quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Bibliotecas do Ceará - História de Amor à Leitura - (Por J. Lucas Jr)

Primeiro passo: Liceu do Ceará   


 
Liceu do Ceará (O Estado 1937)
No ano de 1844, o presidente da Província, Fausto de Aguiar, criou, com ordenado de 400 mil réis,  o cargo de inspetor geral da Instrução Pública, que seria hoje equivalente ao secretário da educação, com o intuito de procurar dinamizar o ensino público no interior, uma vez que pouco se progredia e o fato de os inspetores locais, das vilas, não serem remunerados. Restrito à aprendizagem primária, o presidente procurava um meio de estimular a educação com a criação de um grau mais elevado, no caso o secundário, com variadas cadeiras a serem preenchidas via concursos, prendendo os inspetores na atividade de forma assalariada. O responsável seria o primeiro diretor do Liceu do Ceará, que estava sendo criado, aliás um dos seus fundadores, Thomaz Pompeu de Souza Brasil, futuro senador.



 A biblioteca do Senador Pompeu


 
Estudioso e historiador, em 1847 o diretor desenvolveu a ideia de uma biblioteca para o Liceu, em Fortaleza, ainda que o mesmo não possuísse sede própria, 
o que ocorreria somente em 1894, funcionando na sua residência, na Praça dos Voluntários.  Dispondo de 500 mil réis cedidos pela província, pôs adiante a sua luta, surgindo dali o primeiro acervo correspondente. Naquele ano, aliás, o decreto imperial n° 433 obrigava as tipografias a cederem todos os seus impressos às bibliotecas públicas do País, motivando o governo local a colaborar com Pompeu, solicitando do mesmo a relação dos livros essenciais à biblioteca da escola. Mas infelizmente não houve a contribuição necessária da parte do poder público, não passando de uma pequena sala improvisada com parcos livros. 

 Contudo, a capital cearense contava com um espaço não particular para leitura, antecedendo à Biblioteca Pública do Ceará (1867) e ao Instituto do Ceará (1887). Com 1.730 volumes na época da inauguração, a Biblioteca Pública cresceu com todas as dificuldades, mudando de endereços em busca da sobrevivência. Em 1893 estava instalada na rua Sena Madureira, contando com 10.392 obras, das quais 4.930 foram acessadas pelos 3.334 visitantes. Recebia muito pouco financeiramente para se manter, perdendo do governo as contribuições para as assinaturas de revistas e aquisições de livros, dos quais os mais velhos, sem conservação, estragavam-se.



Biblioteca e sala de aula do Liceu (Gazeta de Notícias 1957)


O jogo por trás das contribuições



 Os recursos do executivo para a área cultural, educacional, religiosa e principalmente para a Santa Casa de Misericórdia dificilmente saíam dos impostos dos contribuintes, poucos diante de uma rede de contribuintes restrita a comerciantes e da elite em torno do centro da cidade. Por isso o Estado fazia rígidos contratos com as loterias para delas angariar fundos para a manutenção de órgãos fundamentais. Isso na ordem de sete contos de réis por mês sob pena de multas e fechamento. Portanto, o jogo não apenas mantinha como foi colaborador da criação da Santa Casa, do Asilo dos Alienados e do Colégio da Imaculada Conceição (assim como a sua capela do Pequeno Grande), ajudando o Liceu e a Biblioteca Pública. O dinheiro do Estado, pelo visto, só dava para pagar os salários dos servidores e dos poderes.


Phenix dos Caixeiros



 
Primeira sede da Fênix (Gazeta de Notícias RJ, 1907)
No dia 24 de junho de 1905 foi inaugurada a primeira sede da Fênix Caixeiral, presidida por Joaquim Magalhães e contava com 661 sócios. Tratava-se de uma sociedade criada em 1891 por um grupo de jovens comerciários. Diante de todo o luxo do prédio, localizado na rua Guilherme Rocha com General Sampaio (logradouros com nomes atuais), era a sua biblioteca, com 4.000 volumes, coordenada pelo bibliotecário João Aleixo de Sá, tendo como destaque o periódico do estabelecimento. Mais uma alternativa para consultas do cearense, que praticava fervorosamente a arte da leitura diante das poucas opções culturais. Uma cidade rica em tipografias, com vários jornais, grêmios literários, embora centralizados a uma parte da população, uma minoria que podia pagar pela informação, contrapondo-se à massa desprezada oriunda do interior, fugindo das secas e das pestes.





Salão da Biblioteca do Phenix Caixeiral, segunda sede. (Instituto do Ceará)




 Livrarias e seus cuidados


 
Livraria Edésio, na Pça do Ferreira. (A Noite 1932)
Com a chegada da primeira livraria, Oliveira, do português Joaquim José de Oliveira, e em seguida a de Manoel Antônio da Rocha Junior, no século XIX, a leitura tornou-se cada vez mais um hábito do cearense. Livros e revistas se avolumaram nas residências de intelectuais, professores, educadores, e nas grandes bibliotecas. Carecia, entretanto, de meios modernos de manutenção das obras, mas essa precariedade redundou na perda de muitos volumes, principalmente de antigos jornais. Diante de tantas denúncias e tentativas de investimentos da parte do poder público, previsões de tragédias acabaram se consolidando, como o incêndio de 1987. Na do Estado, Menezes Pimentel, devido às suas péssimas condições físicas, um curto circuito provocou um incêndio que consumiu boa parte da hemeroteca, destruindo os exemplares dos históricos Pedro II, Constituição, Cearense, A Gazeta do Norte, Libertador e A Razão, jornais antigos que fizeram parte do dia a dia do fortalezense.




Livraria O Arlindo (Amoreira). De gravata, o proprietário. (Unitário 1960)



 Bibliófilos:





Livraria Moraes, na rua Major Facundo. (A Noite 1939)
O Ceará contou com grandes bibliófilos, pessoas que guardavam parte dos seus proventos para comprar e admirar livros e revistas: Paulino Nogueira, Barão de Studart, Capistrano de Abreu, Antônio Sales, Djacir Menezes (que deixou mais de 50 mil volumes com a família e parte dela cedida à UECE), Mozart Soriano Aderaldo, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares, Artur Eduardo Benevides, Cruz Filho, Luiz Sucupira, Fran Martins, Eduardo Campos, Abelardo Montenegro, Raimundo Girão, Batista Aragão, Carlos Studart Filho, Pompeu Sobrinho, José Albano, entre vários amantes. E também os das grandes ações. O professor e escritor Moreira Campos, que começou a colecionar por volta de 1930, doou sua coleção para o Curso de Letras da UFC, a sua segunda morada, quando se mudou de uma casa no Benfica para um apartamento. Já na biblioteca de João Carlos Neves, telegrafista, havia  cerca de oitenta livros sobre Padre Cícero, também doados. Adísia Sá, como professora, doou a sua coleção para o Centro de Humanidades da UECE, onde lecionava. E Cid Carvalho conserva a grandiosidade da coleção do pai, Jáder de Carvalho. 


 Graciosidades feitas no Ceará passaram pelas mãos desses ilustres apreciadores: Revista Verdes Mares (do Grêmio Estudantil do Colégio Cearense), Educação Nova (do Governo Estadual), A Ideia (do Liceu do Ceará), Terra da Luz ( do Colégio Castelo Branco), A Jangada Cearense (da Confederação dos Pescadores do Ceará), O Estímulo (do Instituto São Luiz), Revista Contemporânea (de Waldery Uchoa), Folha Estudantil (do Centro Estudantil Cearense), Lar (da Escola Doméstica São Rafael), Via Lactea (do Colégio Santa Cecília), Revista da Academia Cearense de Letras e a requíssima Revista do Instituto do Ceará.


