terça-feira, 13 de setembro de 2016

A Polícia e as Grandes Manifestações - 1968 - 2016

Bergson Farias. Morto pela ditadura.
 Não existe unanimidade quando tratamos de política. Num País continental como o Brasil, muito menos. Tem-se, sim, lutado por direitos e deveres constitucionais, por liberdade e justiça.  Essa luta por igualdade tornou-se evidente a partir de 1979, com a Lei da Anistia, e gostaríamos que hoje estivéssemos vivendo em paz. Pelo contrário, a desigualdade social se evidencia com o fortalecimento das elites, e a ambição muito mais. Frustra-nos, mais ainda, convivermos com a violência, o assédio e a vigilância preconceituosa. Infelizmente continuamos assistindo a ação da polícia direcionada à repressão aos negros, aos pobres, aos que levantam a voz por eles, abordagens  repressoras que deveriam ter sido sepultadas pelos oficiais.

 28 de março de 1968: ao tomar conhecimento de que estudantes organizavam uma passeata contra os Estados Unidos, o general  Osvaldo Niemeyer Lisboa orienta a polícia a invadir o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, assassinando Edson Luís de Lima, desencadeando forte reação popular, que, após vigília noturna na Assembleia Legislativa, acompanhou a marcha fúnebre de sessenta mil pessoas rumo ao cemitério. Nas principais cidades do País os protestos contra a barbárie impuseram um recuo momentâneo da repressão. Em Fortaleza, na manhã de domingo seguinte, 31, foi realizada uma missa, em memória do estudante, na Igreja do Carmo. Ao seu término, foram fixadas faixas pretas, sob observação severa de policiais da 10° Região Militar, no que resultou na dispersão dos enlutados.

Estudantes inauguram praça na Faculdade de Medicina e a
denominam com o nome d colega morto no RJ.
 (Gazeta de Notícias - Acervo Lucas)
 Não tardaria para a próxima manifestação: 1° de abril, contra o aniversário do golpe de 64, quando cinco mil pessoas partiram da Faculdade de Direito rumo ao Centro Histórico. No dia seguinte, a Polícia Federal prendia os estudantes Antônio de Matos Brito e Juraci Mendes de Oliveira, fato repudiado pelo meio acadêmico e que gerou uma greve geral até o dia seis. Após pedágios nas ruas, os colegas conseguiram pagar os “habeas corpus” dos presos. Durante essas manifestações, o fotógrafo Gumercindo Gomes, da Tribuna do Ceará, após sofrer agressões da polícia, teve sua máquina tomada e danificada.

Tribuna do Ceará junho 1968: choque na Praça J. de Alencar.
(Acervo Lucas)
 24 de junho de 1968: estudantes, que desde o dia anterior promoviam campanha contra o crime do Rio de Janeiro, concentraram-se na Praça José de Alencar, iniciando uma passeata até a Praça do Ferreira, sendo acompanhada pela polícia, que usava rádios para se comunicar. Aos gritos de “Universidade para o povo” e “Abaixo a ditadura!”, portando faixas e cartazes, fizeram o percurso de volta, e quando se posicionaram ao lado do busto de José de Alencar, foram recebidos pela violência policial, que procurava a sua dispersão. Em pleno final de tarde, quando os trabalhadores voltavam para suas residências. 


GN denuncia massacre, mostra estudantes correndo
e repórter ferido . (Acervo Lucas)
 Fez-se uso de gás lacrimogêneo, sendo que parte dos transeuntes saiu em socorro dos estudantes, que apanhavam da polícia, como Antônio Juvenal Farias, ferido com dois tiros da PM. Durante os espancamentos, que incluíram inclusive o fotógrafo Sabino Henrique, do jornal Gazeta de Notícias, muitos correram para dentro do Teatro José de Alencar, enquanto outros para o prédio ao lado, então Faculdade de Odontologia, outrora Escola Normal. Os vitimados fisicamente foram encaminhados à Assistência Municipal, inclusive PMs, alvos de coquetéis molotoves lançados pelos estudantes e dos confrontos com populares indignados.

O Nordeste, abril 1964: Murilo Borges, prefeito-general
afasta os "comunistas".
(Acervo Lucas)
 Foram presos e encaminhados ao DOPS trabalhadores, comerciantes e lideranças estudantis como Milton Barreto, José Gonçalves, José Jair Monteiro e Bergson Farias, vice presidente do DCE da UFC, este detido no hospital. Devido à gravidade, a UFC decretou feriado no dia seguinte, diante de provável reação do meio acadêmico revoltado.  Apesar da solidariedade do Arcebispo de Fortaleza, Dom José Medeiros Delgado e dos Sindicatos dos Jornalistas e dos Bancários, resultando na divulgação de documento de repúdio à violência policial, Bergson Farias acabou expulso da Faculdade de Química pelo Reitor Fernando Leite. Partiu naquele ano, com a crise social aprofundada pelo A. I-5, para o Araguaia (TO), de onde desapareceu em 8 de maio de 1972, ferido em combate. Levado para Xamboiá (TO), seu corpo, deformado após assassinado por baioneta, foi pendurado numa arvora de cabeça para baixo.

Sobre esses tristes episódios da nossa história, contra o advogado e  Juiz do Trabalho aposentado, Inocêncio Uchôa,  presidente do Centro Acadêmico de Direito em 1968:

“As torturas eram bárbaras: espancamentos, choques elétricos. Independentemente da sua participação de esquerda, se estava na luta armada ou não, a tortura era comum a todos. Muitos espancamentos, muitos choques elétricos e muitas humilhações. A tortura não é uma sessão, é um período”. “Na hora da tortura, eu olhava para os torturadores e não acreditava que aqueles caras tinham a coragem de praticar tantas barbaridades. É tão inacreditável que o ser humano seja capaz de praticar tantas barbaridades que você não acredita que aquilo esteja acontecendo”.

Assistência médica a comunistas era proibido. TC Jun 1972.
(Acervo Lucas)
Em março de 1974, a Polícia Federal prendeu, no Ceará, doze integrantes do Movimento Comunista Internacional, entre os quais operários, estudantes secundaristas e professores universitários, lutadores incansáveis pela democracia, como Francisco Auto Filho e Nelson Campos. Jovens sonhadores que se reuniam às escondidas num sítio em Pajuçara, pois seus direitos, e dos brasileiros, por liberdade, estavam proibidos. Chamados de “subversivos”, tiveram seus nomes expostos à população como criminosos, porque era crime pensar diferente dos poderosos, ter direito a uma opção política, num País onde para se viver “em paz” não deveria contestar o autoritarismo, tampouco denunciar a corrupção abafada. Naquele fatídico dia, Gilvan Rocha, que se apresentava como Clóvis Tavares Pinheiro, conseguiu escapar como “bandido”, sendo caçado pela Federal para prisão preventiva, junto com sua companheira, Professora Ester Barroso Pinheiro, funcionária da Delegacia do Ministério de Educação.

Correio do Ceará: Auto Filho, Gilvan
Rocha e professores universitários
são presos. (mar 74 - Acervo Lucas)
 Pode parecer inacreditável, mas nos dias atuais, apesar de tantos avanços constitucionais dos direitos do cidadão, vê-se uma polícia ainda repressora e vingativa, obviamente não no seu conjunto, pois sabemos da integridade da maioria, mas preocupante a participação de setores superiores do seu quadro em casos como a “Chacina de Messejana” ocorrida no bairro do Curió em 12 de novembro de 2015.

Segundo o GAECO, Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas, à frente o Procurador Geral de Justiça do Ceará, Plácido Rios e demais promotores, tratou-se ação de maneira planejada e intencional, envolvendo cerca de 100 militares, protagonizada por 44 PMs, uma vingança pela morte de um policial que resultou na execução sumária  de onze jovens inocentes, além de sete feridos a tiros. As entradas do bairro foram fechadas para que não houvesse chance de defesa. Pessoas que se encontravam nas calçadas não tiveram tempo de correr diante das balas atiradas pelos policiais encapuzados, que foram identificados através de conversas pelas redes sociais, telefonemas ou rádios de comunicação. Ou seja, o crime se tornou tão banal que bandidos, civis ou militares, não se intimidam em comentar sobre ele. Presos recentemente no quartel 5° Batalhão, os evolvidos têm recebido a solidariedade de colegas, alegando falhas nas investigações.  Mais preocupante foi a posisão de um deputado militar, candidato à Prefeitura de Fortaleza, reclamar da conclusão do inquérito em plena campanha, ao que parece duvidando da intenção do Ministério Público. Não vimos, entretanto, a sua posição a respeito dos responsáveis pelo atentado que chocou o Estado.

