quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trairi - José Rôla e a Praça do Ferreira

 Os Primeiros Cinemas de Fortaleza


 
Av. 7 de Setembro, 12
(Cine Polytheama)
Os primeiros filmes exibidos em Fortaleza, na fase muda do cinema, eram de origem francesa (Paris) e italiana (Roma e Torino). Usava-se bar, teatro e piano, cantores, afinal era de bom gosto, sendo o seu objetivo comercial atrair a classe social mais abastada.

Em 26 de agosto de 1908, a cidade se espantou com a chegada do Cine Di Maio, ou "Cinematographo Art Nouveau", do italiano Vittorio di Maio, na antiga rua da Municipalidade, ou Intendência, hoje Guilherme Rocha. Vittorio, que era considerado o "Pai do Cinematographo no País", por ironia do destino acabou falecendo dentro do próprio no dia 21 de abril de 1926. Já em 1909, chegou o Cine Rio Branco, de Henrique Mesiano, na rua Barão do Rio Branco (antiga Rua Formosa) e o Cassino Cearense (Júlio Pinto).

  Dois grandes capitalistas, Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado, compraram o Cine Di Maio, pois Vittorino falecera. Nascia o Cine Riche e o império das sétimas artes do cearense de Baturité, Severiano Ribeiro.



Polytheama, do Homem de Trairi


José Rôla 
Enfim, em 2 de julho de 1911, com "Pedra¨ (da Pathé-Frères) surgiu o quinto cine de Fortaleza, chegando à importante fase da história de uma família do meu Trairi.

O Cine-Teatro Polytheama foi o primeiro a instalar-se no meio do quarteirão nobre do Centro, ao lado da Praça do Ferreira, na rua Major Facundo, antiga Rua da Palma. Na verdade, na Av. 7 de Setembro, 12. Para muitos, o cinema número um. De propriedade da firma “Rôla, Irmão & Cia” (José e Chico, também ex-caixeiro), de imediato conquistou a preferência popular, com seus bons serviços, conforto e sofisticação.

 No Ceará, foi o primeiro a exibir filmes americanos, da famosa William Fox Corporation, assim como os suecos da Nordisk. Porém, numa ousada investida do concorrente, Luiz Severiano Ribeiro, foi fundado o magnífico e completo Cine Majestic, em 1917, ao seu lado, no prédio mais alto da cidade, onde também funcionou um hotel. Então veio a queda do Polytheama, que em 1922 passou para Luiz Severiano Ribeiro. E no local surgiu o magnífico Cine São Luiz.


A Luta do Empresário Popular


 O primeiro grande empreendedor do cinema cearense, José de Oliveira Rôla, o Zeca Rola, nasceu na Fazenda Retiro, em Trairi, no dia 12 de maio de 1867. Filho de Manoel de Oliveira Rôla, descendente de portugueses, que era o proprietário da Fazenda Taboca, na então Imperatriz (Itapipoca), próximo a São Bento (Amontada), quando menino e adolescente assistiu aos horrores das secas e pestes. Sua mãe, Dona Rita Xavier de Souza (Dindinha), sexta filha do coronel português Francisco Xavier de Souza, faleceu vítima de uma dessas moléstias. Com seus quatro irmãos, passou a infância em Trairi, estudando com o Professor José Joaquim Gouveia, que mais tarde tornara-se intendente interino (presidente da Câmara Municipal), ou seja, prefeito.


Ao lado do bonde, o Art-Nouveau, de José Rôla (Arquivo Nirez)



Ao chegar jovem na capital, empregou-se como caixeiro (auxiliar de tudo no comércio) na loja de louças de Joaquim Felício de Oliveira Lima, localizada também na rua Major Facundo. Pouco depois, em 1907, montou, em sociedade com o genro, Augusto Fiúza Pequeno, a sua primeira loja, Maison Art-Nouveau, bar-café-confeitaria requintado e autêntico, na esquina da rua Major Facundo com Guilherme Rocha (ou Rua da Palma com Municipal), prédio onde viria a funcionar, nos fundos, o Cine Di Maio, ou, para ser mais moderno, no Ed. Granito, onde tornou-se famosa a Tok Discos. Antes, ali, funcionava a Casa Almeida, a qual José Rola era sócio, e que em vista do Art-Nouveau, transferiu-se para adiante, Guilherme Rocha com Barão do Rio Branco. A Maison sobreviveu mais tempo que o maior concorrente, Riche (1926), mas acabou destruída por um incêndio por volta de 1930, quando encontrava-se arrendada.

 Confessou ao amigo Abelardo Montenegro ter sentido a morte do avô e da tia-avó materna, Semiramis de Oliveira Rola, e assim chamou o amigo e sua avó para morarem com ele. Dormiram no mesmo quarto, o mesmo se referindo ao trabalho no escritório, testemunhando a simplicidade e carinho do filho de Trairi.


