, na Igreja do Carmo. Ao seu término, foram fixadas faixas pretas, sob observação severa de policiais da 10° Região Militar, no que resultou na dispersão dos enlutados.

Estudantes inauguram praça na Faculdade de Medicina e a
denominam com o nome d colega morto no RJ.
 (Gazeta de Notícias - Acervo Lucas)
 Não tardaria para a próxima manifestação: 1° de abril, contra o aniversário do golpe de 64, quando cinco mil pessoas partiram da Faculdade de Direito rumo ao Centro Histórico. No dia seguinte, a Polícia Federal prendia os estudantes Antônio de Matos Brito e Juraci Mendes de Oliveira, fato repudiado pelo meio acadêmico e que gerou uma greve geral até o dia seis. Após pedágios nas ruas, os colegas conseguiram pagar os “habeas corpus” dos presos. Durante essas manifestações, o fotógrafo Gumercindo Gomes, da Tribuna do Ceará, após sofrer agressões da polícia, teve sua máquina tomada e danificada.

Tribuna do Ceará junho 1968: choque na Praça J. de Alencar.
(Acervo Lucas)
 24 de junho de 1968: estudantes, que desde o dia anterior promoviam campanha contra o crime do Rio de Janeiro, concentraram-se na Praça José de Alencar, iniciando uma passeata até a Praça do Ferreira, sendo acompanhada pela polícia, que usava rádios para se comunicar. Aos gritos de “Universidade para o povo” e “Abaixo a ditadura!”, portando faixas e cartazes, fizeram o percurso de volta, e quando se posicionaram ao lado do busto de José de Alencar, foram recebidos pela violência policial, que procurava a sua dispersão. Em pleno final de tarde, quando os trabalhadores voltavam para suas residências. 


GN denuncia massacre, mostra estudantes correndo
e repórter ferido . (Acervo Lucas)
 Fez-se uso de gás lacrimogêneo, sendo que parte dos transeuntes saiu em socorro dos estudantes, que apanhavam da polícia, como Antônio Juvenal Farias, ferido com dois tiros da PM. Durante os espancamentos, que incluíram inclusive o fotógrafo Sabino Henrique, do jornal Gazeta de Notícias, muitos correram para dentro do Teatro José de Alencar, enquanto outros para o prédio ao lado, então Faculdade de Odontologia, outrora Escola Normal. Os vitimados fisicamente foram encaminhados à Assistência Municipal, inclusive PMs, alvos de coquetéis molotoves lançados pelos estudantes e dos confrontos com populares indignados.

O Nordeste, abril 1964: Murilo Borges, prefeito-general
afasta os "comunistas".
(Acervo Lucas)
 Foram presos e encaminhados ao DOPS trabalhadores, comerciantes e lideranças estudantis como Milton Barreto, José Gonçalves, José Jair Monteiro e Bergson Farias, vice presidente do DCE da UFC, este detido no hospital. Devido à gravidade, a UFC decretou feriado no dia seguinte, diante de provável reação do meio acadêmico revoltado.  Apesar da solidariedade do Arcebispo de Fortaleza, Dom José Medeiros Delgado e dos Sindicatos dos Jornalistas e dos Bancários, resultando na divulgação de documento de repúdio à violência policial, Bergson Farias acabou expulso da Faculdade de Química pelo Reitor Fernando Leite. Partiu naquele ano, com a crise social aprofundada pelo A. I-5, para o Araguaia (TO), de onde desapareceu em 8 de maio de 1972, ferido em combate. Levado para Xamboiá (TO), seu corpo, deformado após assassinado por baioneta, foi pendurado numa arvora de cabeça para baixo.

Sobre esses tristes episódios da nossa história, contra o advogado e  Juiz do Trabalho aposentado, Inocêncio Uchôa,  presidente do Centro Acadêmico de Direito em 1968:

“As torturas eram bárbaras: espancamentos, choques elétricos. Independentemente da sua participação de esquerda, se estava na luta armada ou não, a tortura era comum a todos. Muitos espancamentos, muitos choques elétricos e muitas humilhações. A tortura não é uma sessão, é um período”. “Na hora da tortura, eu olhava para os torturadores e não acreditava que aqueles caras tinham a coragem de praticar tantas barbaridades. É tão inacreditável que o ser humano seja capaz de praticar tantas barbaridades que você não acredita que aquilo esteja acontecendo”.