7 de Setembro de 2016: Flagrante da PM na Beira mar revolta a sociedade. Foto Kid Junior (Diário do Nordeste)
7/9/2016: por volta das 16 horas, manifestantes começam a se aglomerar no aterro da Praia de Iracema, no Dia da Independência, num ato contra o presidente recém-eleito indiretamente, Michel Temer. Por todos os dias de conclamação para o evento, via redes sociais, orientava-se para um comportamento pacífico e atenção para prováveis infiltrações. Conforme o jornal Diário do Nordeste, há noite, as 20 mil pessoas que participavam ordeiramente da defesa do direito da liberdade e respeito à Constituição, começaram a se dispersar, após caminhada até o anfiteatro da Volta da Jurema, sendo surpreendidas com a chegada brusca da polícia. Equipes do BPRaio e do Ronda do Quarteirão encararam as pessoas presentes no calçadão, cearenses e turistas, fazendo uso de spray de pimenta e bombas de efeito moral, detendo inocentes e ferindo indefesos como um fotógrafo do O Povo. A reação da sociedade veio de organismos como a OAB, Secção Ceará e da Defensoria Pública Geral exigindo imediata apuração e punição aos policiais que se excederam.

 Conclui-se que fatos dessa natureza vão além do preparo policial, que de fato passa por jornadas de exercícios e aulas, procurando a defesa do cidadão, desde que não cruze com um esquerdista. Uma história aberta em jornais e livros mostra que, independente do governo ao qual é subordinado, o Brasil não superou o ódio e preconceito às pessoas que têm um pensamento socialista. Não importa se chamados de “comunistas”, “agitadores”, “subversivos” ou “baderneiros”, parte da sociedade tem complexo por isso. São cidadão que têm direito de difundir suas ideias.

 Por traz de tudo está o militarismo atrelado ao capitalismo dos Estados Unidos e seus interesses econômicos (vide o pré-sal), danando-se a luta das classes estudantis e operárias por uma vida digna e desatrelada da elite fascista que se perpetua no poder. A desculpa de “mensaleiros” e do “petrolão” não encobrirá a corrupção que a história não pode contar, pois a ditadura militar e seus filhos fecharam os cadeados da realidade. Foram-se o Bergson, os meninos do Curió e tantos outros, barbaramente, mas acima de tudo sempre existiu a esperança, e como ela é interna, guardada no âmago, invencível, jamais se apagará a chama da liberdade.


Biblioteca Pública Menezes Pimentel. Espaço Estação prossegue co exposição sobre a Anistia (1979)


Fontes:

“Foi Assim - O Movimento Estudantil no Ceará  de 1928 a 1968” (Braulio Ramalho).
Jornais Gazeta de Notícias e Tribuna do Ceará (1968); O Povo e Diário do Nordeste (2016).



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Geraldo Nobre - Aniversário do Professor - Por Instituto do Ceará

Notável jornalista, economista e historiador (Foto Diário do Nordeste)

Geraldo da Silva NOBRE - Nasceu em Morada Nova, 31 de agosto de 1924, filho de João Eduardo Nobre e Pulquéria Silva Nobre. 

Estudou no Colégio Castelo Branco e no Liceu do Ceará. Economista pela Faculdade de Ciências Econômicas do Ceará (turma de 1944). Licenciado em Geografia e História (1953). Redator da “Gazeta de Noticias”. Editorialista do “Correio do Ceará”; também militou no “Mordeste”, “fortaleza” e “Unitário”. Professor da Universidade Federal do Ceará (Faculdade de Ciências Econômicas) e da Universidade Estadual (Faculdade de Filosofia). 

Chefe do Serviço de Imprensa do Governo do Ceará (1967/1971). Diretor do Arquivo Público Estadual-(1981/1994). Fundador e Primeiro Presidente do Centro de Economistas do Ceará, que se transformou posteriormente no Sindicato da classe.

Portador da Medalha do Mérito da Segurança do Trabalho, conferida pelo então Ministro João Goulart. Presidente do Instituto do Ceará. Usou os pseudônimos Adrião Barbosa Aníbal Diniz H. D. e Hagadê.

Publicou mais de 10.000 artigos e comentários, o que, reunido, daria para formar centenas de obras, todas da maior importância para os temas versados. Seu primeiro livro chamou-se Estudo Sobre Antônio Cardoso de Barros,(1968), seguindo-se: Datas e Fatos de 1822. Ceará; A Capital do Ceará; História do Tribunal de Justiça do Ceará; Introdução à História do Jornalismo Cearense; Tibúrcio Rodrigues - A Imprensa e a República; História de Morada Nova (2 volumes); As Oficinas de Carne do Ceará - Uma Solução Local para uma Pecuária em Crise; João da Silva Feijó - Um Naturalista no Ceará; História Eclesiástica do Ceará (primeira parte); Ceará - Energia e Progresso; O Legislativo Cearense - 150 Anos de Atuação; O DNOCS e o Novo Nordeste; Para a História Cultural do Ceará - O Conselho Estadual de Cultura; Amor de Branco em Tráfico de Negro; História Judiciária do Ceará (1° volume); Administração; Universalidade do Pensamento.

 Faleceu em Fortaleza, aos 80 anos, no dia 28 de junho de 2005.

Um dos livros mais brilhantes do Estado do Ceará

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Trairi - Paróquia N. Sra do Livramento, de 1874 a 1915. Com Padre Rodolfo.


Padres Anteriores à Paróquia



Dos religiosos que celebraram em Trairi, destacamos, no século XVIII, os padres missionários Fernando Bezerra e Sebastião Ferreira (1727); Frei Ximenes de Santa Cruz (1728), Felix de Azevedo (1741), José Moreira (1743), Vicente dos Santos (1745), Antônio José da Silva (1761); Eloy da Cunha Andrade (1768), Francisco Marreiros da Silva (1772), Antônio José Cavalcante, Francisco Antônio da Silva (1798); e, por mais de trinta anos, José Furtado de Mendonça, neto de Dona Maria Furtado de Mendonça, a das primeira povoadora de origem branca e instrutora da então capela de Nossa Senhora do Livramento.

 No século seguinte, o frei José de Santa Clara (1800), que pregava em Uruburetama e na ribeira do Curu; Pe. Francisco Antônio Gusmão, Pe. Antônio Thomaz Teixeira Galvão, Pe. Antonino Pereira de Alencar e Pe. Manoel de Lima Araújo (futuro deputado provincial), dos tempos de Trairi Capela. Com o anúncio da vila pela primeira vez, em 1863, foi transferido para Saboeiro, como coadjutor, já que era natural de Assaré, ali próximo. Retornou a Trairi, onde permaneceu capelão de 1871 a 1872, tendo acolhido um jovem padre que o destino o tornaria famoso: Cícero Romão Batista.

Ordenado no Seminário da Prainha em 30 de novembro de 1870, Padre Cícero logo partiu para a sua terra. O jornal Cearense o trás, em 1 de abril de 1871, comandando, no Crato, a Procissão dos Passos, já seduzindo os fiéis com seus sermões de estilo primoroso. Aos 27 anos, procurou Dom Luiz Antônio dos Santos, em Fortaleza,  a quem comunicou a ideia de criação de um seminário no Crato.

O bispo, grato pelo esforço do jovem padre professor de latim no seminário em que estudara, condicionou o pedido a uma missão, exatamente em Trairi e Mundaú. E assim, durante dois meses, provavelmente entre novembro e dezembro de 1871, batizou, benzeu a capela de São José (Canaan), rezou e aconselhou aquele povo praiano. Isso pelo fato de os jornais da época citarem, em 19 de janeiro de 1872, o padre passageiro do vapor Ipojuca, que chegara do norte. Assumiu como primeiro pároco de Juazeiro do Norte em 11 de abril de 1872.

Portanto, trata-se de mais um fato na rica história de Trairi, que consta como a terra que acolheu o fundador do Ceará, Martim Soares Moreno (1604), e as Santas Missões a partir de 1608.

 Os primeiros párocos de Nossa Senhora do Livramento, além do saudoso Padre Rodolpho :


1 - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA CARVALHO (14/8/1874 a  18/2/1878)


Pe. Carvalho. Primeiro pároco

 Natural de Arneiroz CE (18/05/1834), filho de Antônio José Carvalho e de Maria Claudina de Carvalho. Recebeu ordens de presbítero, de D. Luís, em Fortaleza no dia 20 de setembro de 1862, mas ordenado em Sobral (10/01/1863), foi vigário da freguesia de Nossa Senhoras dos Remédios (Parazinho) de 15 de setembro de 1865 a 1874, quando nomeado para Nossa Senhora do Livramento (então nome de Trairi) pelo primeiro bispo do Ceará, Dom Luís Antônio. Assumindo em 5 de setembro de 1874, teve como primeiro sacristão Francisco Gordiano do Nascimento, patriarca de honrada família da sede. Sua chegada foi magistral, diante de uma procissão ao lado da imagem da Milagreira. Deixou Trairi em 18 de fevereiro de 1878. Em seguida foi vigário em Pereiro (10/7/1880 a 27/2/1899), na época em que aquele município  se chamava Posse, e em que entrou na política como deputado provincial (1893 - 1896). Anteriormente, a Igreja tinha como capelão o Pe. Manoel Lima de Araújo, transferido em fevereiro de 1874 para Saboeiro. Em seguida foi vigário de Pereiro a partir de 1880, falecendo naquela vila em 1899.




