quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Narcélio Limaverde - 65 Anos de Rádio



Amor ao Rádio


Anos 1960. TV Ceará e o 
patrocínio da loja A Cruzeiro.
(Diários Associados)
“E Limaverde carregava na emoção quando descrevia os bondes lentos passando nas ruas calmas; um automóvel aqui e ali, as carroças, as charretes; os cabriolés conduzindo moças bonitas em passeio ou a caminho do colégio; as ruas de calçamento tosco ou mesmo de areia fina e solta; as casas fora do alinhamento e as calçadas em planos variados. E povoava as ruas, becos e vielas com poucas pessoas cruzando sem pressa; o silêncio quebrado pelos pregões de vendedores, como bem descrevia os vendedores de tapioca do Mucuripe”. Assim observou o memorialista Marciano Lopes a respeito de um certo Limaverde. Um locutor de rádio que buscava no passado o romantismo e carinho pela sua terra. 



 

De um microfone aos lares de milhares de cearenses, (José) Limaverde encantava as noites das segundas feiras, nos idos de 1940/50, pela PRE 9, a saudosa Ceará Rádio Clube, extinta. Tratava-se da adaptação da obra de Raymundo de Menezes, “Coisas que o Tempo Levou”, para a comunicação auditiva, uma audiência incontestável, compartilhada por outro programa, “A Hora da Saudade”, com o mesmo apresentador. Limaverde, um bancário do respeitado Frota & Gentil, um dos fundadores da Escola Dramática de Fortaleza, consagrada pela peça “O Mártir de Gólgota”, anualmente no Theatro José de Alencar, na qual o próprio interpretava Pôncio Pilatos.



Com os pais e a irmã, Reine (Foto Marciano Lopes)





O melhor de 1965

Dos três filhos com Dona Leda, Reine, Narcélio e Paulo, os dois homens se dedicaram ao mesmo ofício do pai. Porém, Narcélio encarnou uma paixão que orgulha a classe, afinal mantém a tarefa diária, um apaixonado pelo rádio. No dia 1 de fevereiro de 1954, na PRE 9 do seu pai, o futuro renomado locutor estreava. Muito jovem, passou no teste e trabalhou ao lado de Augusto Borges no programa “Segurança Marginal”. 65 anos de rádio, em várias emissoras, e em vida superados apenas por Augusto Borges, que parou no ano passado com o fim da Ceará Rádio Clube. Mas paralelo a isso, a labuta incluia a TV (Canal 2 e Canal 10) e jornais, destacando-se na Tribuna do Ceará com a coluna Dia a Dia, assim como funcionário da Teleceará. Um trabalhador.

Narcélio Limaverde encerrou a longa carreira na Rádio Assembleia 96.7 FM de segunda à sexta feira pela manhã. Para os saudosistas, entretanto, a audiência comove, pois remete, com a coluna “Fortaleza Antiga”, aos passos do pai, o velho e paciente Limaverde, às lembranças da mansidão da cidade que amamos. E isso é História. 



1974. Em sua coluna, na Tribuna do Ceará, agradece o nome do pai a principal via da Barra do CE



 O comunicador insiste, com toda a razão, nas memórias do Pega Pinto do Mundico, botequim na Praça do Ferreira, mudando-se forçadamente para outros dois endereços; e das lojas que marcaram o seu tempo: A Cearense, Flama, Casas Novas, Broadway, Loja das Variedades, Casa Vilar, Zuca Accioly, Rianil, Ótica Simão, Casa Parente, Duas Américas, Lojas 4400, Sapataria Grã Fina, Casa das Máquinas e Ótica Sansão. Lembranças do Abrigo Central (e das brigas entre Bodinho e Pedão da Bananada), da Rotisserie, do Bar da Brahma e do Majestic; das padarias Lisbonense, Moderna, Estrela e Palmeira; das farmácias Galeno, Osvaldo Cruz e Pasteur; dos restaurantes Popular e Central; dos bons tempos dos cinemas, principalmente do Cine Centro, na Av. Tristão Gonçalves com Duque de Caxias, o mais próximo da sua casa. Narcélio carrega isso na memória, conhecendo cada proprietário. Sem esquecer do carnavais e as peripécias do Zé Tatá.




1973. Rádio Verdes Mares com Nazareno Albuquerque e Mardônio Sampaio. (Tribuna do Ceará)




 Da antiga Rua do Imperador, residindo numa modesta casa de duas portas, onde não podia faltar um bom aparelho de rádio, para a Aldeota. O tempo é traiçoeiro, a modernidade atropela a simplicidade. Só forças (e um microfone, um rádio e um bom locutor) para encará-lo. Sei que se pudesse voltaria no tempo. Tomando “bãe de chuva” nos jacarés da Imperador à hora do pobre num cinema qualquer. Viver já valeu à pena. Mas vale mais comemorar estes 65 anos. Parabéns. 


No dia 26 de janeiro de 2022, aos 90 anos, após 68 anos de atuação radiofônica, Narcélio Limaverde não resistiu ao tratamento de pneumonia no Hospital Otoclínica. Deixou a esposa, Helenira Leite Limaverde, quatro filhos, sete netos e duas bisnetas. Descanse em paz ao lado dos seus pais e dos colegas.                                                                               

Por J. Lucas Jr.