Biblioteca Dolor Barreira



 
Dr. Dolor Barreira. Prof Emérito da UFC
Caso polêmico ocorreu em 1969. A famosa biblioteca do jurista, membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, Dolor Barreira, falecido dois anos antes, seria doada, como era desejo do proprietário.  A família acabou entrando em choque com o secretário de Cultura municipal, Raimundo Girão, ex-prefeito de Fortaleza, que insinuou na imprensa que ela estaria fazendo “leilão” com o bem, uma vez haver indicações de que o referido estaria vendido. 


 Localizada na residência do Dr. Barreira, na Rua Major Facundo com a Av. Duque de Caixas, na área correspondente atualmente à agência da Caixa Econômica Federal, tinha como bibliotecária Maria Conceição de Sousa, que cuidava dos seus 40 mil volumes. Caso a prefeitura continuasse duvidando, seria provável um outro destino. Por muito pouco o rico acervo do professor, incluindo as estantes, não foi parar na UNESCO. Felizmente a biblioteca tornou-se municipal em 1971, localizando-se na Av. da Universidade, de onde se mudou para o atual endereço, do outro lado da mesma rua. 



Em 2007, as mesma foi agraciada com a doação de 5 mil volumes do famoso historiador e professor Geraldo Nobre, pela sua família. Das antigas livrarias como Ribeiro, Araújo, Gualter, Aequitas, Imperial, Humberto, Selecta, Hermínio Barroso, Renascença,  Alaor, Moraes, Comercial, surgiram os colecionadores particulares, daqueles que não se importam com o tempo quando se procura um bom livro, um bom livro mais outro livro e assim surge uma nova alternativa de consulta.



Carlyle Martins



 
Carlyle Martins e sua biblioteca (Tribuna do Ceará)
Muitos se trancam, outros liberam as suas prateleiras para os pesquisadores. Sobrinho do poeta Álvaro Martins, um dos fundadores da Padaria Espiritual, Carlyle Martins foi um desses apaixonados por leitura. Na sua eterna residência, na Av do Imperador, já próxima da parada final dos trens, o poeta e membro da Academia Cearense de Letras recebia, desde os idos de 1950, as visitas, orientando-as para a boa conservação das obras. Mostrava boa receptividade, mas também o cuidado com os seus 15 mil volumes de cunho literário, que segundo o próprio não venderia “por dinheiro algum”. Na época, o famoso jurista incentivava nomes que iniciavam nas artes e que lhe atraiam pela riqueza cultural: Eusélio de Oliveira, Sânzio de Azevedo, Horácio Dídimo, Esther Barroso, Henriques de Cêrro Azul. Dos poetas até então falecidos citava Antonio Sales e José de Albano, uma conclusão difícil diante de tantos nomes que abrilhantaram a literatura cearense.



 Tonny Ítalo



 
Biblioteca do Instituto Tonny Ítalo (Lucas Jr)

 Diante de tantas experiências de sucesso, a vontade de ajudar superou as dificuldades diversas. Chegaram à periferia de Fortaleza e à zona rural do Estado do Ceará as bibliotecas comunitárias, que trabalhavam limitadamente Diante disso, a Secult CE criou uma área de apoio a elas, promovendo discussões e ajudando com doações de livros e revistas, contribuindo com o seu fortalecimento. Particularmente, presenciamos o impacto das Bibliotecas Comunitárias e no momento comemoramos o secesso dessa parceria. A biblioteca Rodolpho Theophilo, do Instituto Tonny Ítalo, em Itaitinga, passa por um processo de crescimento a ponto de vê-se necessário sua expansão física. Como seu coordenador, notamos a satisfação das crianças carentes que a visitam, além das atenções dadas pelos adultos e estudantes. Foram duas doações em dois anos da Secretaria de Cultura do Ceará, que junto às de dezenas de colaboradores só têm dado alegrias à comunidade de Taveira, ensejando a esperança e a certeza de que com a educação evitaremos que a violência continue a desmoronar o sonho das famílias e da sociedade, por um mundo de inteligência. Que todas essas bibliotecas citadas sejam o palco de uma reviravolta cultural, a leitura como uma adoração universal, livros pequeninos ou ricos, o importante é que não nos abusemos de ler, de aprender, de nos guiar, livres, para uma vida de encantos.


“Só a educação do povo poderá obstar completamente ao progresso da imoralidade que é a causa primordial dos gravíssimos males que vexam a nossa sociedade”. (Fausto Augusto de Aguiar, Presidente da Província do Ceará, 1844)


Fontes: jornais Pedro II, Cearense e Tribuna do Ceará; Almanaque do Ceará.

















sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Praça do Ferreira. Do Sobrado do Pachecão ao Coreto do Godofredo


Largo das Trincheiras



Jardim 7 de Setembro
(Leitura para Todos)
Naquele quadrilátero central da pequena Fortaleza de 1830, os tropeiros, comerciantes montados, oriundos de todas as bandas, Messejana, Arronches, Soure, Aquiraz, arriavam as suas mercadorias, fixando os animais cansados nos frades de pedra, em meio à fedentina da água parada, bichos criados soltos no areal e capinzal misturados, sob as sombras das castanholeiras, oitis, mongubeiras, cajueiros, ponto final da cansativa jornada, o Largo das Trincheiras, onde surgiu a Feira Nova da capital. No sentido diagonal, das Trincheiras à Boa Vista, uma viela de mocambos, casebres pintados a cal, chamada Beco do Cotovelo, que distinguia-se dos vizinhos mais abastados, donos desses arredores: o sobrado do Comendador Antonio Machado, construído por presos, de um lado e na outra ponta o de Francisco José Pacheco de Medeiros, o Pachecão; os sobrados de João Severiano Ribeiro e de Vicente Mendes, encontrando-se nas proximidades a pequena escola do Professor Joaquim Alves de Carvalho e o boteco dos Siqueira.

Pachecão e a Intendência Municipal


 Em 1831 o sobrado do José Pacheco foi adquirido para acomodar o legislativo, ou precisamente a Municipalidade, também com poder administrativo, por 6:593$984, ou seja, mais de seis contos de réis, em quatro prestações, conforme escritura de 24 de janeiro de 1831, em cuja área surgiria a famosa Intendência Municipal, no antigo Alto da Boa Vista (atua rua Floriano Peixoto), e o Abrigo Central. O prédio da Intendência manteve-se erguido até 1941, quando o prefeito Raimundo Alencar Araripe mandou demolir o quarteirão na intenção de construir a sede da prefeitura, que não saiu de uma bela maquete. Atualmente estaria, como fins de localização, à frente do Edifício Sul América.


Sobrado do Comendador Machado à direita (Carioca)
Nessa venda parece não ter se dado muito bem Pachecão, investindo com a renda em terras em Soure (Caucaia) e, segundo testemunhas, interferindo nos negócios particulares dos moradores daquela vila, sobretudo em questões de terras habitadas. Contudo, não teria progredido financeiramente como o seu velho vizinho. Já Machado foi denunciado pela família de Bernardo José Teixeira, seu cunhado, de apoderar-se de suas propriedades, inclusive da única botica da cidade. Resolvido a deixar o Brasil em 1822, indo de jangada para a Paraíba e de lá a vapor para Lisboa, o português não pode presenciar a armação que o irmão da sua digníssima Felliciana aprontara, produzindo documentos falsos de viuvez e de venda de imóveis, arrolando até Pachecão como testemunha de empréstimo junto a Manoel Caetano de Gouveia. Se por um lado a família de Bernardo Teixeira queixava-se da infeliz situação financeira, por outro Machado alugava bens para serviços do governo provincial. E o mais famoso dele, o sobrado, construído pelo coronel Conrado Jacob de Niemeyer em 1825, acabou vendido ao empresário Plácido de Carvalho, que ali construiu o Excelsior Hotel.


