quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parque da Liberdade - A Praça Que Veio do Sertão


 Uma Fortaleza Menina




O amor em forma de educação (O Estado)



 Uma pequena cidade de 35 mil habitantes, lá nos tempos distantes da metade do século XIX, que crescia às margens de um riacho. Sem infraestrutura, com um comércio em torno de uma praça de areia e de duas igrejas. Assim era Fortaleza por volta de 1850, com o córrego do Pajeú descendo do “Oiteiro” (Outeiro, Aldeota) com suas curvas, a Praça Municipal (do Ferreira) e as Igrejas do Rosário e de São José (Sé). Muita criação animal para alimentar o povo, praticamente sem fiscalização, mas para tal precisava de água doce, que não fosse do corrente que passava límpido nos quintais das casinhas, por isso a necessidade de uma lagoa “mais distante”.

 No final da Rua do Cajueiro, atual General Bezerril, pelo lado sul da cidade de então, havia currais e chiqueiros onde os animais se alojavam, debaixo de cajueiros, antes do abatimento,  e ali mesmo o seu comércio, em meio ao matagal. Uma dessas árvores era tão majestosa que emprestava o nome à rua. Sob ela trabalhava o marchante Fagundes, que morava ao seu lado. Conta-se que, passando por ali, a cavalo, o capitão-mor Luiz da Motta Feo e Torres, caiu seu chapéu, e exigiu que Fagundes o entregasse. O açougueiro sequer o respondeu. Como vingança, o governador tentou por duas vezes derrubar o cajueiro, traído pela solidariedade recebida pelo outro. Colegas de corte e demais comerciantes se armaram para defender a árvore. E assim o cajueiro manteve-se imponente.

Certa vez, ocorreu que, como animal tem sentimento, um garrote tratou de fugir na noite que antecedia à sua morte, embrenhando-se na mata. Somente muitas horas depois foi recapturado, o que lhe valeu, pelo menos, o nome do logradouro: Lagoa do Garrote. Nascia o "bairro" Alagoa do Garrote. 

Lagoa do Garrote - A Rainha do Nosso Parque



Gov. Liberato Barroso, prefeito Cassimiro Montenegro,
Dr. João Guilherme Studart, entre outros. (O Malho, 1915)
 O crescimento populacional de Fortaleza associava-se mais às secas, que levavam para a sua periferia os flagelados, povo sem instrução, letras e noção de destino, mas disposto a trabalhar para garantir um pouco de sustento. Todos careciam do líquido precioso, ainda que sem tratamento específico, daí a necessidade de criação de poços para o consumo, como chafarizes, servindo como alternativa às ausências e competitividade frente à excelência da Cacimba do Povo, de Jacarecanga, a do Beco do Cacimbão (que ainda se encontra na Praça do Ferreira) e o da bica, ambos no lado velho da cidade, prestativos para todas as necessidades. Foi quando, em 1848, providenciaram um cacimbão no Largo do Palácio (da Luz), isso bem depois do “Açude do Garrote”, construído por José Martiniano de Alencar quando presidente da província (1834 - 1837). Segundo Artur Eduardo Benevides, que foi Príncipe dos Poetas, a cidade contava com um rio tributário desaparecido por conta dos aterros. Nascia na Praça Clóvis Beviláqua, cortava as ruas a partir da Senador Pompeu até desembocar no Garrote. Ja a outra vazão vinha do velho Marajaik (Pajeú) a partir do Outeiro (Aldeota).

 Porém, já naquele ano a nossa lagoa, usada também para banhos do povo, muitas vezes sem roupas, já não era tão acolhida, estando suja e imprópria ao consumo humano. O presidente Fausto Augusto de Aguiar fez a solicitação de construção de um cacimbão no Garrote, então “de água pantanosa”, a qual abastecia a cidade, e outro no Campo da Pólvora (Praça dos Mártires) por 88$280 réis. Os jornais liberais, de oposição, não perdoavam, fazendo cobranças, como lemos em O Cearense de 20 abril 1848: “Lamentamos que continue a população desta cidade a servir-se da lagoa pantanosa do Garrote, e se não tenham podido ainda realizar as ordens do presidente sobre o melhoramento das cacimbas. A lagoa que bebe o povo não é objeto de pouca monta, como alguém pensa, as febres gástricas estão continuando, e podem ser atribuídas à má qualidade da água. Portanto, é mister cuidar seriamente disso”. Providenciou-se 60$000 réis a Luiz de França Tavares para os cinco serventes que construíram as duas cacimbas no Garrote.



Como Parque da Independência em 1935 (Foto Manoel Guilherme)


 Mesmo diante dos perigos de contaminação, por décadas as feiras de porco, carneiro, peru e hortaliças se estabeleceram no local. Mas diante das denúncias de infestação de doenças causadas pela poluição da lagoa, no início de 1861 o Dr. Joaquim Antônio Alves Ribeiro foi contratado pela província, constatando que nas águas verdes claras e fedorentas existiam matérias estranhas “levadas pelos ventos”, e pelo microscópio verificou-se quantidade enorme de corpúsculos vivos e mortos que povoavam aquele ambiente. Temperatura elevada de 25°C. O jornal O Cearense recomendou à municipalidade “a remoção de mananciais, rasgando o sangradouro até o nível fundo, jogando cal vivo e enxugando para matar as espécies de animais microscópicos que ali se desenvolveram”.



1938. Linda imagem de J. A. Vieira

 Em maio de 1861, parecer do Dr. Ribeiro assim respondeu à pergunta do presidente da província, Manuel Antônio Pinto Duarte de Azevedo: “As águas estagnadas do açude do “Pageú” podem prejudicar o estado sanitário da capital incontestavelmente. O estado atualmente arruinado das suas águas é prejudicial à salubridade pública. Os exames cuidadosamente feitos indicam que convém fazer nesta conjuntura para não privar o publico da utilidade que o açude presta, e torná-lo de maneira que suas águas estagnadas não sejam prejudicadas por meio de suas emanações à salubridade pública. Aproveito a oportunidade para também dizer o meu pensamento relativamente à existência da Lagoa do Garrote porque as suas águas se acham ainda e piores condições do que as do açude, e como tenho estudado ambas localidades, julgo mui conveniente unir a este parecer as minhas ideias relativas ao estado atual, visto que as águas estagnadas da dita lagoa também influem sobre a salubridade pública, e por isto também precisam de remédio”.

  8 de julho de 1862. Ofício da Câmara ao Exmo Presidente: “A Lagoa do Garrote está sendo hoje lugar de despejo de imundícies, de sorte que a água exala um fétido extraordinário, que não pode deixar de resultar em grande mal para esta cidade na quadra presente. Portanto, pede esta câmara a V. Exc. para que tomando este negócio em consideração, dê suas providências para que seja desinfetado aquele lugar, aterrando-se ou esgotando-se a dita lagoa”.  Conclui-se que tanto o Pajeú como a Lagoa do Garrote estavam contaminadas, estando as suas águas não recomendadas para o consumo. Porém, nada de respostas das autoridades.