Fonte: Coisas que o Tempo Levou - A Era do Rádio no Ceará - 1994 (Marciano Lopes)





 
!958. Casamento com Dona Helenira Leite Limaverde (Studio Gondim)






Reine Limaverde, irmã, com 6 anos. (O Povo)


1941. Concurso para locutor. Exigências. (O Nordeste)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Instituto Tonny Ítalo - Ação Social das Crianças e Outubro Rosa 2018


 
Para quem chegou um pouco atrasado a vista lá de cima do Barrocão era envolvente. A fila chegava a 100 metros, evidenciando as previsões da diretoria e colaboradores de que realmente contaríamos com elevado número de pessoas. Um crescimento que evidencia o empenho do voluntariado. Todo um processo elaborado durante reuniões, e delas os contatos, os ofícios em busca de apoios, os apelos pelas redes sociais, e, acima de tudo, muito trabalho individual e coletivo.



 Os esforços não foram em vão. A criançada se esbaldou em mais um evento da qual a protagonista. Divertiram-se em cada brinquedo, degustaram dos lanches, interagiram nas diversas oficinas. Pelas imagens, o Instituto e a sua gente, pequenos com seus pais, parentes e amigos, numa alegria contagiante, a qual todos os parceiros são os grandes ativos do prazeroso retorno social. A fotografia desse momento, porém, leva-nos a refletir sobre os caminhos percorridos, as adversidades inerentes ao mundo ambicioso e injusto, buscando os melhores meios, as alternativas mais viáveis para a concretização de um evento pela vida.


 No meio do caminho pisamos em espinhos, mas seguimos em frente. Foram meses de muito trabalho, dificuldades financeiras e testemunhas do grande problema mundial, a violência. Perdemos alguns colaboradores por causa dela, pessoas que participaram de nossos eventos vítimas de um mal que nos amargura, o tráfico de drogas e suas consequências arrasadoras. E como as nossas ações visam alternativas para afastar os núcleos familiares desse mal nos assola, precisamos agir e resgatar valores através da educação e da arte.





 Concluímos, felizes, que das palestras e contatos diretos, efetivou-se mais retorno por parte dos assistidos, que ajudam na limpeza e manutenção do sítio. Por isso, numa localização privilegiada, esse asseio, em meio ao privilégio do contato com a natureza, nos é recompensado pelas observações dos transeuntes e visitantes, elogiando o espaço como o mais belo da região. 

A maior temática foi a paz. Nas paredes, nas árvores, pinturas de rostos, em todas as direções a constatação do foco, que veio neste ano a contento. Como exemplo foi a apresentação musical de Tia Vera, do Projeto A Casa dos Sonhos, em todos os matizes a práxis do evento: paz.


 
Ponto alto, e, para muitos, surpreendente, a Oficina de Bordado, aos cuidados da professora Lúcia, com forte participação da criançada masculina, oferecendo oportunidade de contato e prática com a arte nordestina.  Foi das mais concorridas e aplaudidas, assim como a terapeuta Camila, com as suas habilidades de esteticista. Já o Espaço Saudável nos proporcionou um espaço ao acolhimento psicológico com a Dra. Débora Pio, sendo importante ressaltar as presenças do casal de médicos cubanos João Almeida /Taís Matos e da presidenta da AFBNB, Rita Josina, nossa colaborara em todos os eventos, do Conselho Fiscal do InsTI.

Diante da interação entre as parcerias na realização do evento(Fórum de Mulheres no Fisco e Voluntários da Alegria) fortaleceu-se com uma experiência mais rica e organizada, resultando em rostos infantis como em sonhos, numa felicidade que poderia ser duradoura.  Uma comunidade ciente de que o espaço do Instituto Tonny Ítalo se consolidou como a via de intermediação dela com os objetos de sustentação social. Provou-se que cada morador é um articulador desse intercâmbio entre os dilemas coletivos e as soluções, daí a responsabilidade em preservá-lo.




 

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Fortaleza E.C. 100 Anos. A Origem do Clube da Belle Époque


Território dos Gentios


 

(FEC)
  O Fortaleza Esporte Clube leva o nome da capital cearense e com ele a história da cidade. Ela tem como origem a presença de índios tapuias, tremembés, misturando-se com os potiguaras da Paraíba e do Rio Grande do Norte chegados ao Ceará no século XVI. Chamados gentios, os do litoral foram os mais organizados em forma de coletividade e de contato aparentemente amistoso com os portugueses.

 O ex-soldado Martim Soares Moreno, nomeado primeiro capitão-mor, fundou, na Barra do Ceará, o Forte de São Sebastião em 1612, contando com uma ermida, sob evocação de Nossa Senhora do Amparo, aos cuidados de um padre, solicitação sua ao El-Rei. Seria o fundamento para a colonização pretendida em 1603, frustrada devido à falta de recursos e um projeto sem continuidade. Contudo, suas ausências, devido às campanhas no Maranhão, Rio Grande do Norte, Bahia e moradia em Pernambuco, deixaram o Ceará entregue a um corpo policial praticamente desprotegido.

 Apenas em 1621 Moreno introduziu a criação de gado vacum, equino e o cultivo da cana de açúcar. Mas a incompetência do sucessor no comando do forte, Domingos da Veiga Cabral, seu sobrinho, indispondo-se com os portugueses e com os índios da Barra do Ceará, puseram freio à tentativa de colonização progressiva.


Fortaleza Holandesa


A colonização criou corpo durante o segundo capítulo da presença holandesa, ou seja, com Mathias Beck, a partir de 1649. Uma pequena vila surgiu em volta da fortificação que ele criou, aproveitando as estacas do antigo São Sebastião, no "Marajaig", atual 10° Região Militar, destacando-se o Riacho Pajeú ainda com águas puras. A presença flamenga primeiramente se voltou ao estudo e exploração de minérios. Após a negativa dos achados, introduziu uma administração organizada de acordo com as regras da capital do Brasil Holandês, Pernambuco, por sinal avançadas. Protestante e em choque com os judeus, deixou pacificamente o Ceará em 1654, após a rendição do príncipe Maurício de Nassau frente aos portugueses.