A Chegada do Boticário



Bondes animais. (Fon Fon)
Em 1825 chegava ao Ceará Antonio Rodrigues Ferreira, farmacólogo, de Niterói, aos 24 anos, desertor, como o pai, do Exercito Real, de passagem por Recife, onde conseguiu licença para receitar. Liberal convicto, moço, acabou preso após a dissolução da Constituinte, em 1823, aquartelando-se no Palácio do Catete , no Rio de janeiro. Mas acabou libertado por um general amigo. Em Pernambuco conheceu, onde estava hospedado, o negociante Manoel Caetano de Gouveia, que o convidou para ser seu caixeiro em Fortaleza. Começava ali uma reviravolta na vida do boticário e um pedaço da história de Fortaleza. Casado desde 1827 com a aracatiense Francisca Áurea de Macedo, com quem não teve filhos, chamava atenção o seu comportamento humilde, não se apegando a bens materiais. Logo abriu a Farmácia Ferreira, que o povo chamava de Botica do Ferreira (futura Farmácia Galeno), não distinguindo sua clientela por questões sociais, muitas vezes visitando o cliente-paciente em casa. Essa prática incomum, numa sociedade elitizada, fechada com a monarquia, e de ideias e comportamentos europeus, acabou levando-o à vida pública. Após a morte da esposa, em 1842, estreou na Câmara Municipal logo como vice-presidente, uma vez chefe do Partido Conservador, também conhecido como Carcará ou Caranguejo. No ano seguinte seria presidente, o que lhe valeu o cargo de comandante da administração da cidade por doze anos consecutivos, o maior período de mandato de um prefeito de Fortaleza, permanecendo na vida pública até a sua morte, em 29 de abril de 1859.

 Na “sala de visita da cidade”, de imediato demoliu o Beco do Cotovelo, nascendo dali a Praça D. Pedro II, afinal tinha que agradar o monarca e aguardar alguma ajuda financeira vinda pelos vapores do Atlântico. Foi o necessário para ocorrer uma vasta expansão econômica naquela área, com o surgimento de lojas e de belos sobrados. Em menção a Ferreira a chamavam de “Largo do Ferreira” ou “Largo do Boticário”. Até que, em 12 de outubro de 1871, por indicação do vereador João Antônio do Amaral Junior, a Câmara Municipal mudou o nome da Praça Municipal para Praça do Ferreira, em homenagem a Antonio Rodrigues Ferreira. Era a época dos primeiros bondes puxados a burro e mais adiante a cavalos, da firma Ferro-Carril, tendo como ponto central aquele centro de encontros do cearense, na rua da Boa Vista (antiga Alto), onde em 1875 surgiu o primeiro café da cidade, o Café Americano. Esses bondes de burros, que seguiam em linhas de ferro, comportavam até 25 passageiros, e dali partiam a cada  meia hora, com boleeiro e condutor fardados, ao preço de 100 réis.

 Segundo o historiador Paulino Nogueira, “aquele homem feio, um pouco baixo, magro, moreno, narigudo, cabelo quase à escovinha, trajava-se mal, inseparável de uma luneta de ouro, que não tirava do olho direito”. Aquele homem trouxe para a sua mesa o projeto urbanístico de Silva Paulet, em forma de xadrez, engavetado desde a época do Governador Sampaio (1813). Mandou chamar o  pernambucano Adolpho Herbster, engenheiro da província, que revolucionou a cidade com uma planta detalhada, ajustando as ruas nos moldes da modernidade.


 Os Quiosques



Café do Comércio. (Leitura para Todos)
Durante o apogeu vivenciado durante a gestão do Boticário, quiosques de madeira e zinco foram criados nos cantos da praça.  O Java (1884), de Manuel "Côco” Pereira, de madeira, ficava em frente à Intendência Municipal (norte); Completavam o Iracema (sudoeste), restaurante, e o do Comércio (noroeste), este ampliado, em forma de chalé, após o ajardinamento em 1902. Então surgiu o último, em 1891, o Elegante (sudeste), este, assim como o Comércio, construídos pelo negociante pedro Ribeiro Filho, conforme plantas aprovadas pela câmara.. Do lado oposto à Câmara, entre o Iracema e o Café Elegante, um chafariz de ferro fundido, de origem francesa, com quatro torneiras. Ao centro um grande catavento. Oito tanques passaram a fornecer água para os canteiros, um avanço para uma população em volta de tanta miséria oriunda das secas. Aliás, durante a estiagem de 1877 a 1879 construiu-se um cacimbão utilizando pedras vindas de Portugal, utilizadas para fincar os mastros dos veleiros. Exatamente aquele da fonte da atual praça.Com exceção do Java, os cafés possuíam vários sócios, passando por seguidas transferências, inclusive o Elegante chegou a se chamar Café Chique quando propriedade de Arnauld Cavalcante Rocha.

Na praça, por volta de 1896, os clubes elegantes, localizados nas imediações, Clube Cearense e Clube Iracema, disputavam as melhores alegorias durante os carnavais. Evidenciavam-se, assim, as discriminações, como ocorria no Passeio Público: pretos e pobres nas laterais e os ricos no centro, separados por gradis. Tempos após incorporam o “O Banco”, um assento público restrito senhores da sociedade e intelectuais com suas vestimentas em linho branco.


7 de Setembro


Cel. Guilherme Rocha. (O Malho)
Em 1902, já na república, Nogueira Accioly comandava a política cearense e o Partido Conservador ao estilo  oligárquico, indicando como intendente de Fortaleza o coronel Guilherme Rocha, seu antigo aliado e próspero comerciante, enquanto Pedro Borges o governador. Processou-se na cidade o zelo com os bens, embora os mesmos cada vez mais voltados aos ricos. Como a Marquez do Herval (José de Alencar), a Praça dos Mártires foi reformada, tornando-se uma das belas do País, e a Praça do Ferreira passou por uma mudança radical após proposta do vereador Casimiro Montenegro, futuro intendente, de criação de um jardim que homenageasse a Independência da República. E assim, na data histórica brasileira, foi inaugurado o Jardim 7 de Setembro. A Praça do Ferreira, portanto, passou a ser conhecida como Jardim ou Avenida 7 de Setembro, uma vez dividida em quatro. Guilherme Rocha cercou a praça com gradis de ferro e no centro o jardim, em formato de cruz, gradeado com um portão em cada face. Como iluminação, 38 lampiões internamente, enquanto fora 20 combustores auxiliares. O velho logradouro decididamente estava reservado à classe social mais abastada.


Bondes elétricos


 No dia 9 de outubro de 1913 o prefeito Ildefonso Albano, também aliado do Comendador Accioly, deposto após revolta popular no ano anterior, inaugurou o bonde elétrico. O munícipe fez questão de pilotar o primeiro, em meio à curiosidade da multidão que o acompanhou a partir da loja Crisântemo.  Os bondes da Ceará Light & Power permaneceram em atividade até 1945, passando os encargos para o governo e prefeitura, que os extinguiram dois anos depois pressionados pelas empresas de ônibus que cresciam junto com a população.




O Coreto


 Uma nova reforma da praça pôs fim aos quiosques. No dia 24 de maio de 1925 o prefeito Godofredo Maciel, continuando a prioridade dos jardins, inaugurou, na Avenida 7 de setembro,  o coreto, onde a banda da Polícia, a filarmônica, executou “allegros” e dobrados. Em sua volta, os cinemas Polytheama, Majestic, e Moderno; a Casa Albano, o Emydgio, Foto Ribeiro, entre tantos comércios apaixonantes, com o coreto atraindo multidões que testemunharam comícios e discursos célebres como de Maurício Lacerda (pai de Carlos Lacerda), Djacyr Menezes, Rachel de Queiroz, Dr. Morais Correia, Demócrito Rocha e de Perboyre e Silva, eterno presidente da Associação Cearense de Imprensa.  Voltaria a ser chamada de Praça do Ferreira.