  Em 1 de agosto de 1865 foi regulamentado o serviço de limpeza do centro histórico, aos cuidados do fiscal Joaquim de Macedo Maciel, estando aquele logradouro agendado para as sextas feiras. Naquela época, do seu lado sul, existia um terreno mais valorizado que o da lagoa, onde se erguia a Capela de Nossa Senhora das Dores, para a qual a Assembleia Provincial aprovou a doação de 1:000$000 (um conto de réis), inaugurada dois anos após. Na Praça da Liberdade, exatamente no mesmo local em que surgiu, em 25 de março de 1886, a Igreja do Coração de Jesus.

 José Júlio de Albuquerque Barros, presidente da província, mandou arborizar a praça, assim como a Figueira de Melo, a Boulevard Duque de Caxias e a Conde D’Eu em 1880, ano em que , naquele largo, construiu-se um prédio para guardar equipamentos militares aos cuidados do alferes Berlamino Accioly de Vasconcelos.


  Parque da Liberdade pelas Mãos de Trabalhadores Famintos


 O paulista Caio Prado assumiu o governo cearense (1888 - 1889) decidido a valorizar a Lagoa do Garrote, tornando-a um centro de lazer para os fortalezenses. Em termos financeiros deveria se preocupar com os fornecedores e com algumas desapropriações, afinal mão de obra barata não faltava. Tratava-se de mais uma época de seca, a nona apenas naquele século de um total de onze. Não foi tão cruel quanto a de 1877 - 1881, o que não impediu uma nova “invasão” da capital por retirantes, seja a pé, seja sobre animais ou nos vagões da Estrada de Ferro Baturité (EFB). Muitos, infelizmente, não chegaram ao destino. Numa atitude mais política que humana, as autoridades indicaram cem desses flagelados para dar início aos serviços. O crítico O Cearense protestou, pedindo mais trabalhadores em obras públicas tendo em vista a gravidade social, com pessoas morrendo de fome, em detrimento dos enormes gastos. Caio Prado duplicou esse número, porém, em julho de 1889, atrasou os pagamentos de modo que em agosto um operário morreu por falta de alimentação. Os liberais encamparam, então, uma série de denúncias contra o presidente. Passaram a chamar a obra de Largo dos Escândalos.


Cartão Aba Film (1937)
Veio o período republicano e tomou posse o primeiro governante da era, o tenente-coronel Luís Antônio Ferraz, ao qual os liberais esperavam em vão se aliar. Coronel Ferraz acabou inaugurando o Parque da Liberdade, outrora Lagoa do Garrote, que a partir de 16 de abril projetou-se como Largo da Liberdade, no dia 13 de maio de 1890. Homenageava a data de libertação dos escravos no Brasil (1888). O responsável pelas obras foi o engenheiro militar Dr. Romualdo de Barros, diretor de Obras de Socorro de Fortaleza. Ele construiu no lago tanques para armazenar água enviada de uma cacimba; edificou um coreto, assentos de bancos de madeira e, ao longo das alamedas, combustores para iluminação, aproveitando a pequena ilha para edificar um templo dedicado a Cupido, Deus do Amor, simbolizado da imagem de uma criança com asa, munida de arco e flecha.

Às 9 horas, ao som da banda do Corpo de Segurança Pública, o inédito parque, um magnífico lugar voltado para diversões decorado com bandeiras, com balanços e trapézios, foi entregue diante de uma multidão. À tardinha, das 17 horas às 19 horas, novamente a banda de música, agora para dançantes.





Postal dos Anos 1920






1890: o primeiro café 
 Na ocasião, o industrial José Borges Gurjão presenteou o complexo com um canindé e uma arara para a coleção de aves ali existentes, como um pavão de bela linhagem, dando origem ao único zoológico da cidade. Já o Comendador Francisco Coelho foi um dos indenizados por ceder terreno para a extensão do parque, que só seria concluído em 1902, com a construção do muro. Iniciava-se uma reurbanização do Centro, ao mesmo tempo em que em julho era inaugurado ao lado da lagoa o Café Cascata. Pertencente ao engenheiro Romualdo de Barros, contava com a atração de uma pequena orquestra, entre 17 e 20 horas, além de passeio de escaler e exercícios diversos, destacando-se o tiro-a-alvo. Obras de ajustes continuaram, como retiradas de casebres, e mais uma vez trabalhadores sofrendo com atrasos salariais.




As Bandas nas Praças


.Fortaleza contava com dois belos espaços para entretenimentos: a Praça dos Mártires e a Praça da Liberdade. Em  31 ago 1890, no Largo da Liberdade, a banda de música do Corpo de Segurança Pública tocou as seguintes peças:

I - Marcha: Progresso da República.
II - Dobrados.
III - Fantasia da Ópera Trovador.
IV - Sinfonia da Ópera O Guarani.
V - Aliser, a Grande Valsa.
VI - Valsa Gato Preto.
VII - Variação da Ópera Sonâmbula, no clarinete.
VIII - Polka.


Da mesma forma o 11° Batalhão de Infantaria, que, presente em outras ocasiões, brindou com “Valsa da Esperança”, “Valsa Paula Castro”, “Ermelinda Polka” e “Fantasia Moisés”.

O Povo Coçando a Cabeça


 No dia 31 de outubro de 1890, a Secretaria do Conselho de Intendência Municipal publicou polêmica resolução com mudanças radicais, como nomes de praças, entre as quais a Dr. José Júlio no lugar da Praça da Liberdade (Coração de Jesus). José Júlio Albuquerque, sobralense, antigo interventor federal. A Praça do Mercado, antiga Carolina (atual Waldemar Falcão) passou a José de Alencar; Marquez do Herval a do Patrocínio (atual José de Alencar), e a gloriosa Praça do Ferreira no lugar de Praça Municipal, outrora Pedro II, entre outras. Mas o interessante foi a alternativa encontrada para driblar as constantes alterações nos nomes dos logradouros. Conforme o Artigo 1°: “Fica suprimida a denominação existente das ruas da cidade e substituída por numeração pela forma assim denominada: da Rua Formosa (Br. Do Rio Branco) para o nascente todas as ruas serão ímpares, e para o poente pares”. Desse modo, a Rua Formosa passou a se chamar N° 1, a Major Facundo N° 3 e a Rua da Boa Vista (Floriano Peixoto) N° 5, assim como a Senador Pompeu N° 2 e General Sampaio/Visconde de Cahuype (Av. da Universidade) N° 4. Não vingou por muito tempo.