Assistência médica a comunistas era proibido. TC Jun 1972.
(Acervo Lucas)
Em março de 1974, a Polícia Federal prendeu, no Ceará, doze integrantes do Movimento Comunista Internacional, entre os quais operários, estudantes secundaristas e professores universitários, lutadores incansáveis pela democracia, como Francisco Auto Filho e Nelson Campos. Jovens sonhadores que se reuniam às escondidas num sítio em Pajuçara, pois seus direitos, e dos brasileiros, por liberdade, estavam proibidos. Chamados de “subversivos”, tiveram seus nomes expostos à população como criminosos, porque era crime pensar diferente dos poderosos, ter direito a uma opção política, num País onde para se viver “em paz” não deveria contestar o autoritarismo, tampouco denunciar a corrupção abafada. Naquele fatídico dia, Gilvan Rocha, que se apresentava como Clóvis Tavares Pinheiro, conseguiu escapar como “bandido”, sendo caçado pela Federal para prisão preventiva, junto com sua companheira, Professora Ester Barroso Pinheiro, funcionária da Delegacia do Ministério de Educação.

Correio do Ceará: Auto Filho, Gilvan
Rocha e professores universitários
são presos. (mar 74 - Acervo Lucas)
 Pode parecer inacreditável, mas nos dias atuais, apesar de tantos avanços constitucionais dos direitos do cidadão, vê-se uma polícia ainda repressora e vingativa, obviamente não no seu conjunto, pois sabemos da integridade da maioria, mas preocupante a participação de setores superiores do seu quadro em casos como a “Chacina de Messejana” ocorrida no bairro do Curió em 12 de novembro de 2015.

Segundo o GAECO, Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas, à frente o Procurador Geral de Justiça do Ceará, Plácido Rios e demais promotores, tratou-se ação de maneira planejada e intencional, envolvendo cerca de 100 militares, protagonizada por 44 PMs, uma vingança pela morte de um policial que resultou na execução sumária  de onze jovens inocentes, além de sete feridos a tiros. As entradas do bairro foram fechadas para que não houvesse chance de defesa. Pessoas que se encontravam nas calçadas não tiveram tempo de correr diante das balas atiradas pelos policiais encapuzados, que foram identificados através de conversas pelas redes sociais, telefonemas ou rádios de comunicação. Ou seja, o crime se tornou tão banal que bandidos, civis ou militares, não se intimidam em comentar sobre ele. Presos recentemente no quartel 5° Batalhão, os evolvidos têm recebido a solidariedade de colegas, alegando falhas nas investigações.  Mais preocupante foi a posisão de um deputado militar, candidato à Prefeitura de Fortaleza, reclamar da conclusão do inquérito em plena campanha, ao que parece duvidando da intenção do Ministério Público. Não vimos, entretanto, a sua posição a respeito dos responsáveis pelo atentado que chocou o Estado.

7 de Setembro de 2016: Flagrante da PM na Beira mar revolta a sociedade. Foto Kid Junior (Diário do Nordeste)
7/9/2016: por volta das 16 horas, manifestantes começam a se aglomerar no aterro da Praia de Iracema, no Dia da Independência, num ato contra o presidente recém-eleito indiretamente, Michel Temer. Por todos os dias de conclamação para o evento, via redes sociais, orientava-se para um comportamento pacífico e atenção para prováveis infiltrações. Conforme o jornal Diário do Nordeste, há noite, as 20 mil pessoas que participavam ordeiramente da defesa do direito da liberdade e respeito à Constituição, começaram a se dispersar, após caminhada até o anfiteatro da Volta da Jurema, sendo surpreendidas com a chegada brusca da polícia. Equipes do BPRaio e do Ronda do Quarteirão encararam as pessoas presentes no calçadão, cearenses e turistas, fazendo uso de spray de pimenta e bombas de efeito moral, detendo inocentes e ferindo indefesos como um fotógrafo do O Povo. A reação da sociedade veio de organismos como a OAB, Secção Ceará e da Defensoria Pública Geral exigindo imediata apuração e punição aos policiais que se excederam.