1959. Centenário de morte do Boticário. Visita ao túmulo. (Tribuna do Ceará)


Centenário do falecimento. 29 abril 1959. Programação em lembrança pelo falecimento do tenente-coronel Boticário Ferreira, tido como "a maior personalidade do Seculo XIX" (Tribuna do Ceará):


7:30: Missa na Ig. do Rosário, por Dom Almeida Lustosa.
9:00: Visita ao túmulo, Ginásio Municipal. (Cemitério S. João Batista)
12:00: Palestra do prefeito Cordeiro Neto. Pelas emissoras de rádio.
16:00: Sessão solene no Ginásio Municipal. Grêmio Joaquim Nogueira.
19:00: Palestra professora Geraldina Amaral, Waldery Uchoa e Mozart Soriano Aderaldo.
20:00: Retreta na Praça do Ferreira pela banda da Escola Preparatória de Fortaleza.
Obs: no seu testamente deixou os seus bens para o seu pai, caso estivesse vivo. Do contrário, para sua sobrinha.



 Fontes: Jornais Cearense e Unitário. Artigos de Paulino Nogueira, Raymundo Menezes e de Gustavo Barroso.





1925. Com o coreto. (Fon Fon)


 
1922. Como Av. 7 de Setembro. (A Illustração Brazileira)



Sobrado do Comendador Machado. Construção 1825. Demolição: 1927. 



Comendador Machado - Foto Instituto do Ceará

 





quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fortaleza 1941 - No Chão o Quarteirão do Emygdio

A Ação que a História Condena



Joaquim Emygdio
Joaquim Emygdio de Castro e Silva destacou-se como um célebre e respeitado comerciante cearense. Pioneiro no setor fotográfico cearense ao lado de Ademar Albuquerque, foi proprietário da Fotografia Americana, representante da Kodak, cuja propriedade transferiu para Inácio Parente, seu ex colaborador que montou a Casa Parente. Mas foi no ponto coração da cidade onde instalou uma Loja de tecidos e de miudeza, que funcionou de 1883 a 1921, quando faleceu. Seus filhos deram continuidade, denominando a casa de Café Emygdio até a sua demolição, por imposição da prefeitura, no dia 4 de agosto de 1941. A pretensão do chefe da municipalidade, Raimundo Araripe, não foi adiante. Mas se o prédio não foi construído na Aldeota, conforme projeto anterior, nem na Praça do Ferreira, foram-se abaixo os prédios históricos da valorizada área norte do mais importante logradouro da cidade. Do que lemos nos deslumbramos com os sonhos de então, pessoas e imprensa alimentando a queda de um pedaço da história em nome da modernidade. Somente em 26 de agosto de 1939, naquele espaço, foi inaugurado o centro comercial Abrigo Central, que funcionou até 1966.




O Povo, 5 de agosto de 1941


O Prédio da Prefeitura será Construído à Praça do Ferreira - A História da Loja e do Café Emídio


 Vai desaparecer um aspecto dos mais populares de Fortaleza: o quarteirão situado entre o lado norte da Praça do Ferreira e a Travessa Pará. A Municipalidade vai demolir aqueles prédios centenários, de sua propriedade, para, em seu lugar, construir o Palácio da Prefeitura. O Povo foi parte na execução desse problema urbano porque, batendo-se contra a nova localização do novo edifício da Prefeitura no Bairro da Aldeiota, viu, mais uma vez, seus esforços coroados de êxito, quando o dr. Raimundo de Alencar Araripe abandonou aquela ideia e deliberou construir, à Praça do Ferreira, a sede municipal. O quarteirão mais central da cidade ser demolido. Bendita a picareta que lhe der o primeiro golpe e que ela possa despertar, nos homens que nos governam, energias para novas e mais várias demolições centrais.


A Velha Intendência



 Entre os prédios a serem abatidos figura o sobrado da antiga Intendência, onde também funcionaram, por longos anos, o Tribunal do Júri e a Sala de Audiências. Foi ali, naquele Tribunal, que se inaugurou a imagem de Cristo no Júri.


Opiniões Contrárias


Há quem julgue errônea a escolha. Há quem sugira que a sede municipal não deveria erguer-se em ponto tão comercial, porque não oferece a área térrea indispensável às várias seções da Prefeitura e ainda porque o local, com seus mil atrativos, poderá desviar a atenção funcional dos empregados burocráticos da municipalidade.


Uma Sugestão


 Não deixa de haver procedência nesses reparos, notadamente no que toca a diminuta superfície do terreno. Esse inconveniente poderia, no entanto, ser afastado se, gastando mais uns dois mil contos, a Prefeitura desapropriasse alguns prédios da rua Floriano Peixoto e Major Facundo, fazendo desaparecer a Travessa Pará e criando um pequeno largo ao norte do futuro edifício.


 O Café Emygdio



Uma das casas mais populares do quarteirão a ser demolido é, sem dúvida, a da esquina da Praça do Ferreira com a rua Major Facundo, onde até ontem funcionou o Café Emygdio, fundado em 1921. Sua história, porém, recua para 1893, e por isso O Povo achou oportuno marcar esta oportunidade com o registro de algo histórico sobre a casa comercial mais antiga do quarteirão que vai desaparecer, ou seja, a Loja Emygdio. Fomos ouvir os senhores José e Estevam Emygdio, gêmeos, proprietários do Café. “Foi com extrema saudade que ontem fechamos o café. Aquela casa tinha para nós um outro valor, além do valor comercial. Foi ali onde trabalhou, desde 1893, o nosso sempre lembrado pai, Joaquim Emygdio, com a loja de fazendas e miudezas que durou 28 anos, ou seja, até o fim da vida do fundador”.



Famosa esquina do Emygdio (Foto O Povo)


Essas primeiras palavras dos dois rapazes despertaram, na lembrança do redator do O Povo, a figura respeitável e circunspecta de Joaquim Emygdio de Castro na direção da sua loja, que era uma espécie de Livraria Garnier ou da atual Livraria José Olímpio, no Rio: um ponto de reunião da elite política e intelectual de Fortaleza. Foi ali que nós conhecemos os secretários de governo do Comendador Acioli e do coronel Franco Rabelo. Essa função da Loja Emygdio jamais perturbou os negócios internos porque Joaquim mantinha um severo equilíbrio em suas relações, sendo a casa neutra em política e filosofia. Ali reinava um ambiente de “bureau” diplomático, onde não podia haver choques, e onde as idiossincrasias ficavam amortecidas pela discreta atitude do “mestre de cerimônias”.


 Continuam os irmãos Emygdio: “Nosso pai foi um homem que mereceu um culto filial. O seu conceito nos acompanha, como incentivo, através das amizades que ele deixou no comércio e na sociedade. É raro o dia em que os mais velhos não nos dizem algo relativo a Joaquim Emygdio de Castro ou não nos repetem episódios de sua vida, como frases anunciadas. Tudo isso alimenta em nosso espírito o fervor com que seguimos a trilha que ele soube traçar-nos. Durante os 28 anos em que dirigiu a Loja Emygdio foi um mestre de caracteres. E é, com vaidosa alegria, que ainda hoje encontramos pessoas que com ele trabalharam, entre os quais os srs. Ludgero Garcia, Francisco Hildebrando, Deocleciano Freitas, José Jucá (Jucazinho), Antonio Carvalho Rocha, Luiz Carvalho Rocha, hoje figura de relevo. Júlio Rodrigues, atual diretor do Banco de Crédito Comercial, foi um dos últimos auxiliares e com ele trabalhou cinco anos. Segundo Júlio, deve a sua formação moral às lições que recebeu do nosso pai, testemunhando visitas de várias pessoas que iam pedir conselhos a ele, fiadas em seu crédito, sua experiência e no acerto de seus juízos. Sentimo-nos, portanto, orgulhosos do conceito que nosso pai desfrutou na sociedade em que viveu e na solidez das amizades sinceras que ele deixou e que nos ajudam a fazer esta justiça à sua memória. As palavras que José Júlio sempre nos reproduz fazem muito bem ao nosso espírito, porque elas procedem de um homem de bem, caráter íntegro e que soube valorizar a influência do nosso pai sobre os que com ele trabalharam”.