 Parque da Independência



Parque da Independência (Verdes Mares, 1932)

 Durante o governo de Justiniano de Serpa e do intendente (prefeito) Ildefonso Albano, em 7 de setembro de 1922, lembrando o centenário da independência, o Parque da Liberdade passou a se chamar Parque da Independência. O logradouro passou por remodelação, surgindo um novo aspecto do muro, do piso e do portão principal, onde foi fixada na entrada, sobre o mesmo, a imagem de bronze do índio se libertando, quebrando a corrente. Nos dias atuais o mesmo encontra-se rachado e sem um braço, infelizmente.



Festa da criançada em 1939 (Unitário)
 1934. O interventor federal Carneiro de Mendonça fez o projeto da Cidade da Criança, tendo o seu sucessor, Meneses Pimentel, professor de carreira, dotado verbas que a viabilizaram, sendo a sua instalação em 1936. Assim, no dia 26 de maio de 1937, o intendente Raymundo de Alencar Araripe e o interventor Meneses Pimentel, durante as comemorações pelos dois anos das suas administrações, inauguraram a Cidade da Criança, denominação criticada pelos saudosistas. Como novidades, quatro modernas construções, abrigando uma inovadora escola para crianças de 3 a 13 anos, iniciando com 150 alunos.

 Num pavilhão remodelado surgiram a biblioteca e a cantina, enquanto em outro os banheiros com chuvisco. No terceiro pavilhão ficou o Jardim de Infância, onde se ensinava canto, balé, penetrando no desenvolvimento das artes. Ao lado deles os parques de diversões com balanços e deslizadores. Lembrando também as inovações charmosas, como a Gruta dos Amores e a Gruta do Cupido. Aos cuidados da diretora Zilda Martins Rodrigues, educadora renomada, escritora, e esposa do advogado e jornalista José Martins Rodrigues, fundador do jornal O Estado. As professoras, como Isaura Araújo, Francisca Pedreira, Erzila Mendonça, Elizabeth Osório e Diva Moura, no entanto, já reclamavam do pequeno espaço dos prédios e de carências de materiais.

 No ano seguinte, Raymundo Alencar criou, segundo o Decreto 367 de 28 de janeiro, o Serviço de Educação Infantil, à frente o secretário Hugo Catunda, outra diretora, Alba Frota e de sua auxiliar Ailza Ferreira Costa, fortalecendo o ensino pedagógico com orientação sociológica e elevando a idade dos alunos até 15 anos. No Parque de Brinquedos, no complexo do Parque Recreio, foram adicionados olas, gangorras e deslizadores, além de serviço de vigilância a cargo de três mulheres. Em 1939 já contava com 409 alunos e expandia os jardins, dispondo de sala de projeções, ao passo que em 1940 foi inaugurado o restaurante. O período da tarde era voltado para práticas de lazer: futebol, voleibol, patinação, ping-pong e ciclismo, por exemplo, aos cuidados de outra equipe pedagoga. Curiosamente, raro na época, tratava-se de um esforço para levar às crianças não apenas o ensino escolar avançado, mas a convivência de seres de origem social pobre à mesma relação de convivência com as das melhores escolas particulares.



Aulas de balé na escolinha. (O Estado, 1949)


A Volta do Parque da Liberdade


 Em 1948, entretanto, a Lei 84, publicada em 22 de outubro, durante a gestão municipal de Acrísio Moreira da Rocha, restaurou-se a denominação Parque da Liberdade. Contudo, não tratou a contento da sua preservação. Somente na gestão municipal de Cordeiro Neto ocorreu o saneamento do lago e algumas melhorias. Anexou-se na Ilha do Cupido (ou dos Amores) uma imensa cruz de madeira, ajardinamento e a construção de um auditório para apresentações artísticas e visuais. O prefeito o reinaugurou no dia 20 de dezembro de 1961.


Cezar Telles, o restaurador, de quem sentimos falta. (Tribuna do Ceará, 1977)


 Numa realização aplaudida durante administração do prefeito Evandro Ayres de Moura, em 1977, ocorreu a restauração das imagens  comandada pelo escultor Augusto Cezar Telles Marinho. Diante dos sacrifícios, como subir uma escada de onze metros cedida pelo Corpo de Bombeiros, o artista honrou o seu talento, dando à imagem do índio a sua característica de origem, que embora verde foi decido pelo restaurador mudar para marrom. Assim o fez com o cupido, feito de mármore, com o arco e as asas; a criança Inocência, a mãe e o casal de crianças, fundidas em bronze, nas suas cores naturais, vindas de Milão, Itália.

Após a desativação da escola, funcionou no local a Fundação da Criança e da Família Cidadã (FUNCI), ligada à prefeitura, e atualmente comporta parte da Guarda Municipal. Em 2019, depois de bom período de obras, incluindo derrubada de parte do muro, concluiu-se uma nova drenagem. Aguardamos maior valorização daquele símbolo de Fortaleza, que ostenta, numa área de 26.717 metros quadrados. Ali reluz o carinho e a paixão do cearense, das vítimas das secas aos mais abastados. Carece, e urge, de exploração e de direitos voltados à sociedade.

                                                                                                         (J. Lucas Jr)


 Fontes: Jornais O Cearense, O Povo, O Estado e Tribuna do Ceará.



1938 com a velha Ig. do Coração de Jesus (Foto M. Guilherme)





Parque da Liberdade e Igreja do Sagrado Coração de Jesus, do livro "The State of Ceará" (Chicago 1893)


















































































































































quinta-feira, 8 de junho de 2017

Trairi CE - 1912 - Fiéis Pedem a Permanência de Pe. Romualdo


 
Pe. José Romualdo
Temos aqui a comprovação da paixão e fidelidade do meu povo à tradição religiosa católica. Um abaixo-assinado solicitando, em 1912, a permanência do vigário José Romualdo de Sousa na paróquia de Nossa Senhora do Livramento. Conforme a carta, a razão seria o trabalho social do religioso e o apego dos fiéis a ele ao ponto de a mesma evidenciar uma súplica, diante da dor e a desolação que traria a sua ausência. Vemos então o papel da Igreja na valorização da vida de um povo isolado, vivendo da agricultura e pesca de subsistência, com raro acesso ao estudo e à assistência social. A prática cristã, com a presença de um padre que confortasse as dificuldades, incorporando-se à coletividade, representava o alimento fortificante para a felicidade.



 Padre Romualdo inovava. Ia além da tarefa comum de um religioso, ensinando e trabalhando. Sublime mestre de obras, construiu com suas mãos os dois corredores do templo, ensinou teologia e música, levando alegria e entretenimento às comunidades. Sua obra fazia questão de anotar, e seu trabalho chegava ao conhecimento do bispo, como bem diz o texto: “Vossa Excelência sabe mais do que nós”. Dom Joaquim ouviu o povo e o querido vigário permaneceu mais três anos, cumprindo e concluindo “o que se achava no meio do caminho”. Em Trairi permaneceu de 8 de janeiro de 1904 a fevereiro de 1915. Infelizmente não foi possível segurá-lo. Dom Manoel o enviou para Soure, onde continuou a sua obra, a maior que se tem notícias, ali permanecendo por 33 anos, até o fim da vida. Sua estátua, em Caucaia, portanto, é uma prova do carinho dos fiéis.