 Álvaro de Azevedo Barreto, capitão-mor, tratou de mudar o nome do forte para Nossa Senhora da Assunção e avançar no povoamento, mas esqueceu dos índios e com eles teve um péssimo relacionamento. O Ceará pertencia ao Maranhão desde 1621, passando para a capitania de Pernambuco em 1656, permanecendo até 1799. Um período de negligência portuguesa e de estagnação econômica e social.  Sua autonomia a partir daquele ano finalmente permitiu um avanço, ainda que lento, rumo ao progresso.


Produção e Comércio


 A partir daquele século, com a consolidação da pecuária no solo cearense, a economia local experimentou a sua primeira etapa de crescimento. As charqueadas, oficinas de carnes salgadas, enriqueceu muitas famílias nobres, surgindo estradas e portos marítimos para evacuar as produções. Em seguida a bonança do algodão, o “ouro branco”, no século XIX, e o surgimento da estrada de ferro ativaram o comércio nas grandes cidades, partindo Fortaleza para destaque de maior centro econômico do Estado. Evidenciava-se a riqueza concentrada em comerciantes, uma sociedade elitizada e influenciada pela cultura francesa, um período de inspiração francesa conhecido por “Belle Époque”. 


Foot-Ball



 
(Campo do Passeio Público, 1904 - Instituto do Ceará)


  Dos encontros elegantes no Passeio Público às diversões. Precisava-se buscar no estrangeiro uma maneira de ativar o físico e o lazer do fortalezense. Na Europa praticava-se um novo esporte. E 1903 foi um ano marcante para a história da pequena cidade. Em evidência, o futebol ainda não chegara para valer em muitos estados brasileiros, e o Ceará estava nesse rol. Apenas algumas peladas nas praças e praias da cidade usando bolas improvidas, além de qualidade técnica a desejar. Um esporte praticado por rapazes que curiosamente aprenderam regras e práticas nas cidades onde estudavam no velho continente (Inglaterra, França, Áustria e Alemanha) ou no Rio de janeiro, e, com ajuda de alguns ingleses, surgiu o Ceará Foot-Ball Club. Indivíduos com um objeto redondo que corria no areal com capim e uma multidão de curiosos procurando entender o sentido da obstinação por um objeto redondo.

 
Prof. José Silveira (Correio do Ceará)
No ano seguinte o primeiro jogo contra ingleses que moravam na cidade: 2x1 para os forasteiros. Em seguida, entretanto, aportou no antigo porto da Alfândega um navio inglês com um time que seguia para amistosos no sudeste do País e Argentina, surgindo um amistoso entre eles e os cearenses. Ocorreu novamente no segundo plano da Praça dos Mártires (Passeio Público). Um jogo considerado “profissional”, pois, pela primeira vez, desde a chegada de José Silveira da Europa com bolas duras, marca Olimpique, e regras do esporte, ocorria uma disputa contra jogadores qualificados. Campo lotado, marcando presença, também, ingleses residentes em Fortaleza, trabalhadores de armazéns, estrada de ferro e companhia de gás: 10x2 para os ingleses. Tamanha foi a repercussão que, com o passar dos tempos, novas bolas foram aparecendo, a prática esportiva uma realidade nas ruas do Centro e uma recreação nos colégios particulares e no Liceu do Ceará.


 Stella e Fortaleza


 Segundo José Silveira, em 1908, após o retorno de estudantes cearenses que estudavam na Europa, foi fundado o Stella Foot-Ball Club por João da Frota Gentil, futuro diretor geral do Banco Frota Gentil e fundador do Colégio São João. Possuía o nome da escola e time em que os cearenses estudavam e jogavam, Stella Matutina, em Feldkirch. Curioso que essa cidade pertence à Áustria, podendo haver um erro histórico quando associamos ao país vizinho. As cores, branca e vermelha, lembravam as da bandeira suíça ou austríaca. Os demais jovens dirigentes eram: Adriano Deodato Martins, Bruno Menescal, José Raimundo da Costa, Oscar Loureiro, Pedro Albano, Paulo Menescal , Ademar Albuquerque e ele, Zé Silveira. Disputava jogos no Passeio Público e na Praça da Lagoinha.

 Assim permaneceu por anos, quando, em 1912,  época em que passou a ser usado o Campo do Prado, no Benfica, destacavam-se o English Teen (cearense fundado em 1908) e o Rio Negro. Contudo,  ainda naquele ano surgiriam o Maranguape e o Rio Branco, que originou o Ceará Sporting Club, o rival do Stella Foot-Ball Club, que fincou as bases da fundação do Fortaleza Esporte Clube (Sporting na época), sendo um braço de uma equipe amadora da época, o Fortaleza Foot-Ball Club, fundado por Alcides Santos, cuja existência foi registrada pela revista carioca O Malho durante um amistoso contra o Almirante Barroso, time de marinheiros do Rio de Janeiro, em 1914. 