Rua Major Facundo e o Café Emygdio em 1923. (Foto Lopes)



Os dois Emygdio falavam com sensibilidade e O Povo não quis prolongar as evocações. Mas esta página fica, para registro desta mudança, no livro da cidade. Vai desaparecer o velho quarteirão central. As picaretas vão começar as demolições. Mas o historiador encontrará, mais tarde, estes apontamentos em que se recorda uma figura humana que, por um quarto de século, construiu um aspecto moral naquele local que desaparecerá. (Jornal O Povo)



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Trairi CE - Padre Irineu Limaverde

 Breve Biografia



Nasceu na comunidade de Fábrica, no Crato, em 6 de janeiro de 1906, tendo como pais Antônio José Soares e Maria Limaverde Soares. Foi batizado a 4 de abril daquele ano pelo Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. Estudou no Seminário São José, na sua cidade, e, no segundo ano, Teologia no Seminário da Prainha, em Fortaleza (1933), ordenando-se no dia 6 de dezembro de 1936 na capela de Santa Conceição, em Santa Fé, na Serra do Araripe, no Crato. No mesmo ano foi indicado e tomou posse como vigário de Areias (atual Tabuleiro do Norte) em 3 de janeiro de 1937. Um ano depois, em 16 de janeiro, assumiu a paróquia de Nossa Senhora de Boa Viagem, na qual não demorou, uma vez chamado para a Freguesia de Trairi, Nossa Senhora do Livramento, onde tomou posse em 6 de março de 1938. Em 31 de janeiro de 1943 assumiu em Aracoiaba e em 14 de fevereiro de 1946 a famosa São José do Ribamar, em Aquiraz.  No mesmo ano retornou a Trairi, onde permaneceu até 17 de fevereiro do 1952. Faleceu no Crato no dia 27 de abril de 1985, aos 79 anos.



 Pe. Limaverde conforme a Historiadora.


 Para a Professora Maria Pia de Salles, Pe. Irineu Limaverde Soares “desenvolveu um trabalho social muito bonito. Formado em Farmácia, ensinou remédios e salvou muitas vidas. Durante os partos preparou Joaninha Mota, a qual tornou-se nossa parteira durante muitos anos. Promoveu as construções das capelas do Gengibre, Estrela e Córrego dos Furtados, iniciando as obras da capela de São Pedro, em Flecheiras”. Na segunda passagem “continuou seu apostolado de fazer o bem aos pobres. Tinha especial cuidado com os agricultores pais de família, arranjando-lhes trabalho nos tempos difíceis. Na parte espiritual, impulsionou a Associação das Filhas de Maria, da qual era diretor, as Cruzadinhas e Catequistas”.  (História da Minha Terra - Gráfica LCR, 1999)




Ata da segunda posse.


Ata de Posse do Revmo Padre Irineu Limaverde na Paróquia de Trairi (segunda vez).


 Aos vinte de junho de mil novecentos e quarenta e seis, dia de Corpus Christi, pelas nove horas, a estação da missa  paroquial procede a leitura da Provisão do Exmo Sr. Arcebispo, D. Antônio de Almeida Lustosa, datada de dezesseis de maio de ano em curso, e assim tomei posse desta Freguesia de Trairi perante as testemunhas abaixo e crescido número de fiéis. E para constar, lavrei a presente ata que assino com as testemunhas.

                                                                               Trairi, 20 de junho de 1946

                                     

                                                                                      Pe. Irineu Limaverde

                                                                                    Antônio Joaquim Barbosa

                                                                                     Raimundo Arlindo Araújo





Pe. Irineu anuncia a visita de D. Almeida Lustosa em 1946.



No próximo mês de outubro, o Exmo Arcebispo D. Antônio de Almeida Lustosa fará a Visita Pastoral a esta Paróquia de Trairi. Espero que todos os paroquianos saibam dar a esta Visita a importância que ela tem. A Bondade Divina se serve sempre destas Visitas para derramar graças abundantes sobre todos os de boa vontade. Procure todos ouvir a palavra de Deus e receber os Santos Sacramentos. Evitem as diversões profanas, sobretudo nos dias da Visita.

 

Itinerário da Visita Pastoral:


 8 de outubro: Chegada em Curral Grande.
9 e 10 de outubro: Permanência em Curral Grande.
11 de outubro: Partida de Curral Grande.
11 de outubro: Chegada em Monte Alverne.
12 e 13 de outubro: Permanência em Monte Alverne.
14 de outubro: Partida de Monte Alverne.
14 de outubro: Chegada a Lagoinha.
15 e 16 de outubro: Permanência e Lagoinha.
17 de outubro: Partida de Lagoinha.
17 de outubro: Chegada a Trairi.
18, 19 e 20 de outubro: Permanência em Trairi.
21 de outubro: Partida de Trairi.
21 de outubro: Chegada a Lavagem.
22 e 23 de outubro: Permanência em Lavagem.
24 de outubro: Partida de Lavagem
24 de outubro: Chegada a Mundaú.
25 e 26: Permanência em Mundaú.
27 de Outubro: Partida de Mundaú.


                                                             Trairi, 23 de setembro de 1946
                                                             Pe. Irineu Limaverde (Vigário)



Nota do Blog: Curral Grande, de N. Sra da Conceição, entre Paraipaba e Paracuru, terra origem do Cel. Antônio Barroso de Souza, primeiro administrador de Trairi. Foi-se com as enchentes do Rio Curu. II: Monte Alverne, sucessora de Passagem do Tigre, a velha Paraipaba tomada pelas águas do Rio Curu. III: Lagoinha, atual praia de Lagoinha (Paraipaba), que pertenceu a Trairi.  IV: Lavagem, atual distrito de Canaan.




domingo, 8 de outubro de 2017

Instituto Tonny Ítalo. Outubro 2017. Pelas Crianças e Pela Vida

Ação Social, dentro da programação do mês, que inclui o Outubro Rosa e o Dia da Criança.




Cristo nos saúda.


8 de outubro de 2017. Enquanto escrevemos estas linhas direcionadas à vida, lemos a notícia da execução de quatro jovens, incluindo um menor de 14 anos, dentro de uma residência, em Fortaleza. Um contraste com o que presenciamos em Itaitinga, em mais uma Ação Social do Instituto Tonny Ítalo. Numa manhã mágica, a alegria, socialização entre a criançada, distribuição de risos, contentamento nas faces das criaturas em quem apostamos o nosso futuro. À tarde, porém, a ganância e o ódio, diante da estúpida disputa entre facções criminosas, levam não apenas os sonhos de meninos como destroem famílias, fecham caminhos, lares, e nos faz interrogar, atônitos, sobre a ferida que nos incomoda: o medo.


Voluntários da Fé, Esperança e da Alegria





InsTI, Mulheres no Fisco e Voluntários da Alegria juntos.

A novidade foi a parceria com a associação estreante Voluntários da Alegria, que ao longo de um mês trabalhou de maneira harmônica com a comunidade do entorno do InsTI, resultando numa primorosa tarefa de serviço coletivo e solidária. Em número considerável, envolveu-se no projeto, contactando as famílias carentes e arregimentando apoios, o que robusteceu a quantidade de brindes e atividades de apoio. Dela surgiu o incremento do parque de diversões, pula-pulas, carrinho de pipoca e algodão doce (Brink Eventu´s), além da concorrida piscina de bolinhas (Laurin’s Buffet, coordenado pelo jovem Natanael). As crianças mais uma vez mostraram organização pela paciência nas filas e a certeza que na sua vez a alegria redobraria.