2 - PEDRO LEOPOLDO DE ARAÚJO FEITOSA (1878 - 1879)



Monsenhor Leopoldo
Nasceu no dia 3 de maio de 1853 em Arneiroz, nos Inhamuns. Seus pais se chamavam João Leopoldo de Araújo Chaves e Ana Leopoldo Alves Feitosa. Ordenou-se no Seminário da Prainha, Fortaleza, em 02/12/1877. Começou sua missão em Trairi em 3 de março de 1878. Na posse, estava presente, com nome registrado, o brilhante jornalista e poeta abolicionista Antônio Dias Martins Jr, irmão do famoso poeta trairiense Álvaro Dias Martins. Após um ano, mudou-se para Soure (Caucaia), lá permanecendo entre setembro de 1879 e junho de 1888. No mesmo ano estava em Pacatuba. Entre 1884 e 1885, foi deputado estadual (provincial), época em que foi professor do Liceu do Ceará, catedrático em latim, e publicou o livro "As Belezas da Religião". Cura da Igreja da Sé (de Fortaleza) entre 1895 e 1904, após o cargo de Conselheiro Diocesano (1901), tornou-se monsenhor em 3/4/1902, quando visitou Trairi naquele ano. Faleceu em Fortaleza em 29/03/1916.



3 - JOAQUIM FERREIRA DE CASTRO (1879 - 1884)


 Nasceu em Russas CE em 21/12/1848, ordenando-se em Fortaleza no dia 30/11/1875. No ano seguinte iniciou como pároco de Tamboril, e em seguida de Trairi. Batizou Pe. RODOLPHO FERREIRA DA CUNHA, bisneto do fazendeiro Luiz Ferreira da Cunha, que trabalhou e faleceu durante  ampliação da igreja.  Padre Castro morreu de tuberculose no dia 31 de junho de 1884, sendo enterrado no pé do altar-mor da paróquia de Trairi. No dia 7 de agosto, o intendente Antonio Barrozo de Souza mandou celebrar missa em sua alma.


4 - JOAQUIM ROMUALDO DE HOLLANDA (21/07/1884 a 9/7/1887)


 Nasceu em Fortaleza, no bairro do Tauape, em 25/08/1844, e estudou no seminário homônimo, ordenando-se em 1870. Ocupou o cargo de secretário da Câmara Eclesiástica até o fim de 1872. Primeiro vigário de Guaramiranga (N. Sra. da Conceição), em 1873-76, seguido do Acarape (Redenção), entre 1876-78, partindo para São Paulo, onde foi vigário de Parnaíba e de Sarabuhy SP, além de cônego da Capela Imperial. Em Trairi desde 21 de setembro de 1884 (posse) permaneceu até 1887.


5 - VICENTE TEIXEIRA PINTO  (28/8/1887 a 24/12/1892).


 Natural de Aurora, Padre Pinto, que anteriormente foi deputado pela Província, construiu a sacristia do lado sul do antigo templo, obra embargada por conta do falecimento do Sr. Luiz Ferreira da Cunha naquela empreitada. Preparou Pe. Rodolpho, trairiense, para a Primeira Eucaristia e para o seminário. No dia 27 de junho de 1891, recebeu a visita pastoral de D. Joaquim Vieira, o qual citou a sorte da comunidade Lagoa de Dentro, mais meia légua de terra do lado esquerdo do rio Curu, no Rosário.



6 - MELQUIDES AUGUSTO DE MATOS (1893 - 1894)









7 - ANTÔNIO Thomaz  - (14/09/1894 a 03/01/1897)

Príncipe dos Poetas
Famoso pelas suas brilhantes poesias, foi considerado o primeiro “Príncipe dos Poetas” do Ceará, ordenando-se em 1891. Após Trairi, principiante, foi pároco em sua terra, Acaraú, onde nasceu em 14/09/1868. Durante uma das visitas bimestrais à capela de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, em 1898, convenceu os fiéis, indígenas e descendentes, a muito custo, a levar as imagens e o sino para a igreja de Itarema, Nossa Senhora dos Navegantes, diante da invasão das dunas, que viriam a soterrá-la por 45 anos. De Itarema, a imagem primitiva de Nossa Senhora da Conceição, doação da rainha Maria I, que mandou construir o templo atual no mesmo período da de Trairi, desapareceu. Na verdade “permuta”, em troca de uma imagem espanhola, “Labareda”, encontrada na praia pelos índios, sagrada para eles, numa decisão unilateral. Anos depois, suspeitou-se que a mesma estaria no Museu Dom José, em Sobral, sem catalogação, junto a outras da Santa na mesma situação, e praticamente ninguém de então vivo para testemunhar, se fosse o caso, qual a verídica. Faleceu aos 72 anos, em 16/07/1941, vítima de ataque cardíaco, após operação no hospital São João (Jacarecanga) em Fortaleza.


8 - ANTÔNIO PEREIRA DA GRAÇA MARTINS (21/02/1897 a 15/2/1900)



Pe. Graça
 Aluno do Seminário da Prainha, ordenou-se em 30 de novembro de 1893. Sua primeira missa foi, como subdiácono, em Aracati, no dia 8 de dezembro daquele ano. Em seguida foi para Maranguape, como coadjutor, mas sua primeira paróquia foi Nossa Sra. do Livramento, em Trairi. Padre Graça não se adaptou à simplicidade da antiga casa paroquial, tendo em vista a sua repugnância a insetos e quaisquer anfíbios. Foi morar com o farmacêutico Joaquim Tomaz da Cunha, na casa onde residiu, até o fim da vida, a professora e religiosa Madrinha Morena, chefe dos Correios. Sua afeição a “Marinheiro Cunha” era de tal ordem que deixou a paróquia após a morte do amigo, em 1900. Transferiu-se para a sua terra, Paróquia de Limoeiro do Norte (posse em 22/04/1900). Ali, entrou na política, como intendente, chegando a presidir a Câmara de Vereadores. Em 1908 retornou para Aracati, enfim pároco, assim como em Tianguá (24/05/1915), onde permaneceu pouco tempo. Voltaria definitivamente para a região jaguaribana. Assumiu a Paroquia de União (hoje Jaguaruana) em 5/7/1916, ajudando na criação da Paróquia de Itaiçaba (antiga Passagem das Pedras), da qual foi seu primeiro pároco (N. Sra. da Boa Viagem), em 29/09/1941.





Pe. Epifânio

9 - JOÃO EPIPHANIO DE FREITAS GUIMARÃES (1900 - 1901)


 Nasceu em Messejana, na época município cearense, em 07/04/1875, ordenando-se em Fortaleza em 30/11/1899. Iniciou como vigário em Trairi aos 24 anos (15/02/1900), mas pesar do pouco tempo em Trairi, Padre Epifânio deixou a lembrança da criação da Irmandade do Coração de Jesus. Trouxe de Portugal a imagem maior de Nossa Senhora do Livramento, segundo os especialistas de formosura rara. Depois seguiu para Pedra Branca.



10 - MACÁRIO BEZERRA DO VALE ARRUDA (1901 -1902) 


Devido a problemas de saúde, só passou nove meses. Padre na época tinha que andar de cavalo e percorrer quilômetros para cumprir o ofício divino.



11 - JOÃO CASIMIRO VIANNA (16/5/1902 a 25/2/1903).


 Nasceu em Lavras da Mangabeira em  07/09/1876, ordenando-se em Salvador BA em 05/10/1901, rezando a primeira missa em Brejo Santo, onde residia sua família. aNo mesmo ano foi coadjutor de Itapipoca e Arraial (Uruburetama) até seguir para Trairi com 25 anos. Reclamava da solidão diante de um povoado tão pequeno. Famoso por soltar o estoque de fogos de artifício que sobraram das festas de dezembro. Alegou que queria companhia.


12 - JOSÉ GONÇALVES FERREIRA (25/2/1903 a janeiro de 1904) 



Padre Ferreira, de Aurora
Natural de Aurora, recebeu a Ordem do Presbiterato no Seminário da Prainha em 30 de novembro de 1902, era irmão de D. Alberto Gonçalves, monge beneditino do Rio de janeiro. Sua primeira paróquia foi Trairi aos 26 anos. De temperamento elevado, não deixou boa impressão aos fiéis. Costumava reclamar do local e das pessoas de Trairi. Transferiu-se para a Paróquia de São Raimundo Nonato, de Várzea Alegre, onde permaneceu até o seu falecimento, em 3 de novembro de 1917. Suicidou-se por enforcamento após calúnia da parte de dois indivíduos.









13 - JOSÉ ROMUALDO DE SOUSA (1904 - 1915)


 Nasceu em Fortaleza em 07/02/1875. Célebre padre voltado aos desígnios de Deus. Notável marceneiro, reformou a igreja primitiva, construindo os dois corredores laterais, o quarto dos sinos e o confessionário. Ergueu a capela de Mundaú. Educador, ajudava os precursores professores José Joaquim Gouveia (que foi vereador e intendente) e Benvinda Xavier na educação da maioria dos trairienses, aqueles que não podiam estudar na capital. Em 1912, havia rumores de que estava deixando a paróquia, no que de imediato um abaixo-assinado, partindo dos fiéis mais próximos, implorou ao bispo a sua permanência. D. Joaquim ouviu N. Sra. do Livramento.