 
Alcides Santos (Instituto do Ceará)
A Liga Metropolitana de Futebol não passava de uma representatividade extraoficial dos clubes que disputaram torneios a partir de 1913: Rio Branco, Hispéria e Maranguape. Mas em 1914 contaria com uma novidade, o Stella. Consagrava a figura de Alcides Santos, seu presidente e da Liga naquele ano. Ele comerciante e filho do professor, intelectual e deputado Agapito dos Santos. Outros abnegados: Pedro Riquet, José Bruno Menescal, Lucio Bauerfeldt, Walter Barroso, Jaime e Oscar Loureiro. Sua equipe de estreia contou com José Raimundo da Costa, que não era o jornalista e ex-presidente do Fortaleza; Ademar Bezerra de Albuquerque, futuro funcionário do Banco Frota Gentil, documentarista audiovisual, criador da ABA Film; Aleardo Costa Sousa, Paraense, Adriano Martins, Oscar Loureiro, Paulo Bruno Fiuza Menescal, Pedro Albano, Diógenes Vasconcelos, Atahualpa Alencar e José Silveira, o homem da primeira bola. Dois anos depois despareceria o Stella por uma causa nobre, um projeto maior.

 Em 18 de outubro de 1918, Alcides Santos, então com 29 anos, funda o Fortaleza Esporte Clube e revoluciona o futebol cearense, investindo na infraestrutura e beneficiando não apenas o seu Clube como o conjunto que fazia o esporte local. Doou o terreno no Alagadiço (atual Av. Bezerra de Menezes), mais espaçoso do que o do Passeio Publico, o do Campo do Prado (ao lado do futuro PV) e fundou a Associação Desportiva Cearense (ADC), o primeiro órgão federativo oficial do Estado, em 1920. Pela efervescência do glamour francês de então, suas cores tricolores são alusivas à bandeira daquele país.  Os dirigentes eram os mesmos do Stella mais Clóvis Gaspar, Jayme Albuquerque, Clóvis Moura e Walter Olsen, de família dinamarquesa estabelecida na cidade. O futuro do Clube o Brasil é testemunha. Só emoção e orgulho para a sua apaixonada torcida.




 José Silveira, o introdutor do futebol cearense e jogador do Stella.



 Filho de José Maria Silveira e de Glória Maria Carneiro Silveira, portugueses, José Silveira nasceu em Fortaleza em 29 de setembro de 1882. Partiu para a Europa em 1898, aos 16 anos, para estudar no Instituto Internacional Dr. Schmidit, na Suíça, estando ao lado de colegas de diversas nacionalidades. Com o futebol local em evidência, jogou como center-half (volante) pelo Rosemberg FC, pertencente à instituição, que seria a segunda maior força do País, superada pelo Grasshopper (Gafanhoto). 

De volta à terra alencarina, municiado de bolas e com o livro de regras, constatando que os conterrâneos não sabiam praticar o esporte, procurou um inglês, sócio da firma Leite Barbosa, marinheiros e engenheiros ingleses para um racha contra os cearenses, que contavam com o próprio, Zé, mais Prisco Cruz, Julio Sá, Marcondes Ferraz, J. Queiroz, J. Henrique e quem se dispusesse a encarar o sol e a nova modalidade esportiva. Isso no segundo piso do Passeio Público, em frente ao Gasômetro, que ficava na descida da Santa Casa de Misericórdia, sentido praia.  2x1 para os ingleses. 

José Silveira concluiu estudos em Fortaleza em 1909, na Faculdade de Direito. Professor de Línguas do Liceu do Ceará e da Escola Normal, lecionou por cinquenta anos. Falava inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. Disse para o Correio do Ceará em 1963: “Dediquei a minha vida ao nobre ofício de ensinar, mas faço questão de frisar: nunca pedi emprego ou posição para mim. Devido a esse retraimento sempre fui um esquecido”.

 Foi prefeito de Trairi CE e deputado estadual.




Fontes: História do Campeonato Cearense de Futebol (Nirez), Jornal Correio do Ceará (1963) e Jornal A República (1903).





sexta-feira, 4 de maio de 2018

Trairi CE, 14 de agosto de 1974. O Centenário de Livramento.


 
O momento foi por demais aguardado. Nas missas, Padre Tomás Féliu ministrava os preparativos para a solenidade tão louvada. Católicos, irmandades, o bispado do Ceará, o conjunto em torno da veneração por uma Santa estava mobilizado. Um pedaço da história do Estado traçava mais algumas linhas para o futuro. Dificilmente havia um trairiense que não soubesse o que se passava. No mercado, no comércio, nas praias, escolas e comunidades do sertão a conversa era única: a Paróquia de Nossa Senhora do Livramento estava completando cem anos.





Aquele 14 de agosto caiu numa quarta-feira, fato que não tirou o brilho de um evento histórico. Cem anos de Vila e Paróquia de Nossa Senhora do Livramento. Uma verdadeira massa de fiéis presente, lembrando os festejos religiosos do fim de ano, com representações de todas as comunidades. Autoridades de diversas esferas sociais presentes, como  o ex Bispo Auxiliar de Fortaleza, D. Raimundo de Castro e Silva; do Pe. Windemburg Santana (Superior Provincial da Companhia de Jesus), de vários ex vigários da paróquia; do vigário de Baturité, Pe. Hugo Furtado, descendente de Dona Maria Furtado; do presidente da Assembleia Legislativa, Almir Pinto, além de representantes das classes operárias, agrícolas e empresariais do município e do Ceará.



Prefeito Manoel Barroso Neto com os fiéis na rua Raimundo Nonato Ribeiro


 Mas acima de todos estava o povo, os fiéis procedentes daqueles que levantaram a imagem da milagreira desde a sua origem. À meia noite a deslumbrante missa, na qual o devoto beija-mão perdurou quase uma hora. Seguindo-se os cânticos acompanhados da banda do Colégio Piamarta, atos litúrgicos e declamações de poemas, destacando-se a fiel Maria Pia de Salles.  Muitos ainda chegavam de longínquos municípios quando se iniciou o grande cortejo. Estudantes e fiéis, pessoas de origem simples mas de grandeza cristã, de fé, carregavam as imagens dos demais santos que ornamentam a Igreja, sendo a de São Pedro aos cuidados dos pescadores.