 Conclui-se que fatos dessa natureza vão além do preparo policial, que de fato passa por jornadas de exercícios e aulas, procurando a defesa do cidadão, desde que não cruze com um esquerdista. Uma história aberta em jornais e livros mostra que, independente do governo ao qual é subordinado, o Brasil não superou o ódio e preconceito às pessoas que têm um pensamento socialista. Não importa se chamados de “comunistas”, “agitadores”, “subversivos” ou “baderneiros”, parte da sociedade tem complexo por isso. São cidadão que têm direito de difundir suas ideias.

 Por traz de tudo está o militarismo atrelado ao capitalismo dos Estados Unidos e seus interesses econômicos (vide o pré-sal), danando-se a luta das classes estudantis e operárias por uma vida digna e desatrelada da elite fascista que se perpetua no poder. A desculpa de “mensaleiros” e do “petrolão” não encobrirá a corrupção que a história não pode contar, pois a ditadura militar e seus filhos fecharam os cadeados da realidade. Foram-se o Bergson, os meninos do Curió e tantos outros, barbaramente, mas acima de tudo sempre existiu a esperança, e como ela é interna, guardada no âmago, invencível, jamais se apagará a chama da liberdade.


Biblioteca Pública Menezes Pimentel. Espaço Estação prossegue co exposição sobre a Anistia (1979)


Fontes:

“Foi Assim - O Movimento Estudantil no Ceará  de 1928 a 1968” (Braulio Ramalho).
Jornais Gazeta de Notícias e Tribuna do Ceará (1968); O Povo e Diário do Nordeste (2016).



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Geraldo Nobre - Aniversário do Professor - Por Instituto do Ceará

Notável jornalista, economista e historiador (Foto Diário do Nordeste)

Geraldo da Silva NOBRE - Nasceu em Morada Nova, 31 de agosto de 1924, filho de João Eduardo Nobre e Pulquéria Silva Nobre. 

Estudou no Colégio Castelo Branco e no Liceu do Ceará. Economista pela Faculdade de Ciências Econômicas do Ceará (turma de 1944). Licenciado em Geografia e História (1953). Redator da “Gazeta de Noticias”. Editorialista do “Correio do Ceará”; também militou no “Mordeste”, “fortaleza” e “Unitário”. Professor da Universidade Federal do Ceará (Faculdade de Ciências Econômicas) e da Universidade Estadual (Faculdade de Filosofia). 

Chefe do Serviço de Imprensa do Governo do Ceará (1967/1971). Diretor do Arquivo Público Estadual-(1981/1994). Fundador e Primeiro Presidente do Centro de Economistas do Ceará, que se transformou posteriormente no Sindicato da classe.

Portador da Medalha do Mérito da Segurança do Trabalho, conferida pelo então Ministro João Goulart. Presidente do Instituto do Ceará. Usou os pseudônimos Adrião Barbosa Aníbal Diniz H. D. e Hagadê.

Publicou mais de 10.000 artigos e comentários, o que, reunido, daria para formar centenas de obras, todas da maior importância para os temas versados. Seu primeiro livro chamou-se Estudo Sobre Antônio Cardoso de Barros,(1968), seguindo-se: Datas e Fatos de 1822. Ceará; A Capital do Ceará; História do Tribunal de Justiça do Ceará; Introdução à História do Jornalismo Cearense; Tibúrcio Rodrigues - A Imprensa e a República; História de Morada Nova (2 volumes); As Oficinas de Carne do Ceará - Uma Solução Local para uma Pecuária em Crise; João da Silva Feijó - Um Naturalista no Ceará; História Eclesiástica do Ceará (primeira parte); Ceará - Energia e Progresso; O Legislativo Cearense - 150 Anos de Atuação; O DNOCS e o Novo Nordeste; Para a História Cultural do Ceará - O Conselho Estadual de Cultura; Amor de Branco em Tráfico de Negro; História Judiciária do Ceará (1° volume); Administração; Universalidade do Pensamento.