Deu na Imprensa


 "O sr. José d'Oliveira Rôla, sócio gerente da "Maison Art Nouveau", veio à redação convidarmos a assistirmos amanhã, às 8 horas do dia, à inauguração dos novos e vastos salões do conhecido estabelecimento, agradecido". (Jornal do Ceará, 7 de dezembro de 1907)

 "Ante-ontem, domingo, teve lugar à inauguração da Maison-Art-Nouveau, presente grande número de pessoas, para cujo ato recebemos o convite do snr. José d'Oliveira Rôla, sócio gerente da mesma. Durante todo o dia, esteve repleta de visitantes, entre os quais cavalheiros e senhoras da melhor sociedade. Foi extraordinário o movimento da casa, que só se fechou às 12 horas da noite" (Jornal Unitário, 10 de dezembro de 1907)

 José Rola construiu no porto o "Pavilhão Atlântico", um abrigo para os viajantes, mas tinha a sua particularidade. Deslocava-se para lá e contactava os comandantes, conseguindo contratar suas orquestras para garantir a animação nas noites no seu salão, notadamente aos domingos. Colocava os músicos nos bondes e saía pela cidade divulgando as atrações. Chegou a ponto de promover as primeiras corridas de bicicletas, e obviamente gerando apostas financeiras, na Praça do Ferreira. E como amante do jogo, criou a Casa Americana, naquela praça, onde havia bilhares, jogo do bicho e até a atração maior, que era a imagem de um velho de óculos, "que decifrava sonhos e preia o futuro".

 José Rôla na Visão dos Historiadores



Família Rôla e Zeca
Conforme o pesquisador Edgar Alencar, José Rôla “era um homem de espírito, inteligente, inquieto, incansável, falante, com alma e tino de empresário, muito inclinado ao viver popular e estava sempre tomando iniciativas que agradavam o povo. Foi um grande animador da Praça do Ferreira, promovendo festas sociais e esportivas na Avenida Sete de Setembro (dentro da praça havia o logradouro com essa denominação, na qual se localizava). Foi o introdutor dos Brocoiós, caldo de cana naquela praça, além de leiloeiro acatado e respeitado. Sujeito a conjecturas que sempre afetaram o comércio na época, sofreu consequências, o que jamais contribuíram para que deixasse de ser uma figura popular e querida”.

 Para o sociólogo Abelardo F. Montenegro, "possuía espírito progressista e inovador, rompendo com a rotina dos lustres, iluminando seus estabelecimentos com luz elétrica". Bem antes do Estado, inaugurou uma rede particular de esgotos, aproveitando um trecho da Praça do Ferreira..."inaugurou mobiliário de cores, quebrando a monocromia do preto"..."terminou com o predomínio dos quiosques, abrindo casas confortáveis para freguesia "A esse homem que, a golpes de esforços e inteligência, ascendeu de caixeiro a patrão e a quem Fortaleza deve muitas inovações, ainda não foram prestada a merecida homenagem".

 "A esse incansável cearense muito de a cidade pelas suas constantes iniciativas, dotando-as de bares, tabacarias, garapeiras, cinemas e salas de bilhares". (Raimundo Girão).

 "Homem simples e alegre, tinha a verve espirituosa comum aos cearenses, identificando-se com todas as manifestações festivas do nosso povo". (Ari Bezerra Leite, estudioso em cinema)

 O nosso carinho à família Rôla, tradicional por seus serviços em Trairi, Itapipoca e Fortaleza. José Rola representa apenas um exemplo de devoção ao trabalho, amizade e solidariedade. Sempre ajudando o próximo, independente de classes sociais. Assim é esse povo. O povo de Nossa Senhora do Livramento.

Bibliografia:

“Fortaleza de Ontem e de Anteontem” -  Edgar Alencar.

"Fortaleza, a Era do Cinema" - Ari Bezerra Leite (fotos de José Rola & família, e da Praça do Ferreira)

"Geografia Estética de Fortaleza" - Raimundo Girão


O filme "Odette" (Dir. Giuseppe de Ligouro), com Francesca Bertini e Carlo Benetti, foi
exibido no Polytheama em 1 de agosto de 1916. (Fortaleza, a Era do Cinema)



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Futebol Cearense - José Silveira, o Homem que Trouxe o 'Balão" da Suíça

Futebol do Ceará nasceu na Suíça - Jornal Correio do Ceará, 18/02/1963

Amor ao esporte abriu caminho ao profissionalismo - Por Teixeira Cruz




José Silveira. Levou o futebol ao Ceará em 1902
(Foto e matéria Correio do Ceará)


O chamado Esporte - Rei, que leva hoje incalculáveis multidões aos estádios, onde são ovacionados os ídolos do esporte campeão do mundo, o “rush” de um Saulzinho, as fintas desconcertantes de um Garrincha, os piques monumentais de Pelé, esse futebol que faz com que todo o subúrbio esqueça a crucial crise que nos atinge, que faz esquecer os s sucessivo aumentos do pão, do arroz e do feijão, o futebol – paixão do brasileiro, que faz conhecido o Brasil no exterior, segundo alguns, a única cousa séria deste país, tem uma longa história em uma terra. Nesta reportagem, procuraremos contribuir para subsidiar a história do futebol  cearense.