Tamires Lucas e seu algodão doce.
Notamos esse contentamento logo que conhecemos o casal fundador da associação, Luciano e Leny Costa. Otimistas, em todos os momentos, dias e noites, nos informavam os andamentos da organização, discutindo as divisões de tarefas, fato que nos aliviou as tensões, já que o InsTI foi surpreendido pela ausência de um forte apoiador. Teve papel primordial no trabalho braçal da remoção do mato nas laterais do sítio, primeiramente com a presença quase diária do Irmão Cleudo, e já na semana da Ação das Crianças a ajuda inestimável dos amigos Marcão, Airton, Lucas, Kleison, Cleudo, Renato, Marcelo, Nem e Luciano, lembrando que o último vestiu-se até de Homem Aranha para conclamar os vizinhos para o ato, estando conosco, com mulher e filho, decorando os ambientes, até três horas deste dia de domingo. A todos dos Voluntários da Alegria a nossa gratidão, na certeza de que foi o primeiro de vários eventos ao nosso lado: Sayara, Renato, Silvia, Francisca, Eliúde, Leide, Priscila, Desirée, Mônica, Nicole, Pedro, Taty e Geisyane.


 Os Espaços do InsTI





A amiga Zélia e o casal Ednard e Ivete Lima tomaram frente com a prática religiosa Reiki. Foi mais uma novidade do Espaço Holístico, que atrai cada vez mais pessoas. A diretora (Ivete) fez-se voz ao microfone para informar que esse exemplo de religiosidade e espiritualidade, com mais de cinco mil anos, baseia-se na busca da energia vital para o tratamento do ser como um todo. Interessante o local reservado à meditação, recuado e fechado, captando energias diante da concentração e fé em busca da cura espiritual, mental, emocional e do corpo. Foi o último dos espaços InsTI a concluir os trabalhos.

 No Espaço Justo, os advogados Letice Barreto e Thiago Portela, ambos com especialidades em Direito Penal e Administrativo, respectivamente, atenderam a vários pais e acompanhantes. Após conversas demoradas, notava-se nos semblantes dos “clientes” a alegria da boa orientação assistida.




Glaucinha e João Rodrigues. Espaço Vida.



Os irmãos João Rodrigues e Gláucia Maria, apoiados por Mário Fellipe, Sammy e equipe dos Voluntários da Alegria tiveram um trabalhão. Fila extensa de miúdos querendo ter a cara pintada como um coelho, gato, um animal qualquer, afinal eles sentem que a arte está na curiosidade de se sentir como outro ser, porque o humano não é nada diante de um mundo de sonhos e fantasias,  nascem com a noção de que todos são iguais e tudo é admirável.


Espaço Saúde
Outra que teve um trabalhão foi a Gardênia, da Cafaz, no Espaço Saúde. Atenção e consciência ao medir os seus índices de saúde. Por lá passou a Coordenação Mulheres do Fisco, que usa como símbolo o laço que remete à luta mundial pela prevenção ao câncer de mama, fazendo orientações em torno do assunto, e seguida falando em rodas de conversas com as mulheres. Mulheres no Fisco, com Gláucia Lima, Zenilse Rebouças, Glauba Rocha, Darcy Lima, Alexandrina Mota, Sulling Lima, entre muitas companheiras, chamais abandonaram a luta pelas mulheres em todos os sentidos, e isso vem de bem antes do advento do Instituto Tonny Ítalo.


 
Espaço Holístico


Cenas de Teatro




Tia Vera. Fantástica.


Os shows encantaram o público. A professora Vera Camelo foi a primeira a se apresentar, com os seu companheiro violão, juntando-se ao público com a sua arte criativa cada vez mais profissional. Recentemente lançou um livro-cd em parceria com a nossa presidenta Gláucia Lima, mas para esta participação incorporou-se ao teatro e simplesmente fez a criançada participar. Após Tia Vera, os rapazes do Palhaços Urbanos, que também encenaram de forma profissional. Surgido em 5 de setembro de 2014, veio da Academia do Riso, ou seja, do teatro, da iniciação à palhaçaria. Fruto de encontros evangélicos, é formado por Samuel “Xilito”, Daniel “Murici Espoca Bucho” e Nick, ou melhor, “Nico Coxinha”. Todos adoraram.



Palhaços Urbanos.



Cenas pela Vida


  Assim foi mais uma Ação Social do InsTI. Sua sede nunca esteve tão rica em presenças humanas e em luz. As dificuldades financeiras não são limites para se estabelecer a causa do bem. Vendo-se tamanha harmonia entre os colaboradores entende-se que os contratempos são perfeitamente controlados, desde que não se afaste da fé. E assim, nesta manhã lembramos das tardes solitárias no Sítio Recreação, do silêncio cortado pelos gritos dos saguis. Neste dia o grito foi de alegria, grito de encanto, de felicidades e até, para alguns, de um sonho, por estar dentro de um pula-pula, de estar vendo palhaços, de estar com boca suja de comida, um grito que supera a dor da morte, da violência, porque Deus está conosco em todos os momentos. E Ele continuará nos iluminando, para juntos evitarmos a perdição maior, a falta de amor.

                                                                                     Texto e Fotos: J. Lucas Jr




  




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parque da Liberdade - A Praça Que Veio do Sertão


 Uma Fortaleza Menina




O amor em forma de educação (O Estado)



 Uma pequena cidade de 35 mil habitantes, lá nos tempos distantes da metade do século XIX, que crescia às margens de um riacho. Sem infraestrutura, com um comércio em torno de uma praça de areia e de duas igrejas. Assim era Fortaleza por volta de 1850, com o córrego do Pajeú descendo do “Oiteiro” (Outeiro, Aldeota) com suas curvas, a Praça Municipal (do Ferreira) e as Igrejas do Rosário e de São José (Sé). Muita criação animal para alimentar o povo, praticamente sem fiscalização, mas para tal precisava de água doce, que não fosse do corrente que passava límpido nos quintais das casinhas, por isso a necessidade de uma lagoa “mais distante”.

 No final da Rua do Cajueiro, atual General Bezerril, pelo lado sul da cidade de então, havia currais e chiqueiros onde os animais se alojavam, debaixo de cajueiros, antes do abatimento,  e ali mesmo o seu comércio, em meio ao matagal. Uma dessas árvores era tão majestosa que emprestava o nome à rua. Sob ela trabalhava o marchante Fagundes, que morava ao seu lado. Conta-se que, passando por ali, a cavalo, o capitão-mor Luiz da Motta Feo e Torres, caiu seu chapéu, e exigiu que Fagundes o entregasse. O açougueiro sequer o respondeu. Como vingança, o governador tentou por duas vezes derrubar o cajueiro, traído pela solidariedade recebida pelo outro. Colegas de corte e demais comerciantes se armaram para defender a árvore. E assim o cajueiro manteve-se imponente.

Certa vez, ocorreu que, como animal tem sentimento, um garrote tratou de fugir na noite que antecedia à sua morte, embrenhando-se na mata. Somente muitas horas depois foi recapturado, o que lhe valeu, pelo menos, o nome do logradouro: Lagoa do Garrote. Nascia o "bairro" Alagoa do Garrote. 

Lagoa do Garrote - A Rainha do Nosso Parque



Gov. Liberato Barroso, prefeito Cassimiro Montenegro,
Dr. João Guilherme Studart, entre outros. (O Malho, 1915)
 O crescimento populacional de Fortaleza associava-se mais às secas, que levavam para a sua periferia os flagelados, povo sem instrução, letras e noção de destino, mas disposto a trabalhar para garantir um pouco de sustento. Todos careciam do líquido precioso, ainda que sem tratamento específico, daí a necessidade de criação de poços para o consumo, como chafarizes, servindo como alternativa às ausências e competitividade frente à excelência da Cacimba do Povo, de Jacarecanga, a do Beco do Cacimbão (que ainda se encontra na Praça do Ferreira) e o da bica, ambos no lado velho da cidade, prestativos para todas as necessidades. Foi quando, em 1848, providenciaram um cacimbão no Largo do Palácio (da Luz), isso bem depois do “Açude do Garrote”, construído por José Martiniano de Alencar quando presidente da província (1834 - 1837). Segundo Artur Eduardo Benevides, que foi Príncipe dos Poetas, a cidade contava com um rio tributário desaparecido por conta dos aterros. Nascia na Praça Clóvis Beviláqua, cortava as ruas a partir da Senador Pompeu até desembocar no Garrote. Ja a outra vazão vinha do velho Marajaik (Pajeú) a partir do Outeiro (Aldeota).