 Faleceu em Fortaleza, aos 80 anos, no dia 28 de junho de 2005.

Um dos livros mais brilhantes do Estado do Ceará

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Trairi - Paróquia N. Sra do Livramento, de 1874 a 1915. Com Padre Rodolfo.


Padres Anteriores à Paróquia



Dos religiosos que celebraram em Trairi, destacamos, no século XVIII, os padres missionários Fernando Bezerra e Sebastião Ferreira (1727); Frei Ximenes de Santa Cruz (1728), Felix de Azevedo (1741), José Moreira (1743), Vicente dos Santos (1745), Antônio José da Silva (1761); Eloy da Cunha Andrade (1768), Francisco Marreiros da Silva (1772), Antônio José Cavalcante, Francisco Antônio da Silva (1798); e, por mais de trinta anos, José Furtado de Mendonça, neto de Dona Maria Furtado de Mendonça, a das primeira povoadora de origem branca e instrutora da então capela de Nossa Senhora do Livramento.

 No século seguinte, o frei José de Santa Clara (1800), que pregava em Uruburetama e na ribeira do Curu; Pe. Francisco Antônio Gusmão, Pe. Antônio Thomaz Teixeira Galvão, Pe. Antonino Pereira de Alencar e Pe. Manoel de Lima Araújo (futuro deputado provincial), dos tempos de Trairi Capela. Com o anúncio da vila pela primeira vez, em 1863, foi transferido para Saboeiro, como coadjutor, já que era natural de Assaré, ali próximo. Retornou a Trairi, onde permaneceu capelão de 1871 a 1872, tendo acolhido um jovem padre que o destino o tornaria famoso: Cícero Romão Batista.

Ordenado no Seminário da Prainha em 30 de novembro de 1870, Padre Cícero logo partiu para a sua terra. O jornal Cearense o trás, em 1 de abril de 1871, comandando, no Crato, a Procissão dos Passos, já seduzindo os fiéis com seus sermões de estilo primoroso. Aos 27 anos, procurou Dom Luiz Antônio dos Santos, em Fortaleza,  a quem comunicou a ideia de criação de um seminário no Crato.

O bispo, grato pelo esforço do jovem padre professor de latim no seminário em que estudara, condicionou o pedido a uma missão, exatamente em Trairi e Mundaú. E assim, durante dois meses, provavelmente entre novembro e dezembro de 1871, batizou, benzeu a capela de São José (Canaan), rezou e aconselhou aquele povo praiano. Isso pelo fato de os jornais da época citarem, em 19 de janeiro de 1872, o padre passageiro do vapor Ipojuca, que chegara do norte. Assumiu como primeiro pároco de Juazeiro do Norte em 11 de abril de 1872.

Portanto, trata-se de mais um fato na rica história de Trairi, que consta como a terra que acolheu o fundador do Ceará, Martim Soares Moreno (1604), e as Santas Missões a partir de 1608.

 Os primeiros párocos de Nossa Senhora do Livramento, além do saudoso Padre Rodolpho :


1 - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA CARVALHO (14/8/1874 a  18/2/1878)