Como foi introduzido o futebol na nossa terra


 José Silveira, jovem cearense, sequioso de saber e de conhecer outras terras, outros costumes, partiu aos 15 anos, em 1899, para a Europa, indo parar na suíça Alemã, no Cantão de Sgallen, onde ingressou no Instituto Internacional Dr. Schmidt, que abrigava jovens  de todas as nacionalidades. Então, fez parte da equipe futebolística do Instituto, que era o Rosemberg Futebol Clube, onde atuava de center-half (meia, geralmente o camisa 5). Esse esquadrão era considerado o segundo da suíça, sendo batido apenas pela equipe do Grassopers (Gafanhotos) Futebol Clube, de Zurique. José Silveira foi o único cearense a atuar em gramados de Londres e Liverpool, defendendo os quadros suíços.


O Regresso à Taba  


Regressando a Fortaleza, em 1902, José Silveira trouxe a tiracolo dois “balões” de futebol, um livrinho de regras e sua indumentária de jogador de “association”. Mas tão logo chegou, viu-se às voltas com o problema dos jogadores, pois aqui ninguém jogava nem de leve futebol. Foi então que lembrou-se dos ingleses aqui residentes (é raro o inglês que não bata a sua bolinha). Entrou em contato com Nottingharn, sócio da firma Leite Barbosa, foi ao Cabo submarino e requisitou o apoio, para a empreitada pioneira, dos engenheiros dali, Mister Furlay, senior e Philips. No Gasômetro, integrou-se com os também engenheiros ingleses, Milly, Moise, Ferraby e Corlay, além de Mister Bleasby, das obras do Cais do Porto.  


Primeiros Bate - Bolas


 Convidou, então, Zé Silveira, os cearenses Marcondes Ferraz, Júlio Sá, Prisco Cruz, J. Queiroz e J. Henrique para comporem o time do Ceará Futebol Clube, de cearenses, e o segundo time de ingleses, que venceram por 2x1, cuja partida foi realizada defronte ao antigo Gasômetro, tendo a realização publicada no jornal “A República”, em maio de 1903. Os ingleses contaram com os jogadores citados e mais alguns que na época estavam a bordo ao largo, pois ainda não contavam com coisas contável.

 Para presenciar esse primeiro “match”, foi boa a afluência de pessoas. No entanto, disse-nos Zé Silveira: “o povo naqueles recuados anos foi desfavorável ao futebol. Os velhos verberaram contra,e  as senhoritas repararam em ver os homens com as canelas de fora, um desplante, mas depois,com a continuação, foram se acostumando e hoje éo que se vê: o povo só falta enlouquecer nos estádios”.
 O Ceará Futebol Clube existiu durante quase dois anos. Em 1905 desapareceu o futebol no Ceará para reaparecer em 1908, com a chegada de vários cearenses que também residiram na suíça. Essa turma, tendo à frente o jovem João Gentil, fundou o Stella Futebol Clube – o mesmo nome do time em que jogavam na suíça,contando com os seguintes elementos: Pedro Albano, Adriano Deodato Martins, José Raymundo Costa, Oscar Loureiro, José silveira, João Gentil, Capitão Atualpa, Menescal e Paulo Menescal. Jogavam no segundo plano do Passeio Público e treinavam onde hoje é a Praça da Lagoinha.


1915 e 1918: Ceará e Fortaleza.


Aproveitando elementos do time do Ceará Futebol Clube, o atual Sporting Clube foi organizado em 1915 pelo Dr. Sílvio Gentil Lima. Outro grupo de desportistas reorganizou o primitivo time do Stella Futebol Clube com outro nome, o do Fortaleza Esporte Clube, em 1918. Assim nasceram o tradicional “Vovô de nossas canchas” e o popular “Tricolor de Aço”.



O Stella Futebol Clube, time cearense homônimo ao suíço em que os cearenses jogavam, deu origem ao Fortaleza E. C. José Silveira é o n° 6. (Foto Aba Film)


Quem é José Silveira


 José Silveira, introdutor do futebol no Ceará, nasceu em Fortaleza em 1884. Fez estudos primários na capital cearense e o curso de madureza na suíça Alemã. Regressando à sua terra natal, ingressou na Faculdade de Direito. Em 1909, conquistou o seu pergaminho de doutor em Direito.
 Foi professor durante quase cinquenta anos, incluindo no velho Liceu e na Escola Normal. Poliglota, falando e escrevendo cinco línguas: francês, inglês, alemão, espanhol e italiano, traduzindo esses idiomas desde 1906.
Com oitenta anos bem vividos, aposentado na cadeira de espanhol do Liceu, o velho professor, ainda rijo e lúcido, diz: ”sou um veterano no magistério, e dediquei a minha vida ao nobre ofício de ensinar, mas faço questão de frisar: nunca pedi um emprego ou posição, e devido ao meu retraimento, sempre fui um esquecido”.



Nota do Blog :


José Agnelo da Silveira. Fortaleza, 29/09/1884 - 18/07/1968. Pais: José Maria Silveira e Maria da Glória Carneiro Silveira, portugueses.


Deputado estadual e prefeito de Trairi CE na década de 1920.