A multidão e os demais santos acompanham Nossa Senhora do Livramento


 Nossa Senhora do Livramento abençoou o seu povo. Chorou quando ali chegou após cruzar  o Atlântico;  chorou quando a viu paróquia, com o Pe. José da Silva Carvalho, em 1874, surgindo ao seu lado, triunfante, rumo ao templo idolatrado. E chorou novamente de alegria no centenário, durante uma festa católica da qual o povo trairiense  jamais esquecerá, emocionando os visitantes. E mais do que isso, nunca a abandonou. Assim conta um povo tão católico, fiel, sabedor do seu destino, que é amar a Deus e por ele ser perdoado. Assim conta a História.


                                                                                          (Acervo Lucas)



 Pesquisa: "Como Nasceu Trairi" (Maria Pia), "Ungidos do Senhor" (Aureliano D. Silveira), jornais O Povo e Tribuna do Ceará.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Correio do Ceará - 1915, Um Marco no Jornalismo Cearense


 
Rua Conde D'Eu. Primeira sede
Os grandes jornais do País se postaram como mensageiros das tragédias no Ceará. Nos séculos XIX e XX o 
Estado passou imagem negativa, uma terra enraizada nos problemas climáticos e políticos. Caricaturistas do Rio de Janeiro e de São Paulo traçavam o líder oligárquico Nogueira Accioly ao fenômeno da seca que porventura inquietasse o Sudeste: “ O comendador trouxe a seca do Ceará”. Essas informações chegam às redações através do seus representantes, que eram muitos, de Fortaleza, com seus informativos apreciados e disputados pelos leitores sedentos por notícias. Uma devoção que começou oficialmente  pelas mãos de um padre em meio a um clima político tenso e por uma concorrência de grupos partidários.





 
Primeiro número do Correio
O historiador Perdigão de Oliveira propôs que a imprensa cearense surgiu em 1817. O presidente da Província, Manoel Inácio de Sampaio, teria criado uma gazeta, fazendo-a circular por todo Ceará, informando sobre a Confederação do Equador, na verdade uma revolução. Isso lhe custou uma discussão com Barão de Studart, que manteve o jornal Diário do Governo do Ceará como o introdutor do jornalismo no Ceará. Seu redator era Gonçalo Inácio de Loiola de Albuquerque e Melo, o Padre Mororó, passando a operar a partir de 1 de abril de 1822 pelas máquinas  dos tipógrafos Felipe Lana e Urbano Paz. O destemido religioso, que foi um dos mártires fuzilados no Passeio Público por se posicionar contra o autoritarismo de D. Pedro I, é um ícone da imprensa cearense.




Passados alguns anos surgiram os famosos jornais com potencialidades comerciais, numa fase do jornalismo de cunho partidário, de críticas aos adversários e fofocas. Por um lado os conservadores, Pedro II (1840 - 1889) e Constituição (1863 - 1889), e do outro os liberais, O Cearense (que tornou-se Cearense, 1848 - 1891), este, conforme João Brígido (do Unitário, de 1908), introdutor no jornalismo científico no Ceará. Resumindo, uma imprensa atrelada a ataques que, em suma, visavam a conquista da presidência da Província, ou seja o poder.



 
A. C. Mendes
 
Contudo, foi com o surgimento do Correio do Ceará que finalmente Fortaleza pode apreciar um jornal fiel aos princípios do jornalismo, com noticiários e publicidade. Criado em 2 de março de 1915, era um órgão ligado à Diocese de Fortaleza, mas independente. Seu fundador, Álvaro da Cunha Mendes (A. C. Mendes, do Diário do Estado, 1914), instruiu-se em São Paulo, na perspectiva de inovar a maneira de levar as informações do dia a dia aos seus conterrâneos. Excêntrico, o fundador vestia-se finamente, embora gostasse do branco, a cor dos sapatos, meias, de tudo, inclusive da sua pele. E na questão higiênica cobrava de toda a equipe o devido asseio, muitas vezes em tom de deboche: "Aqui não é sujo como jornal do Rio!".

 Eram redatores padres como Silvano de Sousa, e dirigida pelo Padre Climério Chaves.  Com a criação do O Nordeste (1922,) por Monsenhor Tabosa para a Diocese, o Correio do Ceará tornou-se mais imparcial e fiel ao jornalismo. Já as receitas não partiam da exclusividade das vendas dos jornais, pois o dono possuía rendas dos Estabelecimentos Gráficos A. C. Mendes.







Cônego Climério Chaves





1960. Jornal na rua Senador Pompeu
Nos anos 1920, Fortaleza contava com alguns jornais combativos como Correio do Ceará, O Ceará (de J. Matos Ibiapina), O Nordeste (dirigido por Andrade Furtado), Gazeta de Notícias (de Antônio Drummond) e O Povo (de Demócrito Rocha). Dentro dessa linha, A. C. Mendes fez várias denúncias, mas uma delas tornou-se foco de atenção dos cearenses, digno de debates acalorados. Após publicar relatos sobre desvios de verbas da Inspetoria Federal de Obras Contra Secas (IFOCS), envolvendo personalidades como Pompeu Sobrinho, acabou preso no dia 27 de julho de 1926, durante o governo de Artur Bernardes. O STF o impôs uma pena de seis meses, das quais a metade foi cumprida, mais pagamento de multa de dois mil réis, em vista às apelações jurídicas e populares. Parecia que toda a cidade o acompanhou desde a sede do jornal, na Rua Conde D’Eu, 183, ao então quartel do 23° BC, na Av. Alberto Nepomuceno. A multidão lembrava a inauguração da estatua de D. Pedro II, em 1913, quando todo o largo da Sé foi tomado por curiosos.