Pe. Carvalho. Primeiro pároco

 Natural de Arneiroz CE (18/05/1834), filho de Antônio José Carvalho e de Maria Claudina de Carvalho. Recebeu ordens de presbítero, de D. Luís, em Fortaleza no dia 20 de setembro de 1862, mas ordenado em Sobral (10/01/1863), foi vigário da freguesia de Nossa Senhoras dos Remédios (Parazinho) de 15 de setembro de 1865 a 1874, quando nomeado para Nossa Senhora do Livramento (então nome de Trairi) pelo primeiro bispo do Ceará, Dom Luís Antônio. Assumindo em 5 de setembro de 1874, teve como primeiro sacristão Francisco Gordiano do Nascimento, patriarca de honrada família da sede. Sua chegada foi magistral, diante de uma procissão ao lado da imagem da Milagreira. Deixou Trairi em 18 de fevereiro de 1878. Em seguida foi vigário em Pereiro (10/7/1880 a 27/2/1899), na época em que aquele município  se chamava Posse, e em que entrou na política como deputado provincial (1893 - 1896). Anteriormente, a Igreja tinha como capelão o Pe. Manoel Lima de Araújo, transferido em fevereiro de 1874 para Saboeiro. Em seguida foi vigário de Pereiro a partir de 1880, falecendo naquela vila em 1899.




2 - PEDRO LEOPOLDO DE ARAÚJO FEITOSA (1878 - 1879)



Monsenhor Leopoldo
Nasceu no dia 3 de maio de 1853 em Arneiroz, nos Inhamuns. Seus pais se chamavam João Leopoldo de Araújo Chaves e Ana Leopoldo Alves Feitosa. Ordenou-se no Seminário da Prainha, Fortaleza, em 02/12/1877. Começou sua missão em Trairi em 3 de março de 1878. Na posse, estava presente, com nome registrado, o brilhante jornalista e poeta abolicionista Antônio Dias Martins Jr, irmão do famoso poeta trairiense Álvaro Dias Martins. Após um ano, mudou-se para Soure (Caucaia), lá permanecendo entre setembro de 1879 e junho de 1888. No mesmo ano estava em Pacatuba. Entre 1884 e 1885, foi deputado estadual (provincial), época em que foi professor do Liceu do Ceará, catedrático em latim, e publicou o livro "As Belezas da Religião". Cura da Igreja da Sé (de Fortaleza) entre 1895 e 1904, após o cargo de Conselheiro Diocesano (1901), tornou-se monsenhor em 3/4/1902, quando visitou Trairi naquele ano. Faleceu em Fortaleza em 29/03/1916.



3 - JOAQUIM FERREIRA DE CASTRO (1879 - 1884)


 Nasceu em Russas CE em 21/12/1848, ordenando-se em Fortaleza no dia 30/11/1875. No ano seguinte iniciou como pároco de Tamboril, e em seguida de Trairi. Batizou Pe. RODOLPHO FERREIRA DA CUNHA, bisneto do fazendeiro Luiz Ferreira da Cunha, que trabalhou e faleceu durante  ampliação da igreja.  Padre Castro morreu de tuberculose no dia 31 de junho de 1884, sendo enterrado no pé do altar-mor da paróquia de Trairi. No dia 7 de agosto, o intendente Antonio Barrozo de Souza mandou celebrar missa em sua alma.


4 - JOAQUIM ROMUALDO DE HOLLANDA (21/07/1884 a 9/7/1887)


 Nasceu em Fortaleza, no bairro do Tauape, em 25/08/1844, e estudou no seminário homônimo, ordenando-se em 1870. Ocupou o cargo de secretário da Câmara Eclesiástica até o fim de 1872. Primeiro vigário de Guaramiranga (N. Sra. da Conceição), em 1873-76, seguido do Acarape (Redenção), entre 1876-78, partindo para São Paulo, onde foi vigário de Parnaíba e de Sarabuhy SP, além de cônego da Capela Imperial. Em Trairi desde 21 de setembro de 1884 (posse) permaneceu até 1887.


5 - VICENTE TEIXEIRA PINTO  (28/8/1887 a 24/12/1892).


 Natural de Aurora, Padre Pinto, que anteriormente foi deputado pela Província, construiu a sacristia do lado sul do antigo templo, obra embargada por conta do falecimento do Sr. Luiz Ferreira da Cunha naquela empreitada. Preparou Pe. Rodolpho, trairiense, para a Primeira Eucaristia e para o seminário. No dia 27 de junho de 1891, recebeu a visita pastoral de D. Joaquim Vieira, o qual citou a sorte da comunidade Lagoa de Dentro, mais meia légua de terra do lado esquerdo do rio Curu, no Rosário.