 Porém, já naquele ano a nossa lagoa, usada também para banhos do povo, muitas vezes sem roupas, já não era tão acolhida, estando suja e imprópria ao consumo humano. O presidente Fausto Augusto de Aguiar fez a solicitação de construção de um cacimbão no Garrote, então “de água pantanosa”, a qual abastecia a cidade, e outro no Campo da Pólvora (Praça dos Mártires) por 88$280 réis. Os jornais liberais, de oposição, não perdoavam, fazendo cobranças, como lemos em O Cearense de 20 abril 1848: “Lamentamos que continue a população desta cidade a servir-se da lagoa pantanosa do Garrote, e se não tenham podido ainda realizar as ordens do presidente sobre o melhoramento das cacimbas. A lagoa que bebe o povo não é objeto de pouca monta, como alguém pensa, as febres gástricas estão continuando, e podem ser atribuídas à má qualidade da água. Portanto, é mister cuidar seriamente disso”. Providenciou-se 60$000 réis a Luiz de França Tavares para os cinco serventes que construíram as duas cacimbas no Garrote.



Como Parque da Independência em 1935 (Foto Manoel Guilherme)


 Mesmo diante dos perigos de contaminação, por décadas as feiras de porco, carneiro, peru e hortaliças se estabeleceram no local. Mas diante das denúncias de infestação de doenças causadas pela poluição da lagoa, no início de 1861 o Dr. Joaquim Antônio Alves Ribeiro foi contratado pela província, constatando que nas águas verdes claras e fedorentas existiam matérias estranhas “levadas pelos ventos”, e pelo microscópio verificou-se quantidade enorme de corpúsculos vivos e mortos que povoavam aquele ambiente. Temperatura elevada de 25°C. O jornal O Cearense recomendou à municipalidade “a remoção de mananciais, rasgando o sangradouro até o nível fundo, jogando cal vivo e enxugando para matar as espécies de animais microscópicos que ali se desenvolveram”.



1938. Linda imagem de J. A. Vieira

 Em maio de 1861, parecer do Dr. Ribeiro assim respondeu à pergunta do presidente da província, Manuel Antônio Pinto Duarte de Azevedo: “As águas estagnadas do açude do “Pageú” podem prejudicar o estado sanitário da capital incontestavelmente. O estado atualmente arruinado das suas águas é prejudicial à salubridade pública. Os exames cuidadosamente feitos indicam que convém fazer nesta conjuntura para não privar o publico da utilidade que o açude presta, e torná-lo de maneira que suas águas estagnadas não sejam prejudicadas por meio de suas emanações à salubridade pública. Aproveito a oportunidade para também dizer o meu pensamento relativamente à existência da Lagoa do Garrote porque as suas águas se acham ainda e piores condições do que as do açude, e como tenho estudado ambas localidades, julgo mui conveniente unir a este parecer as minhas ideias relativas ao estado atual, visto que as águas estagnadas da dita lagoa também influem sobre a salubridade pública, e por isto também precisam de remédio”.

  8 de julho de 1862. Ofício da Câmara ao Exmo Presidente: “A Lagoa do Garrote está sendo hoje lugar de despejo de imundícies, de sorte que a água exala um fétido extraordinário, que não pode deixar de resultar em grande mal para esta cidade na quadra presente. Portanto, pede esta câmara a V. Exc. para que tomando este negócio em consideração, dê suas providências para que seja desinfetado aquele lugar, aterrando-se ou esgotando-se a dita lagoa”.  Conclui-se que tanto o Pajeú como a Lagoa do Garrote estavam contaminadas, estando as suas águas não recomendadas para o consumo. Porém, nada de respostas das autoridades.

  Em 1 de agosto de 1865 foi regulamentado o serviço de limpeza do centro histórico, aos cuidados do fiscal Joaquim de Macedo Maciel, estando aquele logradouro agendado para as sextas feiras. Naquela época, do seu lado sul, existia um terreno mais valorizado que o da lagoa, onde se erguia a Capela de Nossa Senhora das Dores, para a qual a Assembleia Provincial aprovou a doação de 1:000$000 (um conto de réis), inaugurada dois anos após. Na Praça da Liberdade, exatamente no mesmo local em que surgiu, em 25 de março de 1886, a Igreja do Coração de Jesus.

 José Júlio de Albuquerque Barros, presidente da província, mandou arborizar a praça, assim como a Figueira de Melo, a Boulevard Duque de Caxias e a Conde D’Eu em 1880, ano em que , naquele largo, construiu-se um prédio para guardar equipamentos militares aos cuidados do alferes Berlamino Accioly de Vasconcelos.


  Parque da Liberdade pelas Mãos de Trabalhadores Famintos


 O paulista Caio Prado assumiu o governo cearense (1888 - 1889) decidido a valorizar a Lagoa do Garrote, tornando-a um centro de lazer para os fortalezenses. Em termos financeiros deveria se preocupar com os fornecedores e com algumas desapropriações, afinal mão de obra barata não faltava. Tratava-se de mais uma época de seca, a nona apenas naquele século de um total de onze. Não foi tão cruel quanto a de 1877 - 1881, o que não impediu uma nova “invasão” da capital por retirantes, seja a pé, seja sobre animais ou nos vagões da Estrada de Ferro Baturité (EFB). Muitos, infelizmente, não chegaram ao destino. Numa atitude mais política que humana, as autoridades indicaram cem desses flagelados para dar início aos serviços. O crítico O Cearense protestou, pedindo mais trabalhadores em obras públicas tendo em vista a gravidade social, com pessoas morrendo de fome, em detrimento dos enormes gastos. Caio Prado duplicou esse número, porém, em julho de 1889, atrasou os pagamentos de modo que em agosto um operário morreu por falta de alimentação. Os liberais encamparam, então, uma série de denúncias contra o presidente. Passaram a chamar a obra de Largo dos Escândalos.


Cartão Aba Film (1937)
Veio o período republicano e tomou posse o primeiro governante da era, o tenente-coronel Luís Antônio Ferraz, ao qual os liberais esperavam em vão se aliar. Coronel Ferraz acabou inaugurando o Parque da Liberdade, outrora Lagoa do Garrote, que a partir de 16 de abril projetou-se como Largo da Liberdade, no dia 13 de maio de 1890. Homenageava a data de libertação dos escravos no Brasil (1888). O responsável pelas obras foi o engenheiro militar Dr. Romualdo de Barros, diretor de Obras de Socorro de Fortaleza. Ele construiu no lago tanques para armazenar água enviada de uma cacimba; edificou um coreto, assentos de bancos de madeira e, ao longo das alamedas, combustores para iluminação, aproveitando a pequena ilha para edificar um templo dedicado a Cupido, Deus do Amor, simbolizado da imagem de uma criança com asa, munida de arco e flecha.

Às 9 horas, ao som da banda do Corpo de Segurança Pública, o inédito parque, um magnífico lugar voltado para diversões decorado com bandeiras, com balanços e trapézios, foi entregue diante de uma multidão. À tardinha, das 17 horas às 19 horas, novamente a banda de música, agora para dançantes.





Postal dos Anos 1920






1890: o primeiro café 
 Na ocasião, o industrial José Borges Gurjão presenteou o complexo com um canindé e uma arara para a coleção de aves ali existentes, como um pavão de bela linhagem, dando origem ao único zoológico da cidade. Já o Comendador Francisco Coelho foi um dos indenizados por ceder terreno para a extensão do parque, que só seria concluído em 1902, com a construção do muro. Iniciava-se uma reurbanização do Centro, ao mesmo tempo em que em julho era inaugurado ao lado da lagoa o Café Cascata. Pertencente ao engenheiro Romualdo de Barros, contava com a atração de uma pequena orquestra, entre 17 e 20 horas, além de passeio de escaler e exercícios diversos, destacando-se o tiro-a-alvo. Obras de ajustes continuaram, como retiradas de casebres, e mais uma vez trabalhadores sofrendo com atrasos salariais.