 
1926. Prisão de A. C. Mendes (Arquivo Nirez. Gentileza Fortaleza Nobre)


 No estilo austero, era o mais popular, fruto de um trabalho empresarial definido, da redação à oficina com código de disciplina e política salarial, respeitando a ordem previdencial e consequentemente os direitos e deveres dos empregados. E para tal, Álvaro Mendes e H. Firmeza muitas vezes faziam concursos para atrair bons profissionais



 
Primeira edição pelos
Diários, em 1937

O Correio do Ceará acabou vendido aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em 1937, logo após a criação de um concorrente, O Estado, de José Martins Rodrigues. Muita expectativa por se tratar de um ano eleitoral, marcado pelo Estado Novo, que culminou com um regime ditatorial a partir de novembro. Nem por isso a redação do jornal se recolheu. Com a direção de João Calmon e circulando de segunda à sexta-feira à tarde (às 15 horas em ponto) e sábado pela manhã, manteve as suas editorias independentes, com grandes colunistas, valorização do esporte e da cultura cearense. Durante o Estado Novo, nos anos 40, combateu o regime autoritário, porém, durante a ditadura de 1964, sob direção de Eduardo Campos, apoiou o regime militar.






 
 
H. Firmeza, "Príncipe dos Jornalistas
do Ceará". Revisava todo o jornal
Os Diários Associados passavam a contar com três jornais: Correio do Ceará, Unitário e Gazeta de Notícias, sucessos em retorno financeiro, numa época de paixão pela leitura e pela comunicação. Então vieram a aquisição da Ceará Rádio Clube, e, em 1960, a revolucionária TV Ceará, Canal 2. Destaques da imprensa, que militaram naquele jornal, Hermenegildo Firmeza (H. Firmeza), João Calmon, Eduardo Campos, Antônio Moreira de Albuquerque, Antônio Carlos Campos de Oliveira, Blanchard Girão, Fernando Sátiro, Felizardo Montalverne, Geraldo Oliveira (fotógrafo), Vieira Queiroz (fotógrafo), J. Ciro Saraiva, Teixeira Cruz, Boaneges Facó, Antonio Soares e Silva, Raimundo Guilherme, Nery Camello, Luiz Bezerra, Hildebrando Espínola, Colombo Sá, Pádua Campos, Teobaldo Landim, Luciano Diógenes, Milano Lopes, Juarez Timóteo, Roberto Vasconcelos, Adauto Gondim, José Olívio (gráfico), Francisco Soares de Medeiros, Severino Palácio e Geraldo Nobre, este um dos maiores amantes do jornal. Contava que, ainda jovem, aguardava o vizinho ler o Correio para pedir emprestado, às segundas feiras, quando o mesmo 

saía com o resumo da semana anterior.









 Em 1965, em comemoração ao seu centenário, saiu com quatro edições especiais, sendo que a Associação Cearense de Imprensa promoveu o Curso Livre de Jornalismo. Em 1980 o jornal passaria a Venelouis Xavier Pereira, tendo Colombo Sá seu editor. Não duraria mais que dois anos, porém com magistral número de 19.962 edições.



1960. Jornal se antecipa ao rompimento de parede do Orós


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                                                                                            Fotos e consulta: Correio do Ceará






quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Clóvis Beviláqua. O Maior Civilista sem Casaca




Dr. Clóvis e D. Amélia (da família)
De origem italiana, Clóvis Beviláqua (Bevilacqua) nasceu em Viçosa do Ceará no dia 4 de outubro de 1859. Fez os estudos primários em Sobral e os seguintes em Fortaleza (Ateneu Cearense e Liceu) e Rio de janeiro, onde conviveu com os colegas Paula Ney e Silva Jardim, que futuramente se destacariam na literatura, no Direito e em lutas sociais. Entre 1878 e 1882 estudou na Faculdade de Direito do Recife, onde fixou residência. Tão logo bacharelou-se, destacando-se como professor de Filosofia, concursado na Faculdade em que estudara na capital pernambucana,  logo fezendo jus à respeitada figura do meio jurídico. No Ceará, o Comendador Accioly, a fim de acalmar as tensões políticas, o convidou para a presidência do Estado. Negou, bem como para senador e deputado; também aos convites dos presidentes da Repúbica Hermes da Fonseca e Washington Luís, para ministro do STF. Contentou-se com o cargo de consultor jurídico do Ministério das Relações Exteriores após convite de Barão do Rio Branco, o que lhe valeu também vaga de professor de Legislação Comparada no Recife. Mas aceitou um trabalho solicitado pelo presidente norte americano, Robert Hoover, redigindo um projeto para a Corte Permanente de Justiça Internacional. Entretanto, para lá não foi discuti-lo, afinal jamais faria uma viagem internacional.

 Proclamada a Republica, em 1889, secretariou o Dr. Thaumaturgo de Azevedo, o primeiro presidente do Piauí, seguindo adiante para Fortaleza como deputado constituinte.