Pe. Romualdo. Histórico.
 No mesmo ano que deixou Trairi (1915), foi para Soure (Caucaia), onde permaneceu 33 anos, ou seja, até o fim da vida, aos 72 anos. Justamente na Seca do 15, quando a miséria imperava com a excassez d´água no Ceará. Locomovia-se a cavalo para as distantes comunidades onde eram agendadas missas, festejos, além do dever da extrema-unção aos doentes. Nas horas vagas, costumava construir miniaturas de navios e até barcos verdadeiros, realizações teatrais e formação da banda musical da paróquia, constituída até de piano, saxofone, clarinete e percussão, os quais dominava com maestria. Humilde, não perdeu o ofício de pedreiro, cooperando na construção de capelas, incluídas as do Pecém e de São Gonçalo. Na educação, ensinou teologia e filosofia aos jovens, sua grande paixão. Na paróquia, ergueu o altar mor e novas dependências, além da sua torre, com ele no serviço braçal. Fez as medições e mandou buscar em Paris relógio e sino para a mesma. Até 1943, a quatro anos da sua morte, manteve sob seu controle o fornecimento de energia da cidade após comprar um locomóvel. Dizem que “a única coisa que Pe. Romualdo não fazia era sapatos”. Segundo o padre, “não iria fazer trabalhos com as mãos para desmanchar com os pés”.

Padres Graça e José Romualdo, o eclético, entre os colegas


 Em comemoração ao centenário do seu nascimento, a prefeitura de Caucaia encomendou uma estátua do religioso ao famoso escultor Bosco. Seria um motivo a mais para abrilhantar os festejos se o rosto não ficasse tão diferente da realidade. Ademais, apresentaram o padre vestido de paletó, quando usava sempre um guarda-pó, sua vestimenta indispensável quando não realizava missa ou trabalhava como operário. Constrangido, o artista pois a culpa no retrato que lhe repassaram.

 Padre Rodolho Ferreira da Cunha



Livro do Seminário da Prainha confirma a ordenação de Padre Rodolfo, de Canaan.


 RODOLPHO FERREIRA DA CUNHA (1880 - 1967).


 Não foi pároco em sua terra, mas seu amor por ela e biografia respeitável merece menção. Nascido em 26 de setembro de 1880, era filho do segundo casamento do coronel Raimundo Ferreira da Cunha e bisneto do fazendeiro Luiz Ferreira da Cunha, que trabalhou na ampliação da igreja, Padre Rodolpho é a figura mais querida e lembrada de Lavagem (Canaan). Jovem, foi para o Seminário da Prainha, onde completou os estudos um ano antes de sua ordenação por conta da pouca idade.

 Dedicado, aprendeu vários idiomas, desenvolvendo a arte musical, a qual levou para sua terra. Conforme a historiadora Maria Pia, um dos seus desejos era participar de missões com os índios, que era tarefa das mais provocantes e difíceis desde a primeira, em 1608, quando os padres Francisco Pinto e Luís Figueira pisaram em terras trairienses. Seu desejo foi atendido com sua missão no Brasil Central.



Pe. Rodolpho. Filho querido de Canaan e dos trairienses.




Ordenou-se em 28 de março de 1903, tendo realizado a primeira missa na capela do seminário onde estudou. Em 1905 foi capelão do Asilo dos Alienados (Asilo da Parangaba) e capelão da Igreja Bom Jesus dos Aflitos (Parangaba) de 1908-15 e seu vigário entre 1915-25, além de brilhante professor do Seminário da Prainha (1902-14), e de geografia no Liceu do Ceará , colégios Cearense e Castelo Branco, ginásio do Crato, além de sócio-honorário n° 21 do Instituto do Ceará, em 1922, e vigário de Solonópole entre 1928-31. No poder público, foi Inspetor Escolar no período de 1931 e 1938.



 No livro comemorativo dos 50 anos do Seminário Episcopal do Ceará (1915), o padre foi saudado como “lente (professor) mais querido dos seminaristas. Coração formado de bondade e brandura, a todos prodigaliza. Desde 1902, ainda theologo, distribui aos alunos do seminário as luzes de sua vasta erudição. Ordenado presbítero em 28 de março de 1903, não quis abandonar esta casa, e até hoje permanece entre nós, a todos edificando pelo exemplo de suas atraentes virtudes”.

 Suas maiores alegrias: o dia da ordenação, a primeira missa e as Bodas de Ouro da sua ordenação. Partiu para a vida eterna em 18 de abril de 1967, em Fortaleza, na Casa de Saúde Eduardo Salgado. Conforme sua conterrânea Maria Pia, “toda Canaan chorou a sua morte, aos 87 anos", onde passara seus últimos anos. Após dez anos, trouxeram seus restos mortais, que repousam na capela de São José, construída por sua avó, Maria Bezerra de Menezes, Dona Iaiá, a qual foi reformada por ele, anexando a ela a torre com relógio. Foi sugestão sua a mudança do nome, de Lavagem para o bíblico. Por ocasião das Bodas de Ouro, o coral de Trairi o saudou com a música “Salve Padre Rodolfo”:

“Sede bem vindo ao nosso meio, amigo
Santo Ministro de Jesus
Vossa Missão é muito nobre
Espalhar no mundo a luz”
“O vosso lema quase não se exprime
Tão perfeito e singular
É sagrado, é sublime
Só Jesus soube inspirar”
Coro
“Salve, salve Padre Rodolfo!
Deus na terra em forma humana
A vós hoje tributamos
De louvor o nosso hosanas
No peito de gozo estúa
E nossa alma, na fé se extasia
E cantamos e exultamos
Em transporte de alegria”


Dados de consultas:

"Como Nasceu Trairi" - Maria Pia de Sales
"Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará 1914"
"Igrejas do Ceará 1997" - Francisco de Andrade Barroso
 Acervo Lucas



Seminário da Prainha no início do Século XX





domingo, 31 de julho de 2016

Forte de São Sebastião - Fortaleza de Índios e Brancos



Gravura de Frans Post . 1645
Sabemos que após o fracasso da primeira expedição portuguesa em solo cearense, tendo a mesma chegada ao rio Parnaíba em meio a ameaça de motim dos soldados maltrapilhos, o capitão-mor Pero Coelho fixou-se na Barra do Ceará, dando a ela o nome de Nova Lusitânia. Ao pequeno arraial, onde construiu, na sua margem direita, o forte de São Tiago, em 25 de julho de 1604, chamou de Nova Lisboa. Pero Coelho partiu para a Paraíba em busca da família, em 1605, deixando-o aos cuidados do cabo Simão Nunes, com 45 soldados,-os envios de mantimentos. Retornou de barco no ano seguinte com a mulher e os cinco filhos. A ajuda prometida e que conseguira junto ao governador geral  não havia chegado, tendo um antigo aliado, João Soromenho, morrido na cadeia pelo desvio do material.

 “Foi forçoso despovoar-se aquele sítio donde já era feita uma cidade”. “Efêmera e sem brilho havia de ser a vida desse reduto, testemunho mudo dos sofrimentos e das misérias”, comentou o capitão.  Simão Nunes, diante da miséria e revolta dos índios locais, o convenceu a seguir para a foz do Jaguaribe e construir ali um fortim onde pisara durante a chegada ao Ceará. Pero Coelho de fato construiu o forte de São Lourenço naquele braço do mar. Mas devido à seca, o cabo e seus companheiros o abandonaram, porém informaram ao padre Manuel Correia Soares (RN) que Pero e família vinham atrás. Por sorte viveram e foram levados pelo religioso para Natal e depois Paraíba, após sofrida peregrinação pelo sertão seco, fato que ceifou a vida do filho mais velho. Sem ressarcimento, morreu pobre em Lisboa.

 Diante da frustração da ausência de ouro e prata no Ceará, a conquista do Maranhão, sob domínio francês, era uma obstinação do rei Felipe III. Oito anos após o fracasso de Pero Coelho, Sua Majestade incumbiu ao tenente Martim Soares Moreno, da excursão do outro, a tarefa de retornar à Barra do Ceará e erguer um novo fortim, para em seguida seguir para o Norte.


Arnoudo Montanus. Seria o Schoonenborch. 1671

 
Assim relatou no “Relação do Ceará” (1618), o primeiro livro sobre as terras alencarinas: “E estando eu como tenente do capitão-mor Lourenço Peixoto servindo na fortaleza do Rio Grande do Norte, fui fazer novas amizades com os moradores daquela costa até o Seará, o que fiz pela amizade que me tinham, me arrisquei só com dois homens a meter com eles, donde os incitei um deles fosse comigo para a Bahia pedir ao Governador Diogo de Menezes para que se fizesse cristãos e que eu iria assistir com eles, o que fizeram e foi um filho do Principal Jacaúna a Bahia a fazer este peditório, o que logo dito o governador ordenou e me mandou negociado de todas as cousas necessárias, encarregou que me comerciasse por terra com os naturais do Maranhão para de fazer aquela conquista, dando de tudo parte ao Conselho da Índia e sendo no ano de 1611 cheguei ao Seará com seis homens em minha companhia e um Clérigo, onde fui muito bem atendido, logo há poucos dias fiz igreja, e com retábulos que levei se disse missa e se fizeram muitos índios cristãos”.