6 - MELQUIDES AUGUSTO DE MATOS (1893 - 1894)









7 - ANTÔNIO Thomaz  - (14/09/1894 a 03/01/1897)

Príncipe dos Poetas
Famoso pelas suas brilhantes poesias, foi considerado o primeiro “Príncipe dos Poetas” do Ceará, ordenando-se em 1891. Após Trairi, principiante, foi pároco em sua terra, Acaraú, onde nasceu em 14/09/1868. Durante uma das visitas bimestrais à capela de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, em 1898, convenceu os fiéis, indígenas e descendentes, a muito custo, a levar as imagens e o sino para a igreja de Itarema, Nossa Senhora dos Navegantes, diante da invasão das dunas, que viriam a soterrá-la por 45 anos. De Itarema, a imagem primitiva de Nossa Senhora da Conceição, doação da rainha Maria I, que mandou construir o templo atual no mesmo período da de Trairi, desapareceu. Na verdade “permuta”, em troca de uma imagem espanhola, “Labareda”, encontrada na praia pelos índios, sagrada para eles, numa decisão unilateral. Anos depois, suspeitou-se que a mesma estaria no Museu Dom José, em Sobral, sem catalogação, junto a outras da Santa na mesma situação, e praticamente ninguém de então vivo para testemunhar, se fosse o caso, qual a verídica. Faleceu aos 72 anos, em 16/07/1941, vítima de ataque cardíaco, após operação no hospital São João (Jacarecanga) em Fortaleza.


8 - ANTÔNIO PEREIRA DA GRAÇA MARTINS (21/02/1897 a 15/2/1900)



Pe. Graça
 Aluno do Seminário da Prainha, ordenou-se em 30 de novembro de 1893. Sua primeira missa foi, como subdiácono, em Aracati, no dia 8 de dezembro daquele ano. Em seguida foi para Maranguape, como coadjutor, mas sua primeira paróquia foi Nossa Sra. do Livramento, em Trairi. Padre Graça não se adaptou à simplicidade da antiga casa paroquial, tendo em vista a sua repugnância a insetos e quaisquer anfíbios. Foi morar com o farmacêutico Joaquim Tomaz da Cunha, na casa onde residiu, até o fim da vida, a professora e religiosa Madrinha Morena, chefe dos Correios. Sua afeição a “Marinheiro Cunha” era de tal ordem que deixou a paróquia após a morte do amigo, em 1900. Transferiu-se para a sua terra, Paróquia de Limoeiro do Norte (posse em 22/04/1900). Ali, entrou na política, como intendente, chegando a presidir a Câmara de Vereadores. Em 1908 retornou para Aracati, enfim pároco, assim como em Tianguá (24/05/1915), onde permaneceu pouco tempo. Voltaria definitivamente para a região jaguaribana. Assumiu a Paroquia de União (hoje Jaguaruana) em 5/7/1916, ajudando na criação da Paróquia de Itaiçaba (antiga Passagem das Pedras), da qual foi seu primeiro pároco (N. Sra. da Boa Viagem), em 29/09/1941.





Pe. Epifânio

9 - JOÃO EPIPHANIO DE FREITAS GUIMARÃES (1900 - 1901)


 Nasceu em Messejana, na época município cearense, em 07/04/1875, ordenando-se em Fortaleza em 30/11/1899. Iniciou como vigário em Trairi aos 24 anos (15/02/1900), mas pesar do pouco tempo em Trairi, Padre Epifânio deixou a lembrança da criação da Irmandade do Coração de Jesus. Trouxe de Portugal a imagem maior de Nossa Senhora do Livramento, segundo os especialistas de formosura rara. Depois seguiu para Pedra Branca.



10 - MACÁRIO BEZERRA DO VALE ARRUDA (1901 -1902) 


Devido a problemas de saúde, só passou nove meses. Padre na época tinha que andar de cavalo e percorrer quilômetros para cumprir o ofício divino.