Tradutor Público do Estado do Ceará. Chegou a traduzir norueguês, sueco, árabe, russo e holandês, além das cinco línguas citadas, as quais falava fluentemente.


Professor do Colégio Colombo, antigo Colégio Nogueira.
Professor da Escola Fênix Caixeiral.
Professor do Ginásio São Luiz.
Professor do Liceu do Ceará.
Professor da Escola Normal D. Pedro II, posteriormente Colégio Estadual Justiniano de Serpa.
Professor da Escola Doméstica de Fortaleza.
Professor do Ginásio Fortaleza.
Professor do Ginásio Americano.
Professor do Colégio Juvenal de Carvalho.
Professor do Ginásio Santa Maria.


O Gasômetro, de hidrogênio, que iluminava  Fortaleza, mantido pela Ceará Gás Company Limited (Inglaterra), foi inaugurado em 1867. Localizava-se no lado norte, terceiro plano do Passeio Público, descida para a praia, num terreno cedido pela Santa Casa. Seus funcionários, ingleses, jogavam futebol antes da empreitada no Ceará. Entende-se que as primeiras partidas de futebol foram realizadas em espaço limitado.


Em 2 de junho de 1914, surgiu o Rio Branco F. C., durante reunião na residência de Luís Esteves Junior, na rua Tristão Gonçalves, 6. No ano seguinte, na data comemorativa ao primeiro aniversário, uma assembléia alterou o nome para Ceará Sporting Club, à frente o Dr. Sílvio Gentil Lima. Portanto, não confundir com o primeiro time cearense, Ceará Futebol Clube.






quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Trairi - O Município nos Anos 1900

Trahiry - Almanach dos Municípios - 1908


Rio das Trahyras, de Trahyra peixe d’este nome y água - José de Alencar, Iracema.
A villa é marginada ao sul pelo rio Thahiry. Existem no município as povoações de Mundahú, Lavagem e Belém.
Na sede há duas ruas chamadas Dr. Accioly e Cel. João Cordeiro, e praças da Matriz, Dr. Campello e Cel. Barroso.
Os únicos edifícios dignos são a Matriz e a Cadeia.
As feiras do Trahiry realisam-se aos domingos com uma concorrencia de duzentas pessoas mais ou menos, contando-se: carne a 600 réis; peixe 500 réis; farinha 80 réis (litro); milho 140 réis (dito); feijão 200 réis (dito); rapadura 100 réis (uma), aguardente 2#500 réi (canada).

O commercio é representado pelas seguintes firmas: Fortunato Barroso Cordeiro, Antero de Oliveira Rôla, Aristides Galdino da Silva, Canuto Camerino  Mariseira e Bernardino José Rodrigues, estes dois últimos  no Mundahú.


Almanach dos Municípios 1908. Os dados são anteriores ao ano citado.



Sítios com engenhos de ferro: Estrella, de Luiza Ferreira dos Santos Xavier; Conceição, de Apolinário Dias de Senna; Manguinho, de João Barbosa de Amorim;  Barrinha, de José Fernandes Braga; Criancó, de Fortunato Barroso Cordeiro; Criancó, de João Alves da Silva; Bom, de Manoel Simplício Damasceno; Mundo Novo, de Vicente Ferreira Néry; Mundo Novo, de Maria de Sousa Souto; Lavagem, de Francisco Ferreira da Cunha; Gangorra e Palmané, de Raymundo Ferreira da Cunha, Gangorra e Lavagem: Raymundo Ferreira dos Santos.




Câmara Municipal – Intendente, Francisco Ribeiro da Cunha; Presidente, Cel.  Anastácio Tabosa Braga; vereadores: José Joaquim de Gouveia, Anacleto de Castro Jatahy, José Thomaz de Paula, Luiz de Souza Machado; Raymundo Nonnato da Paixão, Manoel Pereira da Costa e José Fernandes Braga.

A agencia do correio está a cargo de D. Francisca Xavier Pereira. Recebe malas as quintas-feiras.
A principal fonte de riqueza do municipio consiste em peixes, gados e lavoura, constando esta em milho,arrox, feijão,farinha,algodão e canna.

Na villa do Trahiry nasceu o poeta Álvaro Martins, auctor dos “Pescadores  da Tahyba” e de outras producções de incontestavel merecimento litterario.

Análise dos nomes citados:


Lavagem: Atual Canaan, distrito de Trairi.
Belém: Antiga Natividade, hoje Cemoaba, distrito de Tururu CE. Origem da família Barbosa.
Accioly: Antônio Pinto Nogueira Accioly. Presidente da Província e do Partido Republicano Conservador no Ceará (1896 – 1912)
Cel. João Cordeiro: Comerciante, líder do movimento abolicionista no Ceará (Sociedade Cearense Libertadora), deputado, senador, chegando a governar a província.
Dr. Campello: Francisco da Rocha Campello, Juiz. Destacou-se na luta por ajuda aos flagelados da seca de 1877-1879.
Cel. Barroso: Antônio Barroso de Souza, primeiro juiz de Trairi. Foi intendente e presidente do Conselho de Intendência na época da grande seca de 1877-1879. Suas terras situavam-se na parte sul do Estrela.
Fortunado Barroso Cordeiro: Vereador, sobrinho do coronel Antônio Barroso de Souza. A rua “de baixo” denominou-se seu nome, primeiro morador do prédio onde se instalou, futuramente, o Fórum.
Antero de Oliveira Rôla: Comerciante, vereador e neto de Manoel de Oliveira Rôla, proprietário da fazenda Taboca, em Imperatriz (Itapipoca).
Aristides Galdino da Silva: Conhecido como Seu Mirista, comerciante, filho do português Francisco Galdino da Silva, o Chico Viturino.
Canuto Camerino  Mariseira: Vereador, comerciante de carnes e peixes.
Bernardino José Rodrigues: Comerciante descendente de Bernardo Soares de Almeida (Mundaú). O Rodrigues vem da família da avó, Joana, de Cascavel CE.
Luiza Ferreira dos Santos Xavier: Esposa de Francisco Ferreira da Cunha, filho do farmacêutico Joaquim Thomaz da Cunha (Marinheiro Cunha).
Apolinário Dias de Senna: Patriarca dos Dias (Neco) e Sena (Vara), que povoaram a vila de Guajerú.
João Barbosa de Amorim: Vereador, filho do português Manoel Barbosa de Amorim.
José Fernandes Braga: Vereador, filho do Intendente Anastácio Braga.
João Alves da Silva: Genro de Joaquim Thomaz da Cunha, rico comerciante e boêmio. Casou-se duas vezes.
Manoel Simplício Damasceno: Fazendeiro de origem de Passagem do Tigre (Paraipaba).
Vicente Ferreira Néry: Patriarca da família Neri.
Maria de Sousa Souto:  Herdeira dos primeiros povoadores do Mundo Novo.
Francisco Ferreira da Cunha: Gangorra. Vereador, de Canaan.
Raymundo Ferreira da Cunha: Coronel da Guarda Nacional e vereador.
Raymundo Ferreira dos Santos: De Canaan, acreditamos tratar-se do anterior.
Francisco Ribeiro da Cunha: Intendente, teve que abandonar o cargo de vereador para não acumular duas funções.
Cel.  Anastácio Tabosa Braga: Presidente da Comissão de Intendência (Câmara de Vereadores). Não confundir com Anastácio Alves Braga, fazendeiro e política de Itapipoca, assassinado à balas.
José Joaquim de Gouveia: Um dos primeiros professores (para homens de Trairi) e Presidente da Comissão de Intendência (Câmara de Vereadores).
Anacleto de Castro Jatahy: Vereador da região das Lages/Gualdrapas. Industrial que comandava a fábrica de beneficiamento de algodão daquela comunidade.
José Thomaz de Paula: Vereador.
Luiz de Souza Machado:  Tio Lulu, do Genipapeiro. Vereador, casado com Modesta Tolentino Chaves, filha de Nicolau Tolentino Chaves. Juntando as famílias, Machado e Chaves, eram donas das terras que iam do Córrego da Onça ao Genipapeiro.
Raymundo Nonato da Paixão: Vereador e comerciante do Mundaú.
Manoel Pereira da Costa: Vereador, da família dos três irmãos que chegaram de Portugal: José Francisco (Tio Cazuza), Isaías e Manoel Pereira. De Murimbeca.
Francisca Xavier Pereira: Famosa costureira, filha de Manoel Francisco Pereira com a segunda esposa, Florisminda. Sua sobrinha, Madrinha Morena, a substituiu nos Correios.
Álvaro Martins: Poeta e jornalista, membro-fundador dos grêmios literários Padaria Espiritual e Centro Literário. Suas quadras de rimas são consideradas das mais perfeitas, segundo os críticos.






sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Fortaleza E. C. - Gumercindo, As Cores da Charanga


Jogador de base do Leão (GN)

Ex-jogador, conselheiro e diretor-proprietário do Fortaleza Esporte Clube, Gumercindo fez de tudo pelo seu clube de coração, destacando-se nas contratações e ajudando na causa social, promovendo eventos na sede do clube ao lado do amigo Luiz Rolim Filho. Antônio Alberto Ramalho Rolim, nasceu no bairro do Benfica, em Fortaleza, onde fez estudos primários, logo partindo para os profissionais, no colégio Carlos de Carvalho, formando-se como contador na primeira escola do gênero da cidade, o Fênix Caixeiral, em 1959.


O Comerciante


Pick-up das tintas (GN)
  Cedo, 16 anos, foi trabalhar com seu pai, Gumercindo Maia Gondim, que, afeito à amizades com clientes e comerciantes,  logo lhe indicou, em 1949, como empregado da famosa loja criada pelo Sr. Adolfo Quixadá, primeiro representante cearense  das Tintas Ypiranga, a Quixadá Comercial Importadora, dirigida pelos filhos, tido como funcionário exemplar e talentoso, passando de vendedor à sub chefe de sessão. Contudo, após o falecimento do pai, deu continuidade aos negócios da família, ao lado da mãe, representando as Tintas Ypiranga, Globo S. A., Mineração Indústria e outras marcas . No mesmo endereço da sua fundação, em 1938: Rua Floriano Peixoto, 786. Dali surgia uma empresa que muito ajudou o Clube da Garotada: “O Gumercindo”.