 “Ali, no dito ano, degolei mais de duzentos franceses e flamengos piratas e lhe tomei três embarcações, donde uma delas veio a Sua Majestade e a esta Cidade toda a proa e proa douradas e para fazer estes assaltos me despia nu e me raspava a barba, tingindo de negro com arco e flechas, ajudando-me dos índios, falando-lhes de contínuo a língua e perguntando-lhes o que já sabiam bem fazer. No dito ano, fiz pazes com três castas tapuias ali vizinhos e por meio deles tive novas do Maranhão e foram índios dele a falar comigo donde me deram notícias das boas terras que havia naquelas partes, e gastando muito da minha fazenda para fazer estas pazes”.


B. do CE (O Povo, jan 78 - Acervo Lucas)

 A partir de 20 de janeiro de 1612, Martim e seus amigos potiguaras iniciaram a construção do forte no mesmo local do São Thiago e São Lourenço, este erguido de maneira mais simplória pelo padre jesuíta Luís Figueira, em 1608, que vinha de frustrada incursão na Ibiapaba, um novo fiasco para se chegar ao Maranhão por terra. Levantado sob estacas e madeiras, possuía  guaritas e casas de soldado no seu interior, além de uma ermida onde se realizaram missas pelo padre Baltasar João Corrêa . A capela recebeu a invocação de Nossa Sra. do Amparo, mas o orago, ou padroeiro, foi São Sebastião, santo do dia em que se começou a obra. Em 1920, como segundo capitão-mor do Ceará,  Martim Soares Moreno pediu ao rei uma “imagem de São Sebastião, uma vestimenta frontal, capa de asperges, um cálice e um retábulo de N. Senhora”, prontamente atendido.

 O Forte de São Sebastião, entretanto, para os estudiosos cearenses era modesto. Na opinião do jornalista, teatrólogo e pesquisador Eduardo Campos (ou Manuelito Eduardo), renomado diretor dos Diários Associados, presidente do Instituto do Ceará e da Associação Cearense de Letras, o “forte teria sido de pouca expressão como construção defensiva, não contando, na sua parte mais comprida, com mais de vinte metros. Dizem que assumia forma de retângulo, não deveria ter mais de 14 ou 16 metros de largura. Era um fortim pequeno, mas não tão expressivo como se tem julgado. Preliminarmente, cabem no interior pelo menos 24 ermidas. Admitindo que uma deva ter 5x3 m3, o forte teria 360 m3. Pelo desenho, tem-se a impressão que é feita de pedra e argamassa, estaria representada por duas paredes paralelas, tb desproporcionadas no desenho. Ao redor, fazendo a cercadura, com entrada e saída para a ermida, ter-se-ia a paliçada tradicional, de no máximo 400 m3” (Unitário, 30 de abril de 1974).

 Em julho de 1613, decisão do Conselho Ultramarino destinou Martim Soares Moreno a acompanhar Jerônimo de Albuquerque na expedição contra os franceses, deixando o comando do São Sebastião com Estevão de Campos, logo substituído por Manuel de Brito Freire, continuando firme com o trabalho de evangelização o Padre Baltasar. Foram num pequeno barco, levando os mesmos índios que haviam ido com ele à Bahia dois anos antes, Jacaúna e seu filho. Tornou-se herói da conquista do Maranhão.

 Após idas e vindas a Pernambuco e Lisboa, retornou em 23 de setembro de 1621, como capitão-mor, encontrando o forte reduzido a uma estacada de varas e cabanas de palha, onde não cabia sequer as pólvoras. Pelo menos não perdera a confiança dos índios, agora com novos aliados, os tapuias jaguaribaras, na guarda da frágil fortaleza ao lado de Jacaúna.


Os holandeses levaram cerca de 3400 telhas do S. Sebastião
para o Schoonemborch em 1649.
 Nova ausência de Martim Soares Moreno e, após ida de índios a Olinda para forçar união contra os portugueses, eis que, em 1637, os holandeses liderados por George Gartsman tomam o forte sem dificuldade, tendo os 33 portugueses aprisionados levados para o Rio Grande do Norte. Sem intenção de colonizar, mas de explorar as serras em busca de prata, os flamengos acabaram surpreendidos, em 1644, pelo ataque de índios que os trucidaram, matando todos 


os invasores. Pelo estilo da ação, é provável que os autores do atentado tenha sido os temidos paiacus.

Os holandeses novamente se apoderaram das terras cearenses, a partir de 1649, comandado por Matias Beck, construindo de imediato um forte na embocadura do riacho Pajeú, onde atualmente se encontra a Fortaleza de NS da Assunção, ao lado do Quartel General da 10° Região Militar. O Schoonemborch foi construído entre abril e maio de 1649, por 40 homens, incluindo negros levados de Pernambuco por Matias Beck. Durante esse período, conseguiu-se, com muito sacrifício, barro numa grande lagoa, a meia légua, ou 2,2 km, presumindo-se que se tratasse da Lagoa do Urubu, até os dias atuais existente no bairro Álvaro Weyne, a mesma em que os índios da Barra do Ceará se abasteciam diante da má qualidade do líquido do rio onde habitavam e onde Martim Soares teria se alojado.

Segundo o seu diário, a partir de 21 de abril daquele ano, Matias mandou buscar no forte arruinado, telhas e outros materiais. Pelo formato das cobertas da época, o que se retirou representaria o tamanho da figura vista no centro da gravura do holandês Frans Post (1645): 3400 telhas. Contudo, ruínas encontradas durante a ampliação do Clube de Regatas, em 1974, seriam dos paredões, com 15 ou 16 m de comprimento, que, edificados paralelamente, serviam de defesa e ataque que viessem da praia. A propósito, o desenho de Post não condiz com a legitimidade do forte, quadrada, sem flancos especiais, tendo duas torres nos dois ângulos, de pedras soltas sobrepostas sem cal, de altura de homem de homem e meio ou dois homens. (3,4 metros), tendo sido ampliada a área, aproximado o prédio do rio e incluído imagens fantasiosas de gado, na época inexistente no Ceará.

 Disse o historiador e ex-secretário de Cultura e Urbanismo, Raimundo Girão, em 1984, que “os holandeses o melhoraram sensivelmente, garantindo com paliçadas e outras instalações, certo de que conservariam a bandeira de sua pátria, planejando duradouramente aos ventos soprados do verde mar bravio”. “A segunda investida recuperou aquela foz de desencantos, não sem um detido exame para um novo aproveitamento. Dadas as condições topográficas, eram impróprias as entradas e saídas de navios num rio soterrado. Sob enfoque turístico-histórico da Barra do Ceará, sua história pode ser dividida em duas fases: a do povoamento a partir de 1612, com a fundação de Fortaleza, e na fase mais moderna de 1927 até os dias atuais”. Com a queda de Maurício de Nassau em Pernambuco, fragilizado ainda pelas consequências da seca de 1651-54, Matias Beck deixou pacificamente, com a família, o Brasil, dirigindo-se para São Domingos, nas Antilhas. O novo capitão-mor português, Álvaro de Azevedo Barreto,  assumiu o forte de Schoonemboch, e com algumas mudanças o denominou de Nossa Senhora da Assunção.

 Subordinado ao Maranhão desde 1621, em 1656 o Ceará passou para o domínio pernambucano. Sua a autonomia, porém, só chegou muito tempo depois, em 1799, quando enfim, independente, experimentou os progressos, embora lentamente, em todos os níveis sociais e econômicos.

Correio do CE maio 74
(Acervo Lucas)
O jornal Correio do Ceará de  15 de maio de 1974 trouxe matéria de Lêda Maria, que escrevia uma série sobre o achado daquele ano. Presentes ao local, o prefeito Vicente Fialho, historiadores, geólogos, professores, alunos e imprensa. Crianças escoteiras foram flagradas segurando balas de canhão, no que nos sugere serem oriundas de ataques pelo mar e que os portugueses e os índios as enterraram como segurança. O ex-secretário Raimundo Girão se disse convicto que se tratava do local do forte e esperava “um trabalho zeloso dos operários e não por meio de tratores”. Em 1961, projeto-de-lei do deputado Plácido Castelo, conseguiu verbas para escavações na Barra do Ceará, aos cuidados do historiador Ismael Pordeus, em busca de resquícios do forte, sem sucesso. Em 1974, porém, acreditava-se que as conclusões tornaria o local ponto turístico. Para o então secretário de Cultura, Ernando Uchôa, as análises, a partir de então, seriam relevantes para a cidade, e prometeu providências para “resguardar o ponto histórico naquele Ano da Cultura", prosseguindo pesquisas para desvendar “todo o material da grande fortaleza”. Infelizmente nada foi cumprido.

sábado, 16 de julho de 2016

Dom Manoel - Vida de Fé e de Dor

 
D. Manoel

Manoel Gomes da Silva nasceu no dia 14 de março de 1874. Ordenou-se no Seminário Arquiepiscopal Primacial de sua terra, Salvador BA, em 15/11/1896. Lecionava onde fizera seus estudos religiosos e nas horas vagas dedicava-se ao Orfanato do Sagrado Coração de Jesus, dirigido pelas irmãs de caridade. Foi quando seu superior, Reverendíssimo Padre Manuel dos Santos Ferreira, sob insistência do Arcebispo da Bahia, o cearense Dom Jerônimo Tomé da Silva, comunicou a sua missão: Tornar-se Bispo Auxiliar de Dom Joaquim José Vieira, no Ceará, sendo ordenado pelo Papa Pio X em 11/4/1911.  A consagração episcopal ocorreu no dia 29 de outubro daquele ano pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Miguel Valverde.
No dia 9 de fevereiro de 1912, Dom Manoel pisou em solo cearense. Não parou, tomou logo a iniciativa de se associar aos trabalhadores, criando, no dia 20 de junho daquele ano, em Fortaleza, o Círculo de Operários Católicos, cuja última sede foi no prédio do Teatro São José. Um passo para a subida na hierarquia católica.  Com a renúncia de Dom Joaquim, assumiu, no dia 8 de dezembro de 1912, como terceiro Bispo do Ceará. 