11 - JOÃO CASIMIRO VIANNA (16/5/1902 a 25/2/1903).


 Nasceu em Lavras da Mangabeira em  07/09/1876, ordenando-se em Salvador BA em 05/10/1901, rezando a primeira missa em Brejo Santo, onde residia sua família. aNo mesmo ano foi coadjutor de Itapipoca e Arraial (Uruburetama) até seguir para Trairi com 25 anos. Reclamava da solidão diante de um povoado tão pequeno. Famoso por soltar o estoque de fogos de artifício que sobraram das festas de dezembro. Alegou que queria companhia.


12 - JOSÉ GONÇALVES FERREIRA (25/2/1903 a janeiro de 1904) 



Padre Ferreira, de Aurora
Natural de Aurora, recebeu a Ordem do Presbiterato no Seminário da Prainha em 30 de novembro de 1902, era irmão de D. Alberto Gonçalves, monge beneditino do Rio de janeiro. Sua primeira paróquia foi Trairi aos 26 anos. De temperamento elevado, não deixou boa impressão aos fiéis. Costumava reclamar do local e das pessoas de Trairi. Transferiu-se para a Paróquia de São Raimundo Nonato, de Várzea Alegre, onde permaneceu até o seu falecimento, em 3 de novembro de 1917. Suicidou-se por enforcamento após calúnia da parte de dois indivíduos.









13 - JOSÉ ROMUALDO DE SOUSA (1904 - 1915)


 Nasceu em Fortaleza em 07/02/1875. Célebre padre voltado aos desígnios de Deus. Notável marceneiro, reformou a igreja primitiva, construindo os dois corredores laterais, o quarto dos sinos e o confessionário. Ergueu a capela de Mundaú. Educador, ajudava os precursores professores José Joaquim Gouveia (que foi vereador e intendente) e Benvinda Xavier na educação da maioria dos trairienses, aqueles que não podiam estudar na capital. Em 1912, havia rumores de que estava deixando a paróquia, no que de imediato um abaixo-assinado, partindo dos fiéis mais próximos, implorou ao bispo a sua permanência. D. Joaquim ouviu N. Sra. do Livramento.


Pe. Romualdo. Histórico.
 No mesmo ano que deixou Trairi (1915), foi para Soure (Caucaia), onde permaneceu 33 anos, ou seja, até o fim da vida, aos 72 anos. Justamente na Seca do 15, quando a miséria imperava com a excassez d´água no Ceará. Locomovia-se a cavalo para as distantes comunidades onde eram agendadas missas, festejos, além do dever da extrema-unção aos doentes. Nas horas vagas, costumava construir miniaturas de navios e até barcos verdadeiros, realizações teatrais e formação da banda musical da paróquia, constituída até de piano, saxofone, clarinete e percussão, os quais dominava com maestria. Humilde, não perdeu o ofício de pedreiro, cooperando na construção de capelas, incluídas as do Pecém e de São Gonçalo. Na educação, ensinou teologia e filosofia aos jovens, sua grande paixão. Na paróquia, ergueu o altar mor e novas dependências, além da sua torre, com ele no serviço braçal. Fez as medições e mandou buscar em Paris relógio e sino para a mesma. Até 1943, a quatro anos da sua morte, manteve sob seu controle o fornecimento de energia da cidade após comprar um locomóvel. Dizem que “a única coisa que Pe. Romualdo não fazia era sapatos”. Segundo o padre, “não iria fazer trabalhos com as mãos para desmanchar com os pés”.

Padres Graça e José Romualdo, o eclético, entre os colegas


 Em comemoração ao centenário do seu nascimento, a prefeitura de Caucaia encomendou uma estátua do religioso ao famoso escultor Bosco. Seria um motivo a mais para abrilhantar os festejos se o rosto não ficasse tão diferente da realidade. Ademais, apresentaram o padre vestido de paletó, quando usava sempre um guarda-pó, sua vestimenta indispensável quando não realizava missa ou trabalhava como operário. Constrangido, o artista pois a culpa no retrato que lhe repassaram.