O Jogador




Troféus no seu escritório (GN)
Havia um clube muito famoso e rival do Fortaleza, o Sport Club Maguary, campeão cearense em 1929, 1936 e bi-campeão 1943-44. Por ele, curiosamente de cores preta e branca,  o garoto Gumercindo torceu até a sua extinção, em 1946 (retornou no campeonato de 1972). Em seguida, jovem, Gumercindo, ao lado dos irmãos Moésio e Mozart Gomes, fundou o Prado Futebol Clube, que teve ainda Piolho, jogadores que acabaram se profissionalizando pelo Fortaleza, clube que passou a torcer definitivamente, após entrar nos aspirantes, em 1949. Ainda nesse quadro inferior, jogou pelo Ceará e em seguida, já jogador profissional, pelo América, que possuía dirigentes respeitáveis, como o Dr. José Mário Mamede e Canamari Ribeiro. Tentou vaga no seu clube de coração, mas no Fortaleza só conseguiu titularidade no profissional em alguns jogos. O que ganhava do futebol dava como incentivo aos jovens valores.

A Charanga



A charanga em 1965 (GN)

 Apaixonado, sem perder uma partida, com seus móveis e imóveis pintados em azul, vermelho e branco, passou para a diretoria. Procurando alternativas para atrair recursos financeiros, ousou no trabalho de marketeiro, atraindo sócios. As ações passaram a ser vendidas em três valores, de modo que os sócios-proprietários mantinham o clube na ausência de patrocinadores. Gumercindo incluiu entre eles a família. Já no social, animava os finais de semana sem jogos na Capital com festas no Pici, comandadas por Jackson de Carvalho e Luiz Rolim Filho. Nessa época já havia a sua charanga, fundada em 10 de maio de 1960, coincidindo com o dia do seu aniversário. O nome dela foi uma menção do Dr. Silvio Leite, que considerava Gumercindo o maior torcedor do Fortaleza. Numa tarde daquele ano, no estádio Presidente Vargas, o advogado saudou: “Essa é a Charanga do Gumercindo, nosso maior torcedor!”. Com certeza a maior do Estado, pois seu prestígio a fez participar dos desfiles de carnaval da cidade até o seu final, no início dos Anos 80.



Sem perder o pique, em 1979 (Tribuna do Ceará)


O Diretor


 Em 1965, com o Fortaleza bi-campeão, com um ataque avassalador (Birungueta, Facó, Croinha e Mozart) deu a dica de como ser campeão: “é, antes de tudo, o jogador ser tratado como ser humano. Precisa de uma cobertura total na sua vida particular e completo apoio de toda a diretoria do clube a que pertence para que na venha sofrer de complexo de inferioridade”. Reconheceu que sentiu o drama no ano de 1964, quando teve que intervir com dirigentes que fugiam a esse pensamento. Não mudou o foco, construindo uma vila para alojamento dos jogadores, a qual mantinha, e ali, nas horas vagas, procurava dialogar com os atletas.

Torcendo no Céu


 A partir de 1983, questão particular mudou a vida de Gumercindo, afastando-se do futebol. Faleceu em 1985, no dia do aniversário do seu amado Clube de Glória e Tradição, 18 de outubro, mais um ano de campeonato vencido pelo Leão.

Pesquisa: Jornal Gazeta de Notícias (GN)


Charanga do Gumercindo na geral do Castelão. (Foto Tribuna do Ceará)



Fortaleza E.C. - Croinha, o Artilheiro do Pici


Chegando ao Pici em 1965. (GN)

Edson José da Silva foi o grande ídolo do Fortaleza nos anos 60. Revelado profissionalmente pelo Maranhão Atlético Clube (MAC), foi contratado pelo presidente Otoni Diniz e estreou pelo clube cearense em 1965. Nascido em  21/08/1940 no Recife PE, a meninada curiava o seu aspecto físico, como a imagem de uma coroa na cabeça, pronunciada como “crôa”, pegando o apelido de “Croinha”. O garoto identificou-se cedo com a bola de futebol, encantando-se com as peladas, e logo estava jogando pelos times amadores da capital pernambucana, quando estreou pela segunda divisão pelo "Hiolanda".



Fome de Gol

 Artilheiro absoluto no Maranhão, de 61 a 64, com 184 gols, o segundo maior da história, o centroavante, que a princípio não chamou atenção, pelo jeito desengonçado, honrou a camisa tricolor, sendo artilheiro nos anos de 1966, 1967 e 1969, o que lhe valeu verdadeira idolatria da torcida, especialmente juntando-se a isso o vice-campeonato brasileiro (Taça Brasil de 1968) e o título do Norte e Nordeste de 1970. Mas na estreia contra o América, em 1965, não convenceu. Sentiu o peso da camisa e a força da galera apaixonada, valendo-lhe o título de “Bonde do Maranhão” do grande nome da imprensa esportiva da época, Paulino Rocha. Avisaram a ele que o radialista torcia pelo rival e devolveu, marcando os gols da final do primeiro turno: 3x1 sobre o Ceará. O brilhante comentarista foi humilde: “´É, foram zangar o homem, olha aí o que ele fez!”. Croinha dizia que tinha gosto especial de fazer gol no alvinegro, sendo dele o maior carrasco.