 Nascimento do Código Civil Brasileiro



 
Faculdade de Direito de Recife
Em 1899, durante o governo de Campos Sales, o então Ministro da Justiça, Epitácio Pessoa, seu colega de faculdade, o incumbiu de redigir um projeto de Código Civil. Em seis meses teria que apresentar um trabalho de aprimoramento do contexto social, de forma liberal e equitativa. Assim o fez, e assim foi aplaudido mundialmente. Após dezessete anos de discussão, o mesmo entrou em vigor em 1 de janeiro de 1917. Criou normas que buscavam a igualdade social, quebrando as antigas e injustas que distanciavam as classes, uma vez privilégios das classes sociais mais abastadas, assentando as bases de uma filosofia jurídica dos grandes revolucionários das ciências. Para Clóvis Beviláqua, a filosofia geral é a síntese mais elevada do saber humano, pois ela generaliza, unifica e completa a natureza harmônica de todas as ciências. O Direito como ciência estuda o homem em suas relações mutuas, mas como fenômeno aparece na sociedade humana como consagração da necessidade da vida em comum, e como deixou claro, “a filosofia jurídica traduz um grau superior na evolução das ciências do Direito”.


 Famoso e humilde



 No que pese uma vida dedicada ao ensino e de consultorias, Clóvis Beviláqua não enriqueceu financeiramente. Não importando o grau da personalidade dos solicitantes, desde que chegara ao Rio de Janeiro, em 1906, cobrava o mesmo valor pelos pareceres, inferiores aos dos colegas. Conforme o jornalista do Flan, Francisco de Assis Barbosa, “não ligava para dinheiro. Excetuando o “Código Civil Comentado” e “O Direito das Coisas”, vendeu a propriedade de todos os livros, a maior e mais completa obra que um jurista produziu em língua portuguesa. Tudo por uma quantia irrisória”. Das duas obras, aos cuidados da Livraria Francisco Alves, e de uma pensão paga pelo governo, sustentavam-se as filhas do jurista. Ambas sequer possuíam emprego, assim como de vida humilde eram seus parentes no Ceará. A própria casa da família, na Rua Barão de Mesquita, 500, foi adquirida através de um empréstimo na Caixa Econômica, “facilitado por uma entrada proveniente de subscrição popular da Sul América”. Ali o intelectual dedicou a outra tarefa que amava: cuidar de animais. Abraçava-se aos gatos, cachorros, dava milho aos pombos sentado na sua cadeira de balanço, nas suas mãos.  E não esquecia dos demais, pois alimentava até as aves  dos vizinhos. Interessante, criava galinhas mas não as matava, afinal possuíam nomes, eram como membros da família.


 Maior civilista do País sem casaca


 Tamanha modéstia vinha de longe.  1916 era o ano do centenário de nascimento do jurista baiano Teixeira de Freitas. Bateram em sua porta. Era seu amigo Edmundo da Luz Pinto, presidente da Associação dos Estudantes da Faculdade de Direito do Rio de janeiro, que o convidara para fazer uma conferência sobre o seu colega centenário. Agradeceu, mas não poderia ir porque não possuía uma casaca. O outro tratou de ir atrás e conseguiu a roupa, alugada na Casa Storino, e para a concorrida sessão, no dia 10 de agosto, compareceu ao Teatro Municipal. O imponente monumento da cultura nacional viveu um momento ímpar. Da mesa, da qual presidia, o famoso jurista Rui Barbosa, conterrâneo de Teixeira, o apresentou: “Dou a palavra ao maior dos nossos civilistas vivos para falar sobre o maior dos nossos civilistas mortos”. Fez a conferência, silenciando o prédio, lotado por estudantes. Foram tantas as palmas que até Clóvis Beviláqua as bateu pensando dirigir-se ao colega baiano.


Defensor da mulher. Aliás, das mulheres.



 Contudo, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Clóvis Beviláqua, membro da Cadeira 14, teve um desgosto que o fez se afastar em definitivo da casa. Em 1930, sua esposa, a escritora Amélia de Freitas Beviláqua, inscreveu-se para a vaga de Alfredo Pujol. Ela já bem conhecida, já que, a contragosto dos imortais, acompanhava o marido nas sessões. Entretanto, acabou rejeitada após o presidente Aloysio da Costa colocar em votação, tendo como motivo a negativa ao sexo feminino possuir assento na Academia, o que só viria a ocorrer em 1977, com Rachel de Queiroz. Em reação à negativa, bradou em boa voz o esposo inconformado: “ Lá fora deixo o meu chapéu e a minha bengala. Onde minha mulher não pode entrar eu também não entrarei!”. O casal se conheceu durante os estudos no Recife, ela culta, piauiense, filha de desembargador, escritora desde a infância, e que teve o companheiro como parceiro em livros.


A família


 
Funerais do jurista no Campo Santo, Rio (Diários Associados)
Após a sua morte, em 26 de julho de 1944, as filhas, Dóris e Violeta, prosseguiram a tarefa de zelar os livros dos pais. Superando 10 mil volumes, com certeza a maioria voltada ao Direito, estragando-se na umidade e na precariedade do espaço, a biblioteca de Clóvis Beviláqua foi pretendida pelo Estado a fim de enriquecer os arquivos  Ministério das Relações Exteriores. Dóris Beviláqua, entretanto, recusou não apenas essa oferta como outras: “Não quero que mexam em nada. Guardarei os livros de papai e mamãe aqui mesmo. Depois da minha morte e das minhas irmãs, então sim, a biblioteca ficará para os estudantes pobres. Papai tinha horror em pensar que os seus livros seria postos em leilão. Lembro-me que ele ficava triste com o anúncio dos leilões de bibliotecas particulares no Jornal do Comércio”.