 Padre Rodolho Ferreira da Cunha



Livro do Seminário da Prainha confirma a ordenação de Padre Rodolfo, de Canaan.


 RODOLPHO FERREIRA DA CUNHA (1880 - 1967).


 Não foi pároco em sua terra, mas seu amor por ela e biografia respeitável merece menção. Nascido em 26 de setembro de 1880, era filho do segundo casamento do coronel Raimundo Ferreira da Cunha e bisneto do fazendeiro Luiz Ferreira da Cunha, que trabalhou na ampliação da igreja, Padre Rodolpho é a figura mais querida e lembrada de Lavagem (Canaan). Jovem, foi para o Seminário da Prainha, onde completou os estudos um ano antes de sua ordenação por conta da pouca idade.

 Dedicado, aprendeu vários idiomas, desenvolvendo a arte musical, a qual levou para sua terra. Conforme a historiadora Maria Pia, um dos seus desejos era participar de missões com os índios, que era tarefa das mais provocantes e difíceis desde a primeira, em 1608, quando os padres Francisco Pinto e Luís Figueira pisaram em terras trairienses. Seu desejo foi atendido com sua missão no Brasil Central.



Pe. Rodolpho. Filho querido de Canaan e dos trairienses.




Ordenou-se em 28 de março de 1903, tendo realizado a primeira missa na capela do seminário onde estudou. Em 1905 foi capelão do Asilo dos Alienados (Asilo da Parangaba) e capelão da Igreja Bom Jesus dos Aflitos (Parangaba) de 1908-15 e seu vigário entre 1915-25, além de brilhante professor do Seminário da Prainha (1902-14), e de geografia no Liceu do Ceará , colégios Cearense e Castelo Branco, ginásio do Crato, além de sócio-honorário n° 21 do Instituto do Ceará, em 1922, e vigário de Solonópole entre 1928-31. No poder público, foi Inspetor Escolar no período de 1931 e 1938.



 No livro comemorativo dos 50 anos do Seminário Episcopal do Ceará (1915), o padre foi saudado como “lente (professor) mais querido dos seminaristas. Coração formado de bondade e brandura, a todos prodigaliza. Desde 1902, ainda theologo, distribui aos alunos do seminário as luzes de sua vasta erudição. Ordenado presbítero em 28 de março de 1903, não quis abandonar esta casa, e até hoje permanece entre nós, a todos edificando pelo exemplo de suas atraentes virtudes”.

 Suas maiores alegrias: o dia da ordenação, a primeira missa e as Bodas de Ouro da sua ordenação. Partiu para a vida eterna em 18 de abril de 1967, em Fortaleza, na Casa de Saúde Eduardo Salgado. Conforme sua conterrânea Maria Pia, “toda Canaan chorou a sua morte, aos 87 anos", onde passara seus últimos anos. Após dez anos, trouxeram seus restos mortais, que repousam na capela de São José, construída por sua avó, Maria Bezerra de Menezes, Dona Iaiá, a qual foi reformada por ele, anexando a ela a torre com relógio. Foi sugestão sua a mudança do nome, de Lavagem para o bíblico. Por ocasião das Bodas de Ouro, o coral de Trairi o saudou com a música “Salve Padre Rodolfo”:

“Sede bem vindo ao nosso meio, amigo
Santo Ministro de Jesus
Vossa Missão é muito nobre
Espalhar no mundo a luz”
“O vosso lema quase não se exprime
Tão perfeito e singular
É sagrado, é sublime
Só Jesus soube inspirar”
Coro
“Salve, salve Padre Rodolfo!
Deus na terra em forma humana
A vós hoje tributamos
De louvor o nosso hosanas
No peito de gozo estúa
E nossa alma, na fé se extasia
E cantamos e exultamos
Em transporte de alegria”


Dados de consultas:

"Como Nasceu Trairi" - Maria Pia de Sales
"Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará 1914"
"Igrejas do Ceará 1997" - Francisco de Andrade Barroso
 Acervo Lucas



Seminário da Prainha no início do Século XX