Fim Precoce



 1:78 metro, levou uma vida paralela como os jovens  atletas da época: boêmia, na qual se  gastava além da conta. Ainda assim tinha um grande preparo físico,pois corria bastante e com o oportunismo peculiar estava no local exato para mandar a bola ao gol. Passou seis meses novamente no Maranhão e retornou nos braços do torcedor, uma exigência do treinador, Carlos Castilho. Jogou pelo Fortaleza até 1972, quando passou a “crôa” de linha avançado para outra divindade tricolor, Beijoca. Croinha se sentia velho e encerrou a carreira, em 1973, pelo Tiradentes, marcando o seu último tento na vitória de 2x1 sobre o Guarany de Sobral, no dia 30 de junho de 1973, aos  33 anos, sem festas, sem despedidas.

Vigilante Municipal

Praça J. de Alencar: Croinha guarda

Em seguida, as dificuldades que a maioria dos jogadores humildes não escapa, notadamente a problemática financeira. Nos  anos 80, com 45 anos, trabalhava como guarda da prefeitura na Praça José de Alencar, ganhando pouco para o sustento da família. Com esposa e sete filhos, sendo seis mulheres, reforçava as finanças em volta de jogos em clubes de subúrbios, como o “Fortaleza”, do Mucuripe, afinal dizia que queria morrer jogando futebol.

 De tantas alegrias a um clube, na inocência comprou uma casa, que seria própria se a escritura não fosse falsa, vivendo para sempre de aluguel no bairro periférico de Bom Jardim, na capital cearense.  Dizia Croinha  que nunca havia ido atrás das pendências contratuais, pois se jogava com paixão, enquanto na geração seguinte, pelo “bicho”. Por isso, deixou de receber várias dívidas do clube, mas sempre reclamou da direção, que prendeu seu passe, retendo-o no Fortaleza.



Matador do Bahia



Jornal Correio do Ceará: Croinha 1x0

 Disse ao jornal O Povo, em 1984: “Um dos momentos mais interessantes que passei foi contra o Bahia. Perdemos o primeiro jogo lá por 1x0. O Otoni Diniz quis vender o mando de campo, para novo confronto na Fonte Nova, mas o Gumercindo (conselheiro) pagou do próprio bolso toda a passagem de volta da delegação. Fizemos o segundo jogo e ganhamos pelo mesmo placar e fomos para a prorrogação. Perdíamos de 1x0 e a torcida já começava a sair, quando Mozart empatou. No final, entrei na área e fui derrubado. O juiz marcou pênalti. Eu bati e marquei o gol da vitória. Foi a minha maior emoção”. Exatamente no dia 9 de fevereiro de 1969, como mostra, anexo, o jornal Correio do Ceará, com o placar do tempo normal, pela Taça Brasil.

1969: Croinha marca e despacha o Bahia no PV lotado (Correio do Ceará)


O Time de Croinha


 O maior goleiro que enfrentou foi Pedrinho, campeão pelo América em 1966; seu maior marcador, Cícero, do Ceará (“ele colava em mim e era difícil encontrar espaço para finalizar”), mas seu maior lançador foi o meio-campista Joãozinho. Eis a sua seleção, cearense: Pedrinho (América), William (FEC), Zé Paulo (FEC), Renato (FEC) e Carneiro (FEC); Edmar (FAC), Coca-Cola (FAC) e Gildo (CE); Birungueta, Croinha e Mozart (trio arrasador do Fortaleza). Na sua opinião, seu gol mais bonito foi contra o América, em 1966: “Eles tinham um timão e defesa batia muito. Peguei uma bola na corrida, banhei o Pedrinho (goleiro), enquanto o Ribeiro (zagueiro) veio para me arrastar, mas apena s toquei de cabeça e o encobri.


“ Jogador é que nem prostituta, só tem valor quando está novo”. Croinha, 138 gols pelo Fortaleza, uma marca histórica.

No MAC, onde iniciou profissionalmente.


Pesquisas: JornaiGazeta de Notícia e O Povo.


Bi-campeão Cearense 1964-65. Croinha com a bola








quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Trairi - Encanto da Natureza Cearense

"Trairi Bela e Rica!" - Jornal Correio do Ceará, 7/12/1965

 Autor: Helder Feitosa. Fotos: Vieira Queiroz




1965: durante a última gestão de Zé Granjinha, a construção da ponte. Encantos mil.


Existe no Ceará uma pequena cidade praiana digna de ser vista pelos mais exigentes turistas internacionais. Trairi foi beneficiada pela providência com um privilégio todo especial. Se o sertão agreste é vítima da calamidade da seca, aquela pequena comuna tem a proteção valiosa da natureza, constituindo-se num recanto altamente pitoresco e possuidor de um solo fertíssimo.