Solicitação ao Bispo



 Nota-se a força de uma sociedade patriarcal, com a ausência das mulheres nos destinos das comunidades. Sequer direito a tal encaminhamento tiveram. Dos citados abaixo, embora constando seus nomes, muitos da lista não assinaram, por serem analfabetos das letras, mas ricos em conhecimentos da vida. Meu avô paterno, Joaquim Lucas Teixeira, presidente da Associação São Vicente de Paulo, tinha certos conhecimentos de escrita, mas não sei se trata-se da sua assinatura, assim como no caso dos meus tios-avôs maternos Machado de Souza, os Lulu do Jenipapeiro, todos praticantes fiéis, devotos fervorosos de Nossa Senhora do Livramento. 




Abaixo- Assinado

Eis a solicitação:


V. Exa e V. Revma, Sr. Bispo do Ceará.


 Nós, abaixo assinados, em nome de toda a Freguesia de Trahiry, entre sentimentos e necessidades, viemos à presença de Vossa Excelência suplicar humildemente a graça conservar o nosso virtuoso vigário, Pe. José Romualdo de Souza, nesta Freguesia, pois nos chegou a triste notícia da sua designação para a Freguesia de Soure. Ela deixou todo o povo em pranto, numa desolação sem consolo. Jamais podemos consentir essa separação, de grande prejuízo, um enlance fatal. Não acreditamos que V. Exa, bondoso que é, estimado por esse povo, descarregue sobre nós tão pesado golpe.

 V. Exa bem sabe o quanto ele tem feito em benefício desta terra, sabe também ele ter iniciado os trabalhos da Matriz que se acham em meio do caminho e não é possível ficar tudo assim depois de tantos sacrifícios e fadigas. Bem sabemos que virá outro substituto, porém talvez não terá a mesma prática administrativa dele, que é perfeitamente conhecedor mais do que outro da prática de construção, como V. Exa sabe mais do que nós. Nas mãos de V. Exa está não deixar pesar sobre nós a realidade cujo pensamento nos esmaga de dor.


 Certos de que um bondoso não poderá contestar tantos filhos, que o adoram eternamente, reconhecidos e gratos, nos asseguramos com toda a consideração e estima, esperamos ser atendidos por um gesto para o bem da própria religião.

     

                                                  Trahiry, 10 de agosto de 1912.


 Raymundo Nonato Ribeiro
 Francisco Januário da Silva
 João da Motta Leitão
 José Moreira Simões Granja
 Manoel Teixeira da Costa
 Fortunato Barroso
 Francisco Januário Simão
 Antônio Francisco Pereira
 João da Motta Filho
 Luiz Gonzaga do Nascimento
 Júlio Monteiro de Santiago
 Joaquim Barbosa Sobrinho
 Lourenço Barbosa Chaves
 Francisco Simão Rodrigues
 Francisco Vieira do Nascimento
 Silvano Tercio Barroso
 Raimundo Vieira do Nascimento
 Manoel Tolentino Chaves
 Antônio Tomé Reis
Francisco Rodrigues da Cunha
 Raimundo Lopes dos Santos
 Januário Rodrigues dos Santos
 Francisco Tolentino Chaves
 Francisco Tolentino Chaves Filho
 Manoel Barrozo de Oliveira
 Teodózio Augusto de Oliveira
 José Joaquim de Gouveia
 João Tolentino Chaves
 José Ayres Pinto
 Manoel Rodrigues dos Santos
 César Rodrigues dos Santos
 Galdino Lopes de Castro
 Raymundo Rodrigues dos Santos
 Firmino de Paiva Dias
 Raimundo José da Silva
 Alexandre Barboza Primo
 Antônio Monteiro de Santiago
 João Monteiro de Santiago
 Amâncio Monteiro de Santiago
 Aristides Galdino da Silva
 Manoel Furtado Teixeira
 Joaquim de Souza Machado
 Joaquim Lucas Teixeira
 José Francisco Pereira
 Raymundo Simões Granja
 Hermano Gordiano
Francisco de Castro Moura
 Francisco de Castro Filho
 Firmino José de Menezes
 Manoel Rodrigues da Costa
 Raimundo de Araújo Costa
 João Januário da Silva
 José Batista Ribeiro
 José Joaquim Bernardo
 Paulino Fernandes Braga
 Vicente Ferreira da Silva
 João Baptista Ribeiro
 Francisco Fernandes Braga
 Venâncio Rodrigues de Mello



Igreja de Nossa Senhora do Livramento (IBGE)


Fonte: Arquidiocese de Fortaleza.
 




domingo, 7 de maio de 2017

Belchior - Liberdade e Humanidade

Almanach Lucas Destaca Belchior


1988: "Não sou preso a nada, mas posso virar a mesa amanhã (DN)



26 de abril de 1981 . Fez o show de reinauguração do calçadão da Av. Beira Mar no anfiteatro Flávio Ponte, que era inaugurado pelo Grupo O Povo. Conforme publicação do O Povo, um show de três horas ao lado da banda Coração. (Foto O Povo)


Filantrópico


SP: apoio aos irmãos
do Ceará ( O Povo)
4 de setembro de 1983. De São Paulo, onde residia, anuncia engajamento na campanha de ajuda aos flagelados da seca no seu Estado, fazendo questão de ressaltar que não se tratava de ação assistencialista, embora fosse o foco do governo. Através da União de Nordestinos de SP, fez rápidas apresentações pela metrópole paulista, de modo que, em dezembro, entregou um cheque de CR$ 4,5 milhões à então primeira dama, Miriam Mota, à frente da Missão Asa Branca. Ele, que a convite do executivo estadual, cantou em jantar dos lojistas cearenses, tendo papel relevante na arrecadação total de CR$ 370 milhões até então. Portanto, financeiramente Belchior nada nos deve, partiu com créditos do seu trabalho e ajudas humanitárias. (Fotos O Povo)



Cheque nas mãos da primeira dama. (O Povo)


16 de fevereiro de 1985. 


`"Não curto esse lance de sucesso" (TC)
Em entrevista ao Caderno TC Dimensão, do Jornal Tribuna do Ceará, confirma ser uma pessoa que gosta de conversar, “viver a vida a cada instante”, mas acima de tudo da liberdade. Fala de uma Fortaleza bonita e provinciana, que recebeu uma cultura nova, inclusive referente à música. Se diz feliz em ter sido parceiro de todos os músicos locais, condenando a prática de “derrubar” o concorrente. “Não curto esse lance de sucesso e troco qualquer possibilidade nesse sentido. O fundamental é criar, inventar, ser um homem feliz. Nunca tive o sucesso como objetivo primário, muito pelo contrário. Acho que esse é um fator mais para o acidental. De qualquer maneira, a minha expectativa inicial era de que a minha música maior receptividade apenas junto a uma elite musical, mesmo porque as atitudes que assumi quando ainda morava aqui, como abandonar a família e ir trabalhar na televisão, fiz numa boa, com certo charme, inaugurando um estilo que passou para o meu trabalho. Gosto muito desse "finesse" do fazer, do sentir, e isso surpreende quem só conhece uma faceta do meu sucesso ”.