Sua casa a partir de 1943
(Correio do Ceará - Acervo Lucas)
Logo tratou de fazer um reordenamento administrativo, criando uma organização que fez surgir , através de bula papal de Bento XV, as diocese do Crato (1914) e, em 10 de novembro de 2015, a de Sobral, tornando-se nesse dia o primeiro Arcebispo Metropolitano de Fortaleza. Somente em 1938, fundou a diocese de Limoeiro do Norte, cujo primeiro bispo foi Dom Aureliano de Matos, por 27 anos, até o seu falecimento, em 1967. Nessa época o Ceará se encontrava em absoluta miséria. Dom Manoel ocupou-se em conseguir donativos, de porta em porta, na capital, durante a devastadora seca. O mesmo em 1919, quando percorreu o País atrás de donativos, o que lhe valeu o reconhecimento como "Bispo das Secas". Por contar com a ajuda paulista, orientou a mudança da "Rua da Assembléia" para Rua São Paulo.
1943 - Ponte Metálica (Praia de Iracema). Ao lado do Interventor Federal, Menezes Pimentel e de padres, retorna ao Ceará. (Foto Correio de Ceará - Acervo Lucas)
Em 1922 mudou o nome da Paróquia de Nossa Senhora do Livramento para Paróquia do Carmo, elevando-a à sede da Advocação Perpétua, ao mesmo tempo em que fundou doze paróquias no interior cearense. No mesmo ano, criou, com M. A. Andrade Furtado, o Jornal O Nordeste, que circulou por 45 anos. Dotado de excelentes redatores, o jornal da diocese de Fortaleza foi mantido graças ao sucesso das assinaturas, tanto na capital como no interior, tarefa executada pelo Monsenhor Antônio Tabosa Braga. 

Emocionado, sem esconder o choro, rezou a última missa, campal, da antiga Catedral da Sé, a saudosa Matriz de São José, de 2/04/1854, o padroeiro, em 11/09/1938. A partir de então começava a sua demolição para a construção da nova catedral. Criticado pela elite e pelos intelectuais, principalmente por ter negado feito igual em sua terra, entrou em depressão, preferindo o isolamento. O engenheiro francês George le Mounier ganhou a concorrência para a construção do templo. A obra demorou 40 anos para a conclusão, ou seja, poucos fiéis daquela época estavam vivos em 1978.

Em 28/05/1941, doente, renunciou, ficando o bispado com Monsenhor Otávio de Castro,  indicação sua,  uns dos fundadores do Colégio Cearense do Sagrado Coração (Marista), até a nomeação do mineiro Dom Antônio Almeida Lustosa para o seu lugar. Foi para a Bahia, retornando em 1943, passando a residir numa espaçosa casa na Av. do Imperador, onde hoje se localiza a sede do PSOL.
 A enfermidade começou em 1945. Cinco anos e meio depois, durante a extrema unção, Dom Almeida Lustosa dirigiu-se ao colega:
- Dom Manoel, diga comigo: "Meu Jesus, Misericórdia!".

 Após um leve sorriso, mas com esforço, disse: "Amém". 

 Poucos dias antes, durante um tratamento doloroso, numa autêntica expressão de humildade e fé, disse aos médicos:
 - Deixem-me sofrer. Eu mereço.

Naquele ano de 1950, às 7:30 horas do dia do seu aniversário de 76 anos, partiu.


Cripta da Catedral: D. Almeida Lustosa, gov. Faustino de Albu-
querque e Paulo Cabral, que naquele ano venceria as eleições 
para pref. de Fortaleza. (Correio do Ceará - Acervo Lucas)

Disse a matéria do destacado jornal Correio do Ceará daquele dia (os jornais saíam à tarde): " A morte de Dom Manuel da Silva Gomes, ocorrida nesta manhã,  é um acontecimento verdadeiramente lutuoso para o Ceará. Não apenas à família católica de nossa terra, mas toda a população do Estado sente, sinceramente, o desaparecimento do piedoso vigário de Cristo, cuja vida foi um modelo de virtudes. A consternação é geral, pois que geral era a estima de que se fizera merecedor o pranteado bispo católico. Nos dias angustiosos de sua enfermidade, já o coração do povo cearense se confrangia ante a perspectiva de desenlace. É grande a dor da família alencarina agora que se consumou o infausto acontecimento.  desde cedo, a residência do pranteado morto vem sendo visitada por milhares de pessoas, de todas as classes sociais, que ali vão ver, pela última vez, a figura estimada do virtuoso sacerdote".  


Antiga Sé, demolida. (Foto O Povo 1938 - Acervo Lucas)

 Na sua morada, na Av. do Imperador, encontravam-se Dom Almeida Lustosa, o seu secretário, Padre André Camurça; padres como José Mourão, José Gondim Hortêncio, Irmã Simas e outras de caridade, enfim religiosos em geral e suas secretárias aos prantos. O povo chorava e queria ver o corpo, que aguardava o momento de ser vestido com trajes sacerdotais, e, diante da romaria, foi preciso que se interditasse a rua. Seu corpo seguiu, acompanhado pela multidão, para o velório na Igreja do Rosário, e de lá enterrado na cripta da Catedral em construção. Aliás,o primeiro bispo enterrado no local, que fica num subterrâneo construído naquela época. No fatídico 14 de março de 1950, o governador Faustino de Albuquerque decretou ponto facultativo geral e suspensão das aulas nas escolas.
 Sem parentes no Ceará, pais falecidos, o religioso deixou um irmão no RS e uma irmã no RJ. Dom Manoel, porém, sentia-se integrado à família católica cearense.

 A Avenida Dom Manoel, divisa dos bairros Centro e Aldeota, em Fortaleza, homenageia o arcebispo. A via chegou a ter o nome de Dom Luís (Luís Antônio dos Santos), o primeiro bispo do Ceará, hoje nome de logradouro na Aldeota. Antes, porém, chamava-se Boulevard da Conceição, referindo-se à Igreja da Prainha.

Sepultamento. Multidão aguarda o corpo de Dom Manoel
(Correio do Ceará - Acervo Lucas)




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Futebol Cearense - Os Velhos e Autênticos Torcedores

Campo do Prado lotado. O primeiro estádio oficial (1912-41)
(Arquivo Nirez)

Futebol Cearense. Surgimento 


 Constam nos registros sobre o futebol cearense que, nos baixos da Praça dos Mártires, Passeio Público, ocorriam reuniões entres jovens de famílias abastadas da capital e ingleses, trabalhadores da Companhia do Gás, e dali o “English Team”. A partir de então as primeiras competições não oficiais, as esquisitas partidas de “foot-ball”. Desde 1904, antes das formações de times, havia rachas entre desentrosados atletas.  Entre os cearenses estavam Raul Cabral, Vicente Ferraz, Prisco Cruz e aquele que levou a primeira bola do esporte ao Ceará, o Professor José Silveira.

 Concentração no Café do Amarildo, chão duro, com pouca grama, e bolas de palhas de milho. Pelo menos possuíam “campo”, ainda que entre árvores. Somente com o regresso de rapazes que estudavam na Europa, como João Gentil, da família mais “rica” da época, trazendo materiais esportivos e técnicas de futebol, o movimento fortaleceu. Alcides Santos, frequentador da Europa, fundou o Stela Fooball Club, nome da escola suíça onde os cearenses estudavam; enquanto Carlos Brígido e Aluísio Mamede o Rio Branco, os primeiros clubes do estado, deles originando os tradicionais Fortaleza e Ceará, detentores, hoje, de torcidas respeitadas nacionalmente, responsáveis por presenças de público nos estádios brasileiros equivalentes às quinzes maiores torcidas do País.