As Bandas nas Praças


.Fortaleza contava com dois belos espaços para entretenimentos: a Praça dos Mártires e a Praça da Liberdade. Em  31 ago 1890, no Largo da Liberdade, a banda de música do Corpo de Segurança Pública tocou as seguintes peças:

I - Marcha: Progresso da República.
II - Dobrados.
III - Fantasia da Ópera Trovador.
IV - Sinfonia da Ópera O Guarani.
V - Aliser, a Grande Valsa.
VI - Valsa Gato Preto.
VII - Variação da Ópera Sonâmbula, no clarinete.
VIII - Polka.


Da mesma forma o 11° Batalhão de Infantaria, que, presente em outras ocasiões, brindou com “Valsa da Esperança”, “Valsa Paula Castro”, “Ermelinda Polka” e “Fantasia Moisés”.

O Povo Coçando a Cabeça


 No dia 31 de outubro de 1890, a Secretaria do Conselho de Intendência Municipal publicou polêmica resolução com mudanças radicais, como nomes de praças, entre as quais a Dr. José Júlio no lugar da Praça da Liberdade (Coração de Jesus). José Júlio Albuquerque, sobralense, antigo interventor federal. A Praça do Mercado, antiga Carolina (atual Waldemar Falcão) passou a José de Alencar; Marquez do Herval a do Patrocínio (atual José de Alencar), e a gloriosa Praça do Ferreira no lugar de Praça Municipal, outrora Pedro II, entre outras. Mas o interessante foi a alternativa encontrada para driblar as constantes alterações nos nomes dos logradouros. Conforme o Artigo 1°: “Fica suprimida a denominação existente das ruas da cidade e substituída por numeração pela forma assim denominada: da Rua Formosa (Br. Do Rio Branco) para o nascente todas as ruas serão ímpares, e para o poente pares”. Desse modo, a Rua Formosa passou a se chamar N° 1, a Major Facundo N° 3 e a Rua da Boa Vista (Floriano Peixoto) N° 5, assim como a Senador Pompeu N° 2 e General Sampaio/Visconde de Cahuype (Av. da Universidade) N° 4. Não vingou por muito tempo.


 Parque da Independência



Parque da Independência (Verdes Mares, 1932)

 Durante o governo de Justiniano de Serpa e do intendente (prefeito) Ildefonso Albano, em 7 de setembro de 1922, lembrando o centenário da independência, o Parque da Liberdade passou a se chamar Parque da Independência. O logradouro passou por remodelação, surgindo um novo aspecto do muro, do piso e do portão principal, onde foi fixada na entrada, sobre o mesmo, a imagem de bronze do índio se libertando, quebrando a corrente. Nos dias atuais o mesmo encontra-se rachado e sem um braço, infelizmente.



Festa da criançada em 1939 (Unitário)
 1934. O interventor federal Carneiro de Mendonça fez o projeto da Cidade da Criança, tendo o seu sucessor, Meneses Pimentel, professor de carreira, dotado verbas que a viabilizaram, sendo a sua instalação em 1936. Assim, no dia 26 de maio de 1937, o intendente Raymundo de Alencar Araripe e o interventor Meneses Pimentel, durante as comemorações pelos dois anos das suas administrações, inauguraram a Cidade da Criança, denominação criticada pelos saudosistas. Como novidades, quatro modernas construções, abrigando uma inovadora escola para crianças de 3 a 13 anos, iniciando com 150 alunos.

 Num pavilhão remodelado surgiram a biblioteca e a cantina, enquanto em outro os banheiros com chuvisco. No terceiro pavilhão ficou o Jardim de Infância, onde se ensinava canto, balé, penetrando no desenvolvimento das artes. Ao lado deles os parques de diversões com balanços e deslizadores. Lembrando também as inovações charmosas, como a Gruta dos Amores e a Gruta do Cupido. Aos cuidados da diretora Zilda Martins Rodrigues, educadora renomada, escritora, e esposa do advogado e jornalista José Martins Rodrigues, fundador do jornal O Estado. As professoras, como Isaura Araújo, Francisca Pedreira, Erzila Mendonça, Elizabeth Osório e Diva Moura, no entanto, já reclamavam do pequeno espaço dos prédios e de carências de materiais.

 No ano seguinte, Raymundo Alencar criou, segundo o Decreto 367 de 28 de janeiro, o Serviço de Educação Infantil, à frente o secretário Hugo Catunda, outra diretora, Alba Frota e de sua auxiliar Ailza Ferreira Costa, fortalecendo o ensino pedagógico com orientação sociológica e elevando a idade dos alunos até 15 anos. No Parque de Brinquedos, no complexo do Parque Recreio, foram adicionados olas, gangorras e deslizadores, além de serviço de vigilância a cargo de três mulheres. Em 1939 já contava com 409 alunos e expandia os jardins, dispondo de sala de projeções, ao passo que em 1940 foi inaugurado o restaurante. O período da tarde era voltado para práticas de lazer: futebol, voleibol, patinação, ping-pong e ciclismo, por exemplo, aos cuidados de outra equipe pedagoga. Curiosamente, raro na época, tratava-se de um esforço para levar às crianças não apenas o ensino escolar avançado, mas a convivência de seres de origem social pobre à mesma relação de convivência com as das melhores escolas particulares.



Aulas de balé na escolinha. (O Estado, 1949)


A Volta do Parque da Liberdade


 Em 1948, entretanto, a Lei 84, publicada em 22 de outubro, durante a gestão municipal de Acrísio Moreira da Rocha, restaurou-se a denominação Parque da Liberdade. Contudo, não tratou a contento da sua preservação. Somente na gestão municipal de Cordeiro Neto ocorreu o saneamento do lago e algumas melhorias. Anexou-se na Ilha do Cupido (ou dos Amores) uma imensa cruz de madeira, ajardinamento e a construção de um auditório para apresentações artísticas e visuais. O prefeito o reinaugurou no dia 20 de dezembro de 1961.


Cezar Telles, o restaurador, de quem sentimos falta. (Tribuna do Ceará, 1977)


 Numa realização aplaudida durante administração do prefeito Evandro Ayres de Moura, em 1977, ocorreu a restauração das imagens  comandada pelo escultor Augusto Cezar Telles Marinho. Diante dos sacrifícios, como subir uma escada de onze metros cedida pelo Corpo de Bombeiros, o artista honrou o seu talento, dando à imagem do índio a sua característica de origem, que embora verde foi decido pelo restaurador mudar para marrom. Assim o fez com o cupido, feito de mármore, com o arco e as asas; a criança Inocência, a mãe e o casal de crianças, fundidas em bronze, nas suas cores naturais, vindas de Milão, Itália.

Após a desativação da escola, funcionou no local a Fundação da Criança e da Família Cidadã (FUNCI), ligada à prefeitura, e atualmente comporta parte da Guarda Municipal. Em 2019, depois de bom período de obras, incluindo derrubada de parte do muro, concluiu-se uma nova drenagem. Aguardamos maior valorização daquele símbolo de Fortaleza, que ostenta, numa área de 26.717 metros quadrados. Ali reluz o carinho e a paixão do cearense, das vítimas das secas aos mais abastados. Carece, e urge, de exploração e de direitos voltados à sociedade.

                                                                                                         (J. Lucas Jr)


 Fontes: Jornais O Cearense, O Povo, O Estado e Tribuna do Ceará.



1938 com a velha Ig. do Coração de Jesus (Foto M. Guilherme)





Parque da Liberdade e Igreja do Sagrado Coração de Jesus, do livro "The State of Ceará" (Chicago 1893)