10 Anos de Carreira


28 de junho de 1985 . Recebe a concessão do título de Cidadão Honorário de Fortaleza pela Câmara Municipal de Fortaleza, conforme projeto do vereador Emanuel Teles. Naquele ano, o cantor participou de um evento no Hotel Samburá (Av. Beira Mar), organizado pelos amigos Cláudio Pereira e José Tarcísio, em comemoração aos “dez anos de carreira”, afinal, conforme o próprio, o sucesso de “Alucinação” (1975) foi a concretização do seu nome na música nacional. Não só fez um show no hotel, que inaugurava o bar “Velas e Ventos”, como conversou com a plateia. Alem desse, tocou em sua Sobral, pela data alusiva, e igualmente no ginásio Meton Vieira Vasconcelos (Náutico Atlético Cearense), em Fortaleza.


1985. Com Cláudio Pereira e José Tarcísio: 10 anos de sucesso.


 Disse ao O Povo do dia 28 de maio de 1985: “Se tivesse que apresentar um saldo destes dez anos de musical por parte de cearenses, eu diria que modernizamos a música nordestina e criamos uma música popular cearense, de caráter nacional. E alem de contribuirmos para o panorama nacional com uma música moderna, estabelecemos um fio evolutivo para a moderna música cearense dentro de um espírito de modernidade, de contemporaneidade, extrapolando qualquer limite regionalista. Na verdade, estamos fazendo uma música extremamente contemporânea na verdadeira acepção da palavra geral, universal. A briga, hoje, é para saber quem é mais ou menos moderno, mais ou menos participante do cenário musical. Isso justifica o fato de, nestes dez anos, as gravações de mais de cem discos, quase duas mil canções interpretadas e quatro milhões de discos copiados”

 “Posso virar a mesa amanhã”


 
1981. Com o seu povo na B. Mar ( O Povo)
Em 1988, lançando “Elogio à Loucura”, disse ao Diário do Nordeste: “No começo, a gente, que saiu do Ceará, tinha uma visão de grupo forte, era fundamental. Toda cidade que avança ao futuro precisa ter uma visão clara de todas as artes, mantendo raízes, mas sem ufanismos. Sou a favor da civilização e da cultura contra a barbárie. Estamos em pleno fim de século, mas ainda se toma atitude de caráter arcaico, medieval. No mundo musical, eu me proponho a fazer uma obra que tenha o sentido atual, algo parecido com a literatura de performance. Isso é um caminho em que a minha música conduza o meu discurso. É claro a minha formação cultural sirva para isso. Sou favorável ao individualismo, mas não sou preso a nada, convivo com qualquer pessoa de pensamento ou cultura, por isso vejo que, só no Brasil, não se respeita seus artistas, como estão fazendo com Cazuza. Se você observar meus discos, minhas canções, vai ver que sou o único do grupo que fez canções com todos os cearenses. É isso que faço hoje, mas posso virar a mesa amanhã”. (Diário do Nordeste)

 Fontes: Jornais O Povo, Tribuna do Ceará e Diário do Nordeste.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Fortaleza - Três Colégios e Uma Data

1 de junho - Dia dos Colégios. Jornal O Estado, Fortaleza 1 de junho de 1937.



 O aniversário, hoje, do Colégio Militar, Instituto São Luiz e Colégio Castelo Branco. Resenha histórica da vida dos três acreditados estabelecimentos de ensino. O 1° de junho bem poderia ser considerado no Ceará como o Dia dos Colégios. Nesta data efetivamente, foram fundados em Fortaleza nada menos que três escolas da maior importância entre nós: o Colégio Militar, o Colégio São Luiz e o Colégio Castelo Branco, veteranos da nossa vida educacional e tão relevantes serviços gerados ao Ceará.


 COLÉGIO MILITAR


 
Colégio Militar de Fortaleza em 1937

  O Colégio Militar do Ceará foi fundado pelo Decreto n° 13.451, de 29 de janeiro de 1919, sendo a sua criação iniciativa do deputado Frederico Borges, que na época se encontrava à frente da direção do Estado. Na época, era Presidente da República o Dr. Delfino Moreira, que juntamente com o Ministro da Guerra do seu governo, general Cardoso de Aguiar, tornaram realidade sem demora a iniciativa do executivo cearense. Assim, foi instalado, em Fortaleza dois meses depois, em 26 de março de 1919, num prédio, de propriedade do governo estadual, localizado no mesmo local, onde ainda funciona, à Praça Benjamim Constant, no bairro da ALDEIOTA. As aulas, por sua vez, tiveram início em 1° de de junho do mesmo ano, considerada a data da sua fundação.


 O primeiro diretor do novel estabelecimento foi o então Tte. Cel. Mariano de Oliveira e Ávila, que o regeu até 16 de junho de 1921, data em que o substituiu naquele elevado posto o Tte. Cel.  de Engenharia Salvador Barbalho Uchôa Cavalcanti, ano em que o prédio foi transferido para o Ministério da Guerra. Este, manteve-se no cargo durante dois anos, quando o general Eudoro Corrêa o substituiu a partir de 1° de agosto de 1923. Foi a gestão mais longa de todas, durando até 1936, quando passou a direção do prestigiado educandário de ensino militar ao coronel Dracon Barreto, que continua no posto.




Mesa Diretora de Trabalhos e os alunos (1937)
  Começou com modesta frequência de 89 alunos. Três anos depois, isto é, em 1922, a soma atingia 186 matrículas. Dez anos adiante crescia celeremente para 500, e hoje em dia (1937), passados dezoito anos da sua fundação, apresenta um total de 517 alunos. Seu primeiro corpo docente foi o seguinte, a título de curiosidade: Sílvio Júlio de Albuquerque Lima (Português); Dr. Guilherme Moreira da Rocha (Francès) Júlio de Matos Ibiapina (Inglês); Dr. Artur Adauto Pereira de Melo, adjunto; Dr. Artur Studart, adjunto. Estes da Primeira Sessão; Dr. Alexandre Barreto (Aritmética); Dr. Raimundo Eurico Cavalcanti (Álgebra); Major Galdino Tavares de Sousa, adjunto; Major Joaquim Potiguara de Macedo, Dr. Afonso Feijó da Costa Ribeiro, e Nilo Barroso adjuntos, da Segunda Sessão. 3° Sessão: Dr. Maviano Martins Lisboa Neto (Geografia); Dr. Artur da Silva Jucá (História Geral); Dr. Domingos Braga Cavalcanti e Fernando Moreira, adjuntos; 4° Sessão: Luís Liberato Barroso (Desenho); João Marinho de Albuquerque Andrade, adjunto.