 O Ceará Sporting Club foi fundado em 2 de junho de 1914, com sessão de fundação na residência do Sr. Luís Esteves Junior, na rua Tristão Gonçalves, 6, ao lado da Rede de Viação Cearense (RVC), somando vinte e quatro presentes. O primeiro uniforme do clube era camisa lilás e calção branco, adotando o preto e branco no ano seguinte, época em que abrigou os jogadores do extinto Rio Negro. Enquanto o seu maior rival só surgiria em 1918, tinha como adversários o Tabajara Foot-Ball Club (1915), do bairro Benfica, que mais adiante iria revelar o Gentilândia, e o Maranguape. Já os demais eram inexpressivos, como Humaitá (uniforme verde e branco), Hesperia e Ipiranga (de cor celeste), que se filiaram à Liga Cearense (Metropolitana) de Foot-Ball, com jogos nos campos desnivelados da Praça Capistrano de Abreu (Lagoinha), antiga Visconde de Pelotas (Bandeira), Marquês de Herval (José de Alencar) e Fernandes Vieira (Liceu do Ceará), conforme os times mandantes.



PV, inaugurado em 1941, lotado. Acervo do Dr. Pedro Alberto de Oliveira Silva (Instituto do Ceará)




A movimentação melhorou com as chegadas do Fortaleza Sporting Clube (18 de outubro de 1918, depois, em 1939, Fortaleza Esporte Clube), de Alcides Santos (ex-Stela), cujas cores homenageavam a França, numa época em que a cidade respirava a cultura francesa “Belle Époque”, e do Bangu Atlético Club (1919), tempo do apogeu da RVC, que criou o seu clube, o Olímpico Foot-Ball Club (verde e branco), além do Guarani Atlético Club, com as cores do Fluminense, presidido pelo capitalista Jeremias Arruda, proprietário do imponente palacete com seu nome, na rua Formosa -Duque de Caxias, em frente à Igreja do Carmo, hoje Instituto do Ceará; e do América Foot-Ball Club, fundado pelo servidor municipal Pedro Moura. Esse time vermelho durou pouco. Em 1920 retornou sob comando de uma diretoria que contava com o futuro deputado federal, Crisanto Moreira da Rocha, cuja família foi destaque na política cearense. Apenas no dia 9 de maio de 1933 surgiria o Ferrovário Atlético Clube, pelos operários da RVC, nas Oficinas do Urubú, no bairro Álvaro Weyne, a terceira força esportiva do Estado do Ceará, hoje com nove títulos estaduais.


Irmãos José e Paulo Cabral de Araújo (PRE 9). Os primeiros
narradores esportivos. (Foto Marciano Lopes)

 Oficialmente, o primeiro estádio cearense foi erguido onde se realizavam corridas de cavalos, o saudoso “Campo do Prado”, fundado em 7 de setembro de 1912, na área onde hoje se localiza o Instituto Federal (antiga Escola Técnica). Ali foram realizados os primeiros torneios da Liga Metropolitana e, a partir de 1920, o campeonato cearense até 1941, quando surgiu o estádio Presidente Vargas (PV), ao lado. Nesse estadinho ocorreu a primeira transmissão radiofônica, através da PRE 9 (Ceará Rádio Clube), nas vozes dos irmãos José e Paulo Cabral de Araújo, durante a peleja entre Maguari x Estrela do Mar.


 Os Ilustres Torcedores.



Manoel Preto e Branco. Começou
a comparecer aos estádios na década
de 20. Foto Tribuna do Ceará (1983)
 Segundo os pesquisadores especialistas, os primeiros torcedores “ranhetas”, fanáticos, do Ceará foram o Dr. Ildefonso Pinto Nogueira e Manoel “Preto e Branco” Braga Lima. Pelo Fortaleza, José Raymundo Costa (jornalista e ex-presidente) e Luiz Rolim Filho, o “Homem do Charuto” (ex-diretor, responsável pelos carnavais na sede no Pici). E pelo Ferroviário, o seu fundador, Valdemar Caracas, dirigente da RVC, e logicamente o homem-tubarão, Zé Limeira.

 O garoto Zezim já apreciava futebol quando batia “pelada”, travesso, na praça da estação ferroviária e na praça da “igreja velha” de Quixadá, época de paixão e desejo de um dia tornar-se jogador de futebol, sonho definitivamente interrompido após quebrar um braço durante um “racha”. Mas não o impediu de torcer pelo clube da estrada de ferro, seu maior torcedor ao lado do fundador, em 1933, Valdemar Caracas.

 Lembra Zé Limeira que ouviu muitos jogos pelo rádio (ao lado dos donos, pois aquela caixa era artigo de luxo), como o desafio do Ferroviário, o clube da RVC, em 1939, indo jogar em Salvador e tomando de 7x3 do Bahia, fato que não desestimulou o rapazote. Logo que chegou na capital, em 1943, sempre ia aos jogos liderando a torcida. Desde 1958 até a sua morte não largou a bandeira coral, indo às emissoras de rádios convocar a torcida para os estádios.



Tricolor Tavares e seus dois rádios.
(Tribuna do Ceará 1975)



 Era no prédio do Abrigo Central (1949-1966), na Praça do Ferreira, que ocorriam os embates entre as torcidas. Ele pelo Ferroviário, Bodinho e Gumercindo pelo Fortaleza e Pedão da Bananada pelo Ceará, principalmente. Os demais se aglomeravam ao redor deles para assistir as discussões, que às vezes resultavam em tapas. Só que de repente soavam gargalhadas. Mas enfim, todos tomavam o mesmo caminho, pegando o velho ônibus do Prado em direção ao estádio Presidente Vargas, de onde saiam os resultados das apostas, comuns até hoje. Um desses torcedores chamava atenção, pois quer nos coletivos, quer nos estádios estava sempre com dois rádios nos ouvidos: Tavares, torcedor do Fortaleza, que usava paletó.










Carnaval de 1976. Sede do Fortaleza: Gumercindo, Jackson de Carvalho e Luís Rolim Filho (foto Tribuna do Ceará)




Bodinho



Praça do Ferreira: Bodinho e sua banca (Tribuna do Ceará,1983)

 José Amaro Sobrinho nasceu no Crato, em 1930, indo morar em Senador Pompeu aos 7 anos, desenvolvendo no sertão a primeira experiência como vendedor de jornais, livros e revistas. Assim começava a etapa de vida das pessoas pobres da época, trabalhando ainda criança. Teve, contudo, que partir para a capital, onde serviu o Exército no final dos anos 40. Depois foi gerenciar o Bar Americano, no bairro Pan Americano, para onde seguiam muitos amigos da “sociedade”, diante da recepção, bebida farta e tira gostos.

 Sabendo da origem e competência do rapaz, o maior grupo de comunicação de então, Diários Associados, o contratou como seu representante no sertão, viajando três vezes por semana, a partir dos trens que saiam da estação João Felipe rumo ao sul do estado, Crato, tarefa que durou dez anos. Bodinho achava perigoso, pois todos queriam ler a revista O Cruzeiro, sendo que alguns exemplares sumiam com o piscar de olhos.

No gramado do PV, título estadual
de 1969 (Correio do Ceará)

 Em seguida, uma oferta o fez assegurar um ponto fixo, quando, a partir de 1961, passou a trabalhar numa banca de propriedade da famosa Livraria Edésio, de onde saia o seu sustento: “Do pouco que ganhava dava para alimentar a família”, orgulhando-se dos seus fregueses famosos que haviam partido, políticos e outas autoridades. Nessa época, da sua primeira banca, guardou até o fim da vida uma foto ao lado do seu amigo Airton Monte, proprietário da Livraria Comercial e jogador do Gentilândia, clube da primeira divisão; pai do psicanalista Airton Monte (Junior), que também já se foi, cronista do jornal O Povo e amante de jornais impressos e de bandas de revistas.

 Do futebol, financeiramente, não teve o que reclamar, pois vendia, na banca, ingressos patrocinados pela Federação Cearense de Futebol, tendo, com o lucro, construído uma casa para sua mãe no bairro de Nossa Senhora das Graças, o Pirambu. Sentia-se, na época, feliz ao lado da esposa Alzira, da irmã, e dos cinco filhos.


Infelizmente, no final da vida Bodinho esteve deprimido, triste ao constatar a Praça do Ferreira entregue a assaltantes, chegando a sair de casa sem dar notícias. Não que estivesse desgostoso com seu clube futebolístico, o Fortaleza, mas vencido pela saudade desenfreada dos bons tempos, dos 40 anos na praça e dos seus tradicionais frequentadores. Faleceu na capital cearense em 20 de novembro de 2004, aos 74 anos.