 A paisagem encantadora que circunda o município trata-se de um espetáculo belo ainda não decantado pelos turistas porque é totalmente desconhecido pelos cearenses. Mas a fecunda terra não está recebendo o tratamento devido do homem, que a mantém inexplorada e relegada em incrível abandono. Trairi poderia ser não somente um polo de atração turística como também poderosa fonte de renda ao Estado.

 Os frutos que dela seriam colhidos, se bem cultivados, abasteceriam até mesmo Fortaleza. Acontece, entretanto, a cidade contemplada serve apenas para os moradores como “quadro belo e poético” necessário ao encantamento dos olhos. Ela é vista unicamente por esse lado. Ninguém ainda lembrou-se ou teve a iniciativa de vê-la pela face técnica.  Por outro lado, apesar dos pesares, e para que se tenha uma ideia das perspectivas das enormes vantagens do torrão trairiense, basta citar que se arranca dali uma média de 850 mil cocos anualmente como prova indiscutível do privilégio do solo daquela terra.

 Se o Egito é um dom do Nilo, é porque souberam aproveitar a valiosa oferta do milagroso rio. Se o mesmo ocorresse com o trairiense ou com o cearense de modo geral, usando o privilégio da terra fértil proporcionada pela natureza, a pequena cidade do Trairi seria hoje um dos mais prósperos municípios do Estado, bem como um verdadeiro ponto turístico.

Rio Trairi no final de 1965. 



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Trairi - Mundaú 1965: O Sumiço de Pescadores

 "O Luto Incerto" - Jornal Correio do Ceará, 17/11/1965

 Texto: Helder Feitosa. Fotos: Vieira Queiroz


Esposas, as mais esperançosas 

Deu à praia de Mundaú, próximo de Itapipoca, uma jangada de madeira que se supõe ser a “Lambreta”, na qual Jerônimo e mais três companheiros usaram na fatídica viagem. A informação partiu de pessoas residentes em Fortaleza que estiveram naquele local em gozo de férias. Se verídico tal informe, então fora de cogitações as hipóteses de sobrevivência do legendário pescador e dos demais colegas. Afastam-se também as possibilidades da frágil embarcação ter sido abalroada por um navio.

 Mesmo assim, ainda se constitui intricado o mistério sobre o que vem ocorrendo nos últimos meses nas costas cearenses. Em menos de sessenta dias, sete jangadeiros foram tragados pelo mar, motivando uma onda de receio e deixando atônitos os homens que arrancam o ganha-pão no oceano.

Nada de Providências


 A situação torna-se mais grave quando se sabe que a menor providência não foi adotada para a elucidação dos fatos. Pais de famílias deixam os lares em busca de trabalho no mar, não retornam mais e o caso fica relegado numa incrível  indiferença. Sendo assim,  os parentes, impossibilitados de quaisquer recursos, atravessam momentos angustiosos e vivem um drama comovedor, sem saberem o que fazer, porque não existe um órgão governamental competente a quem possa dirigir-se.

 Pescador, Ofício Ingrato


 É, realmente, um ofício ingrato e de pescador. A água furiosa lhe atraiçoa e ninguém se interessa pelo seu infortúnio. Entrementes, o que estaria acontecendo nos mares cearenses? Eis a pergunta que paira no ar e cuja resposta tão cedo poderá advir. Nada menos que sete viúvas de jangadeiros atravessam com filhos e familiares um problema enigmático: estariam mortos os seus maridos ou eles permanecem vivos encalhados em alguma praia? Trata-se de outra indagação difícil de ser respondida. E quem poderia responder positivo ou negativo se nada oficial existe para um pronunciamento nesse sentido?

 Há poucos meses, um avião caiu bem próximo à Praia do Futuro (Fortaleza) e, até hoje, o paradeiro dos corpos do piloto e do geólogo que vinha a bordo estão envoltos de denso mistério. O desastre não se passou despercebido completamente em virtude da contribuição da Base Aérea e da nossa Marinha, que puseram em prática os deus sistemas de busca e salvamento, o que ocorreu agora mesmo com o caso de Jerônimo. Acontece, entretanto, que tais atitudes partiram de uma colaboração espontânea por parte daqueles órgãos, os quais não são imbuídos para TAM mister.

Viúvas?


 Para muitos é um fato consumado. Os sete jangadeiros estariam motos. Porém, para as viúvas, as esperanças não morreram e o dilema continua.  Para elas, os queridos partiram para pescar e estão chegando. Nenhuma autoridade lhes forneceu atestado de óbito. Por isso, como a mulher de Jerônimo, vão diariamente à praia e alimentam a ilusão de que seus maridos ainda vivem. Algumas delas vestiram luto, outras, no entanto, rejeita esse traje porque não sabem de nada. Somente o tempo é que se encarregará de esclarecer. Mas quem fornecerá os atestados de óbito às viúvas dos jangadeiros?

Esposa com a foto de Jerônimo. Teria sido devorado pelo mar o legendário dragão?