 Comemorando o auspicioso evento do seu 18° aniversário, a direção preparou o seguinte e expressivo programa de festejos: 7 horas, hasteamento da bandeira nacional e oração à data alusiva pelo Dr. Djacir de Meneses; 9 horas, desfile do Destacamento Escolar, Pelotão de ciclista; pelotões de Saúde e Cavalaria; Estado Maior do Destacamento, Batalhão de Infantaria e Bateria de Infantaria Montada, no total de 361 anos participantes, seguindo o itinerário: Av. Santos Dumont, rua Pedro Borges Praça do Ferreira; ruas Major Facundo, Meton de Alencar, Barão do Rio Branco e Guilherme Rocha; Praça do Ferreira, rua Pedro Borges e regresso ao Colégio. Na ocasião será inaugurado o retrato do Gal. Eudoro Corrêa.


INSTITUTO SÃO LUIZ



 O Colégio São Luiz, o segundo aniversariante de hoje , foi fundado em 1° de junho de 1907 pelo Dr. Meneses Pimentel na então Vila de Pacoti, sobre a Serra de Baturité. Ali atingiu o desenvolvimento durante nove anos graças à inteligente e criteriosa orientação que lhe foi dada, a ponto de atingiu uma frequência de 200 alunos número deveras notável o meio e época de então. 

Transferiu-se para Fortaleza em 1916, instalando-se na rua 24 de Maio, n° 120, prédio onde permaneceu até 1924, transferindo-se para sede própria na Av. do Imperador, 605, travessa com Liberato Barroso, funcionando com as modernas exigências pedagógica. Com o Decreto n° 16.782, de 13 de janeiro de 1925, passou a gozar de vantagens nas bancas examinadoras oficiais.



Instituto São Luís com seus alunos. Esquina da Av. do Imperador com rua Liberato Barroso. Prédio hoje abandonado.

 Em 1931, requereu a sua equiparação, para o qual aparelhou-se convenientemente, reformando e ampliando e ampliando o prédio além de instalar os gabinetes de Física, Química, História Natural e desenho. Um ano após, o Instituto conseguia inscrição preliminar de acordo com o Decreto n° 21.241, de 4 de abril do citado ano, havendo satisfeito todas as exigências do departamento Nacional do Ensino. E em 1936, pelo Decreto n° 824, de 19 de maio, foi concedido ao Instituto o gozo de inspeção permanente, ganhando então foro de “Estabelecimento Livre de Ensino Secundário”.


 Durante a sua vida, que vem atingir hoje 30 anos, foi o Instituto São Luiz ininterruptamente dirigido pelo seu preclaro fundador, que só se afastou das suas nobre funções de educador quando a vontade do eleitorado cearense o guindou à suprema magistratura do estado (Meneses Pimentel). Até 1925, foi vice-diretor do acreditado estabelecimento de ensino o ilustre Prof. Pimentel Junior, que nesta data se transferiu para o sul do País, deixando como seu sucessor o Dr. Cordeiro Neto. Este apresentou, durante algum tempo, as suas atividades, sendo depois substituído pelo Dr. Otávio de Farias, que ainda hoje o exerce.



1937. Entre os humanistas, Armando Falcão (orador) e Carlos Jereissati.


 O Instituto São Luiz mantém com zelo e carinho os cursos primário admissão e seriado fundamental. Possui ainda campos para ministrar educação física, tendo a Diretoria contratado para este mister professores competentes e hábeis. Agora mesmo, adquiriu mais um trato de terreno, ao lado do qual estão sendo construídos modernos campos de volley e basket-ball.

 Comemorando seus 30 anos, o educandário realizará hoje, às 14h, uma sessão solene, promovida pelo “Grêmio Literário Padre Tabosa”, cujo programa é o seguinte:

- Abertura.
 - Hino do Instituto São Luís.
 - Discurso do orador oficial do grêmio: Waldery Uchôa.
 - Minha pátria - Orfeão.
 - Poesia – Sinésio Cabral.
 - Desfile da escola ao Centro e retorno.


 COLÉGIO CASTELO BRANCO



Colégio Castelo Branco e seus alunos em 1938. (Aba Film)



 Fundado em 1° de junho de 1900 com o nome de Instituto Miguel Borges, tendo como fundador Odorico Castelo Branco, funcionou primeiramente na rua Major Facundo 156 B, mudando-se, em 1910, para a rua Senador Pompeu 24, e de lá para praça da Ig. Coração de Jesus, Dr. José Júlio de Albuquerque. Quando do falecimento do proprietário, em 25 de janeiro de 1921, a administração passou para a Arquidiocese, mudando-se para a sede atual, na Av. Dom Luís, 265, sob orientação do seu capelão e professor João Alfredo Furtado, o Monsenhor Furtado. O atual diretor é o sargento Darci Silveira.


 Antecipando-se às comemorações, houve uma corrida de estafetas entre alunos externos e internos, estes vencedores e que obtiveram também os louros de uma partida de basket-ball. Em seguida, o desfile pela Av. D. Luiz, rua Duque de Caxias, Barão do Rio Branco, contornando a Igreja do Carmo, fazendo o sentido inverso. O orador oficial é o presidente do “Grêmio Estudantil Monsenhor Tabosa”, Moacir Aguiar.



 Nota do blog:


I - A rua Major Facundo, 156 B, corresponde atualmente ao n° 716.

II - O segundo endereço do Colégio Castelo Branco, rua Senador Pompeu, 24, esquina com Castro e Silva, é a atual Sefaz, antiga Imprensa Oficial, mas com outra numeração: 512.

III  - A Av. D. Luís, tratada na matéria como a terceira sede do colégio, é a atual  Av. D. Manoel, que na época era o Bispo do Ceará, tendo falecido em 1950.




1937. Alunos do Castelo Branco jogando basquetebol. 





quinta-feira, 9 de março de 2017

Trairi - 1928. Padre Holandês e a "Beata"


Facsimile de "O Ceará"
 O Padre Henrique Willebrord  Luitem tomou posse na Ig. de Nossa Senhora do Livramento em 25 de março de 1925, tendo como testemunhas os senhores Antônio Joaquim Barbosa e Raimundo Lopes. Permaneceu até 1932. Conforme o seu livro “Como nasceu Trairi”, Maria Pia de Sales, que nessa época tinha quinze anos, “foi um verdadeiro apóstolo para o bem”. Houve um período em que viajou para a sua terra, Holanda, trazendo uma lembrança que comoveu a comunidade: os quadros da Via Sacra. Por outro lado, a autora relata que o pároco vendeu a última joia doada pela portuguesa Maria Furtado para fins de mantimento da igreja:  um cordão de ouro puro, comprado por dona Luizinha de Souza, das artes da costura. Trazemos, contudo, uma matéria antiga, de 1928, do jornal do conceituado jornalista Alfeu Aboim, acusando o religioso de viver amasiado com uma mulher, e de comportamento intolerável, partindo de uma denúncia anônima. O denunciante mostra desenvoltura na escrita, mas ao mesmo tempo modo preconceituoso.