Fortaleza Bi-Campeão 1973-74. Foto Unitário 1975


 Zé Limeira



 1931. Na estação ferroviária de Quixadá, o garoto José de Oliveira Filho, com seis anos, vendia cocadas, verduras, laranjas e bananas. Serviço que começava de madrugada, durante as passagens dos primeiros trens vindos do sertão, sem acusações de exploração infantil, pois naquela época, de pobreza total, era questão de subsistência uma criança trabalhar
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Zé Limeira (Tribuna do Ceará, 1982)

 Como dizia Zé Limeira, “não nasci em berço de ouro, mas em berço de couro, não tendo oportunidade para aprender a ler e escrever”. Não lhe faltou, porém, vontade de trabalhar, orgulhando-se de seu pai, maquinista da Rede de Viação Cearense, a RVC, “ganhando pouco para sustentar uma grande família”. E com apenas o “ABC”, com 13 anos, foi com ansiedade que recebeu o convite para auxiliar um famoso engraxate durante um campeonato de corrida de cavalos, quando aprendeu a sua profissão, graças ao amigo “Zé Papagaio”. Só a abandonou em 1942, quando, aos dezessete anos foi servir de “cassaco” (trabalhador voluntário em obras públicas) durante mais uma grande seca. Afinal, sem água o povo não tinha dinheiro.

  Zé Limeira nunca esqueceu as datas que marcaram sua vida, muito menos essa: 12 de julho de 1943. Às nove horas da noite, com a sua maleta de trabalho, pegou o trem rumo ao destino maior. Na manhã seguinte estava na capital, Fortaleza, uma cidade “gigantesca”, sem parentes nem contatos. Com dois cruzeiros e duzentos réis, sua primeira admiração foi com o bonde, que cruzava as ruas Castro e Silva com 24 de Maio. Tratou de conhecer os pontos curiosos, começando pelo Morro dos Moinhos (paupérrimo), Praia Formosa (Marinha), saindo em direção à rua das Trincheiras (Liberato Barroso), onde encontrou um amigo, Dário Alves Cidade, de família “importante”, que estudava no Liceu. Foi aconselhado a ir ao Café Familiar, ponto de encontro dos quixadaenses. Exatamente ali foi ajudado por um colega engraxate, que lhe arranjou “dormida”, uma casa coberta de palha no “distante” Otávio Bonfim. Só passou um dia, pois encontrou, na Praça do Ferreira, um carreteiro de Quixadá, de quem recebeu o convite para morarem juntos. No ainda mais distante Mucuripe. Foram três meses.


Estação Ferroviária de Quixadá (1910), onde o garoto Zé vendia cocadas. Foto Estações Ferroviárias do Brasil.


 Mas foi no Salão Ceará, de propriedade de Eduardo Cavalcante, na Floriano Peixoto, olhando para a Praça, onde começou o serviço fixo de engraxate em Fortaleza, mantendo-se naquele ponto por cinco anos, quando se transferiu para o Salão Belém, no luxuoso Hotel Savannah, ed. Jereissati, Praça do Ferreira. Ali conheceu o jovem e promissor empresário Édson Queiroz, que o convidou para trabalhar na sua engraxataria, do outro lado da rua, no Abrigo Central. Contudo, no dia 24 de dezembro de 1950, quando a mesma contava com 17 cadeiras, foi promovido, dando férias à tarefa de engraxate. Tornara-se administrador, ou melhor, “tomador de conta” das cadeiras. Assim foi até 21 de abril de 1966, quando o prefeito Murilo Borges mandou demolir o Abrigo Central. Alvo de críticas por tamanha temeridade, o prefeito-general resolveu se justificar sobre o fim do Abrigo Centro. Conta Nascélio Limaverde (comunicador e ex-deputado), que ele levou um engraxate do local para uma emissora de TV e o indagou:

 - Seu Raimundo, diga para os telespectadores, qual o maior benefício que o prefeito fez por vocês?
 - Foi mudar o nosso nome de engraxate para lustrador.

 Com o “guardado” montou a sua engraxataria, na rua Guilherme Rocha, permanecendo no ramo até resolver trocá-lo pelo comércio, com a abertura de um bar, seguido de uma lanchonete, que segundo ele “não deram certo”. Com sua venda, por um bom preço, reformou sua casa no Jacarecanga, e ainda sobrou dinheiro no banco para manter a família de onze filhos. Faleceu em Fortaleza no dia 7 de abril de 2004, enlutando a torcida cearense.



 Pedão da Bananada



Pedão, líder alvinegro.Vida muito sofrida
 (Tribuna do Ceará, 1983)

 Nascido em Quixadá no dia 29 de abril de 1927, Pedro Alves da Silva, de família financeiramente muito pobre, partiu para Fortaleza com cinco anos, após a morte do pai, Domingos Pereira da Silva. A mãe, Maria Alves da Silva, enquanto labutava como lavadeira, o entregou para adoção aos cuidados da Dra. Araci Aguiar. Entretanto, Pedro começou cedo como trabalhador. Menor de idade, atuava como padeiro apenas para se sustentar. E muito cedo partiu para Belém, onde residiu até 1948, retornando ao Ceará para se alistar.



 
Em 1949, chegada a época da obrigatoriedade, com 1,81 metro, entrou no 10° GAC do Exército, onde juntou uns “trocados” para abrir um ponto na Sorveteria Cabana e em seguida uma lanchonete no Abrigo Central, que lhe custou "30 contos bem empregados". Ali ganhou fama como “Pedão da Bananada”.

Lembrava seus famosos fregueses, como o governador Paulo Sarasate, os políticos Wilson Machado e Mauro Benevides; radialistas como Nascélio Limaverde, Augusto Borges, Paulino Rocha, José Oly Moreira, José Santana, Júlio Sales e Gomes Farias; além de torcedores adversários como Zé Limeira e Gumercindo, aos quais atendia vestido de branco.







Pedão e sua banca. (Jornal Meio Dia. 1980)

 Líder inconteste da torcida alvinegra entre 1951 e 1964, passou a comandar, a partir de 1954, a primeira charanga do seu clube, Ceará, competindo com a do amigo tricolor, Gumercindo. Contrariando os apelos da esposa, Benedita, contratava onze músicos e mais trinta senhoritas para puxarem a torcida. Afora os gastos financeiros, veio a informação, em 1963, do prefeito Murilo Borges sobre a destruição o Abrigo Central no ano seguinte. Pedão e seus colegas, inclusive os engraxates, sentiram o prejuízo. Mesmo assim, no ano seguinte, fundou o Horizonte F. C., time de subúrbio, passando um período sem ir aos estádios após o jogo Fortaleza x Náutico, quando vestiu, como forma de homenagear o futebol cearense, a camisa do Fortaleza. Deixaria definitivamente os templos de futebol em 1977.








 Para continuar o negócio, montou uma cantina na 10° Região Militar, antigo forte de N.Sra. da Assunção. Com pouco lucro, partiu para Belém do Pará, onde permaneceu um ano, uma vez que seu comércio não progrediu. Foi para Manaus, na qual residiam familiares e amigos cearenses, trabalhando em venda de maçãs. Em seguida Brasília, retornando para o Amazonas, vendendo bijuterias. Por lá deixou a esposa e novamente partiu para o Pará. Em Belém foi camelô, comercializando camisas de futebol, como as dos rivais Remo e Paysandu.



Dimas Filgueiras e Mano (Unitário 1974)
 Foi quando teve um AVC, sendo internado. Para seu azar, ainda no leito soube que ocorrera um incêndio no prédio em que morava, perdendo todos os pertences, inclusive o material de trabalho. Os amigos desportistas o ajudaram. Passou a vender carnês do Baú da Felicidade nas sedes dos dois principais clubes de futebol locais, dando para sobreviver. Foi quando decidiu retornar ao seu estado.




Cearense de 1979: Tiquinho (Ceará) foge de Osvaldino e Bosco
(Fortaleza). Correio do Ceará 1979.

 Em Fortaleza, morou com o irmão, José, no Pio XII, ele sargento da Aeronáutica. Com a ajuda de um sobrinho, instalou uma banca de cigarros e bombons. Pela manhã ao lado da Foto Ideal, na rua Floriano Peixoto, e à tarde em frente à loja de tintas do Gumercindo, o seu rival das arquibancadas, mas amigo de coração. Depois se transferiu para a calçada do Mundão das Ferragens, de José Carneiro, torcedor do Ferroviário, solícito. Mas em 1982, o coração o levou a novo internamento, por quinze dias, aumentando o seu constante problema financeiro, tendo sua banca destruída pelos ratos.


Ao sair do hospital os amigos novamente não lhe faltaram, montando nova banca: Gumercindo, Nascélio Limaverde, Elias Bachá, Franzé Morais, José Carneiro e outros, aos quais nunca deixou de agradecer. Dois anos depois, o coração não suportou. Partiu em 9 de dezembro de 1984, ano em que o seu clube impediu o tri campeonato do rival. Deixou os filhos Nilton e Raimunda.

 Vimos um pouco da história de autênticos torcedores cearenses. Pessoas que nasceram e morreram mantendo a simplicidade, no que pese a popularidade. O prestígio não lhes alterou o ego. Todos diziam que se contentavam com o que “dava para viver”. Mas não havia riqueza que pagasse suas felicidades em dias de jogos. Longe do que vemos hoje, quando rivalidade é confundida com ódio. Futebol deve se inspirar no passado,  no amor e na paixão.


Charanga do Gumercindo. Tribuna do Ceará, 1975.



Com o tricolor Gumercindo ao centro, a  pazdurante o carnaval de 1975 (TC)