Jornal O Ceará, quinta-feira, 19 de abril de 1928

Um padre hollandez que escandaliza a população de Trahiry. Vive ostensivamente com uma beata! E Dom Manoel não sabe disso?

 “As presentes linhas são escritas e endereçadas ao “O Ceará” desta vila de Trahiry.

 O padre Henrique Willebroad, hollandez, ex frade, por infelicidade parocho desta freguezia, continua sugando, desapiedadamente, este pobre e sofrido povo.

 Alludido padre, supinamente brusco e intolerante, só trata a nós, brasileiros, com desdém, asperezas e grosserias as mais cínicas e revoltantes.

 Este reverendo vive aqui amasiado com uma certa mulher vinda de Aracoyaba. Maritalmente vive em companhia d’ella.

 Esta mulher, apesar de feia, não tem mais de trinta annos de idade. Está com o reverendo há tempos, isto é, aqui chegou há cerca de dois annos acompanhando o parocho.

 Declara o padre Henrique, à guisa de acobertar a sua manceba, que essa mulher é uma beata.

 Imagine! Em Aracoyaba tem padre e igreja, e se esta infeliz fosse beata deveria contentar-se em rezar e frequentar a Igreja de sua terra, e não andar acompanhando o hollandez por toda a parte. A referida amasia do reverendo occupa-se diariamente, e por occasião das missas, em tirar esmolas, abodegando nós outros até por comedoria, como: leite, ovos, etc, para o seu amigo vigário.

 Tal mulher é vista aqui, pela população, pelo nome comprido de “Julinha do padre Henrique”.

 Na matriz e capella do município se há registrados factos deprimentes e escandalosos provocados pelo parocho Henrique que, encontrando na igreja alguma mocinha pobre ou mal vestida, sendo feia, trata logo de expulsá-la do templo sem mais preambulos. Se porém, é sympatica e vem pintada ou de cabellos curtos, manda também que a retire, mas, de certo modo, apalpando-lhes os braços à guisa de explicar que o vestido está curto ou as mangas são condenadas pelo alfaiate episcopal.

 Aos dias de domingo, insiste constantemente nos conselhos e pedidos da tribuna sagrada (?) para que os rapazes (16 anos acima) cazem-se logo (cada casamento custa 15 $!)...o representante do clero cearense, em nome de Jesus Christo,  vem explorando a ingenuidade da população desta Villa de Trahiry".

                                                                                                            "Um catholico"


sexta-feira, 3 de março de 2017

Instituto do Ceará - 130 Anos e Desafios Eternos

“Fazer conhecida a História e a Geografia da Província e concorrer para a propagação das letras e ciências do Ceará”. 



Palacete Jeremias Arruda. Atual sede
Assim ficou registrado nos anais da ata da instalação do Instituto do Ceará, em 4 de abril de 1887. Nasceu do trabalho de doze intelectuais cearenses, destacando-se o primeiro presidente, nos 21 anos iniciais, Paulino Nogueira, notável personalidade cearense, que entre demais cargos acumulados citamos o de Presidente da Província (1878). Os demais foram: Barão de Studart, Antônio Bezerra de Menezes, Joakim Catunda, Antonio Augusto de Vasconcelos, Padre João Augusto da Frota, Júlio César da Fonseca, João Batista Perdigão de Oliveira, Juvenal Galeno, Virgílio Brígido, José Sombra e Virgílio Augusto de Morais.

 Sua primeira localização foi na sede da Biblioteca Pública, na atual rua Guilherme Rocha com General Bezerril (1887-88), onde funcionava, também, o Teatro da Concórdia. Em seguida passou para o prédio da Assembleia Provincial (atual Museu do Ceará), área térrea, mas como a mesma foi cedida à Faculdade de Direito, que iniciava sua história, mudou-se para um prédio alugado na rua Floriano Peixoto, porém voltou a prédio público, no caso às dependências da prefeitura e da Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca. Nessa época, as reuniões ocorriam no sobrado de Barão de Studart (rua Barão do Rio Branco), quando de sua gestão (1929 - 1938), a terceira do Instituto. Então, o interventor federal Carneiro de Mendonça cedeu salas do Arquivo Público e do Museu Histórico, continuando as reuniões na casa do Barão.


Praça Caio Prado, onde dividiu espaço com o Arquivo Público
Com a transferência da Faculdade de Direito para a Praça Clóvis Beviláqua, o Instituto retornou ao prédio do legislativo (1939). Depois voltou ao Arquivo Público, na Praça Caio Prado, em frente à Sé (1951) até a sua demolição, onde surgiria o Fórum Clóvis Beviláqua. Em 1957 se instalou, junto com o Museu Histórico, no antigo e belo imóvel onde funcionou o Grupo Escolar Rodolfo Teófilo, hoje a FEAAC, na Av. da Universidade. Em 1966, contudo, o reitor da UFC, Antônio Martins Filho, incorporou o prédio, e assim ocorreu a última mudança do Instituto do Ceará. Desde então se encontra no Palacete Jeremias Arruda, imóvel construído em 1921, onde residiu o proprietário, posteriormente vendido ao empresário João Gentil , localizado na Praça do Carmo. Nele funcionou a Chefatura da Polícia, anexo da Prefeitura de Fortaleza, Ginásio Municipal e consequentemente anexo da UFC.

  Nesse templo de riqueza arquitetônica, tombado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, destaca-se, além da rica biblioteca, com 39 mil títulos e mais de 60 mil documentos manuscritos, a sua hemeroteca (revistas e jornais antigos), que possui invejável acervo de quadros e demais objetos de arte, tudo imortalizado em sua Revista, com certeza a maior fonte de informação sobre a História do Ceará.

1939. Instalado na antiga Assembléia Provincial
(hoje Museu do Ceará)

 No que pese a ajuda dos governos Federal e Estadual, porém, o Instituto do Ceará atravessou várias crises financeiras, como nos anos 1990, estando comprometido inclusive o memorial Barão de Studart, inaugurado naquela época, 1987. Após os protestos da imprensa, somados ao clamor dos defensores da preservação da cultura cearense, foram ampliadas verbas públicas, que, ao lado dos aportes dos seus quarenta sócios, fortaleceram o seu mantimento, embora insuficientes. No início da gestão do Prof. Ednilo Soarez (2013), por exemplo, o déficit mensal era de R$ 5 mil.



Dr. Lúcio e sua Digníssima, Beatriz Alcântara ( Foto O Povo)
Em 4 de março de 2017, exatamente no aniversário de 130 anos, Dr. Lúcio Alcântara assume o Instituto Histórico e Antropológico do Ceará em meio a desafios. Acumulando a presidência do Instituto do Câncer, fundado por seu pai, Dr. Waldemar Alcântara, o médico acredita ser fundamental a aproximação com a Academia Cearense de Letras, da qual também é membro, além de quaisquer entidades culturais do Estado. E é fato que dará continuidade às edições da Revista do Instituto do Ceará, o maior patrimônio gráfico do Estado, que existe deste 1887, sendo a mesma parabenizada pela sua impecável originalidade, priorizando a escrita e as abundâncias dos fatos
relacionados. À nova diretoria os nossos cumprimentos e felicitações de apoio pela causa maior, a cultura cearense.





1954: Jornal Unitário destaca o Ginásio Municipal antes da transferência do Instituto do Ceará




1939. No Palácio Senador Alencar: Assembléia



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Trairi - Vila em 1863. A Resposta aos Contrários

Jornal  A Constituição, Anno I, N° 10 – Ceará, Quinta-Feira 26 de Novembro de 1863


A Villa do Trahiry


 A imprensa liberal tem levantado grande celeuma contra a assembleia provincial por ter elevado à categoria de vila a povoação do Trahiry, e ultimamente ao presidente da província por haver sancionado o respectivo projeto. Vejamos se procedem os fundamentos dessa celeuma.


 
Logotipo do jornal em 1863

Não possuímos, infelizmente, uma estatística bem organizada de sorte que se possa saber com certeza a população existente dentro de uma área qualquer da província, desta ou naquela zona em que se divide. Se a possuíssemos, grande facilidade encontraria a administração na maior parte dos seus atos, e então pensamos que a criação das vilas, ou circunscrição de novos municípios, deveria ser ditada por dados estatísticos certos, da sua população com relação à extensão do território. Ou seja, quando mostrasse que tal ou tal território de um certo número de léguas fosse habitado por uma determinada quantidade de população, possuindo outras condições, como por exemplo, a existência de uma igreja, com certo número de casas alinhadas em torno dela, etc, um tal território fosse erigido em freguesia, em município, comarca, sendo, por disposição da Lei, desmembrado das comarcas, termos ou paróquias a que estivesse incorporado.


Na ausência de dados tão perfeitos, que estamos longe de possuir, a criação de freguesias, municípios e comarcas têm sido mais ou menos arbitrária, porém quase sempre ditada pela grande extensão do território, pela necessidade de a Justiça estar próxima dos cidadãos, hoje distante, além de necessidades especiais de ordem pública. Parece-nos incontestável que estas têm sido as causas motoras de todas as novas circunscrições territoriais nesta província, e cremos que o novo Império. Rogamos ao Cearense, por especial favor, que nos aponte uma só das vilas existentes no Ceará criadas em melhores condições, em vista dos dados referidos, do que a do Trahiry.



 
Matéria de 1863
Se atendemos à extensão do seu território, fica a 30 léguas da capital, e por conseguinte é manifesta a dificuldade dos seus habitantes irem buscar os recursos judiciários de que precisam, distância bem maior para atender o distrito de Mundahú, propriamente dito, cujas extremas ficam talvez a 35 léguas. Atentando à população, o novo termo compõe-se de quatro distritos de juízo de paz e subdelegacia: os de Siupé, Parazinho, Trahiry e Mundahú, todos com terrenos férteis, ao correr da costa, com diferentes portos de pesca, visitados por barcaças, que fazem comércio com os gêneros do País, farinha, peixe, madeiras, etc. Um deles, Mundahú, é ponto de escala dos vapores da companhia maranhense, circunstâncias estas suficientes que cada um atraia maior população.


O contemporâneo do Cearense encarregado, como tem sido, pelo governo da província de fazer a estatística dela acha-se mais habilitado do que nós para fazer a comparação da população de outros termos com a do novamente criado. Supondo que os termos menos populosos são os de Santa Quitéria, Tamboril, S. Anna, Acaracú, Aquiraz e Cascavel, pedimos-lhe que colacione a população de qualquer deles com a do nosso município do Trahiry, e estamos convencidos que se a deste último não exceder a deles todos, ao menos será superior a de um deles.


 Lembramos que era ainda bem pequena a vila do Ipú quando o finado Dr. Moraes Sarmento, então presidente desta província, propôs, como meio de reduzir os crimes, que ali eram perpetrados a necessidade de elevá-la à categoria de comarca, sendo a sua proposta imediatamente adotada. E  posto que no Ipú não tenha havido sempre a permanência de um juiz municipal e de direito, aquele termo tem, contudo, melhorado muito de condições após aquela providência.


 Dê-se ao novo termo do Trahiry um bom juiz municipal e acreditamos que seus habitantes virão abrir-se um horizonte mais fagueiro, quer quanto à administração da justiça, quer quanto ao desenvolvimento de sua estacionada agricultura, como permitem seus férteis terrenos. Sem garantia dos direitos individuais, sem a certeza da ordem do direito – sua cuique tribuere, não podem as indústrias receber o necessário desenvolvimento.


 Nota do Blog:


  1863: O jornal responde ao seu concorrente, “O Cearense”, ligado ao Partido Liberal, sobre a motivação da criação da Vila de Trahiry, no dia 12 de novembro daquele ano, por força da Lei 1068, vila que possuía entre seus distritos Parazinho (Paracuru) e Siupé (São Gonçalo), ainda que por apenas um ano. A pressão do contrário foi violenta.



 
Antônio Martins
Membro da redação do conceituado jornal aliado da monarquia, “A Constituição”, adiante fusão dos jornais "Libertador" e "Estado do Ceará, acreditamos que seja Antônio Martins o responsável pela matéria. Nele, assinava como “De L’Isle” na coluna Folhetim. Filho do trairiense Antônio Dias Martins, coronel, e irmão do poeta Álvaro Martins, destacou-se pelo empenho a serviço da sua terra como vila (município), assim como esteve à frente da campanha pela abolição dos escravos no Ceará e na sua terra, onde de fato ocorreu durante os festejos de Nossa Senhora do Livramento, em 31/12/1883, sendo o orador oficial.



 O autor se antecipa aos fundamentos modernos de criação de municípios, citando densidade demográfica, número de imóveis, templos religiosos como garantias, o que na época não eram necessárias, e sim uma decisão de cunho político, coronelístico. Faz, entretanto, uma defesa apaixonada, em resposta à oposição, no sentido de tornar Trairi município e a partir de então procurar o seu crescimento sócio econômico atrelado à presença da Justiça. Antônio Martins, entretanto, não fez jus sequer a nome de rua na terra onde sua família foi uma das fundadoras.



 
Coluna de Antônio Martins, ou  "De L'Isle", no jornal A Constituição, em julho de 1883