A gratidão da sua terra




JK no Ceará. (Correio do Ceará, 1965)
No dia 3 de agosto de 1965, o presidente Juscelino Kubitschek, dentro das comemorações do centenário de nascimento do jurista cerense, esteve em Fortaleza, inaugurando o Hospital das Clínicas e recebendo o título de Doutor Honoris Causa da UFC. E nos dois dias posteriores eventos ligados ao Direito, culminando com um recital na Concha Acústica da UFC com os pianistas cearenses Jacques Klein e Cesarina Klein. Parecia que toda a cidade encontrava-se do lado de fora em todas as ocasiões.



 
Fortaleza, 1965. Inauguração da estátua. (Unitário)
Às 9 horas do dia 11 agosto de 1965, Dia do Jurista e do estudante, foi inaugurada a sua estátua na praça ao lado da Faculdade de Direito. Discursaram Eduardo campos, presidente da Associação Cearense de Letras, e Luís Cruz de Vasconcelos, diretor da Faculdade, diante de incontável número de estudantes e populares. A estátua do ilustre cearense surgiu a partir da iniciativa do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua e do jornalista e escritor Pantaleão Damasceno, dos Diários Associados, com uma campanha do jornal Unitário em busca de apoios, resultando numa comissão que foi ao encontro das autoridades. Em 1963, o governador Virgílio Távora sancionou projeto de lei do deputado Themístocles de Castro e Silva, disponibilizando o valor de CR$ 2 milhões para a sua construção, uma dívida do cearense para com seu conterrâneo.


       

                                                                                                            J. Lucas Jr


 Fonte: Pantaleão Damasceno (Jornal Unitário), Jornal Correio do Ceará e Jornal Flan.




Rio de Janeiro. O jurista com a esposa e filhas. Lendo, Florisa, falecida em 1945. (Álbum de família)


Biblioteca: Violeta e os amores de Clóvis Beviláqua. (Flan)


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Bibliotecas do Ceará - História de Amor à Leitura - (Por J. Lucas Jr)

Primeiro passo: Liceu do Ceará   


 
Liceu do Ceará (O Estado 1937)
No ano de 1844, o presidente da Província, Fausto de Aguiar, criou, com ordenado de 400 mil réis,  o cargo de inspetor geral da Instrução Pública, que seria hoje equivalente ao secretário da educação, com o intuito de procurar dinamizar o ensino público no interior, uma vez que pouco se progredia e o fato de os inspetores locais, das vilas, não serem remunerados. Restrito à aprendizagem primária, o presidente procurava um meio de estimular a educação com a criação de um grau mais elevado, no caso o secundário, com variadas cadeiras a serem preenchidas via concursos, prendendo os inspetores na atividade de forma assalariada. O responsável seria o primeiro diretor do Liceu do Ceará, que estava sendo criado, aliás um dos seus fundadores, Thomaz Pompeu de Souza Brasil, futuro senador.



 A biblioteca do Senador Pompeu


 
Estudioso e historiador, em 1847 o diretor desenvolveu a ideia de uma biblioteca para o Liceu, em Fortaleza, ainda que o mesmo não possuísse sede própria, 
o que ocorreria somente em 1894, funcionando na sua residência, na Praça dos Voluntários.  Dispondo de 500 mil réis cedidos pela província, pôs adiante a sua luta, surgindo dali o primeiro acervo correspondente. Naquele ano, aliás, o decreto imperial n° 433 obrigava as tipografias a cederem todos os seus impressos às bibliotecas públicas do País, motivando o governo local a colaborar com Pompeu, solicitando do mesmo a relação dos livros essenciais à biblioteca da escola. Mas infelizmente não houve a contribuição necessária da parte do poder público, não passando de uma pequena sala improvisada com parcos livros. 

 Contudo, a capital cearense contava com um espaço não particular para leitura, antecedendo à Biblioteca Pública do Ceará (1867) e ao Instituto do Ceará (1887). Com 1.730 volumes na época da inauguração, a Biblioteca Pública cresceu com todas as dificuldades, mudando de endereços em busca da sobrevivência. Em 1893 estava instalada na rua Sena Madureira, contando com 10.392 obras, das quais 4.930 foram acessadas pelos 3.334 visitantes. Recebia muito pouco financeiramente para se manter, perdendo do governo as contribuições para as assinaturas de revistas e aquisições de livros, dos quais os mais velhos, sem conservação, estragavam-se.



Biblioteca e sala de aula do Liceu (Gazeta de Notícias 1957)


O jogo por trás das contribuições



 Os recursos do executivo para a área cultural, educacional, religiosa e principalmente para a Santa Casa de Misericórdia dificilmente saíam dos impostos dos contribuintes, poucos diante de uma rede de contribuintes restrita a comerciantes e da elite em torno do centro da cidade. Por isso o Estado fazia rígidos contratos com as loterias para delas angariar fundos para a manutenção de órgãos fundamentais. Isso na ordem de sete contos de réis por mês sob pena de multas e fechamento. Portanto, o jogo não apenas mantinha como foi colaborador da criação da Santa Casa, do Asilo dos Alienados e do Colégio da Imaculada Conceição (assim como a sua capela do Pequeno Grande), ajudando o Liceu e a Biblioteca Pública. O dinheiro do Estado, pelo visto, só dava para pagar os salários dos servidores e dos poderes.


Phenix dos Caixeiros



 
Primeira sede da Fênix (Gazeta de Notícias RJ, 1907)
No dia 24 de junho de 1905 foi inaugurada a primeira sede da Fênix Caixeiral, presidida por Joaquim Magalhães e contava com 661 sócios. Tratava-se de uma sociedade criada em 1891 por um grupo de jovens comerciários. Diante de todo o luxo do prédio, localizado na rua Guilherme Rocha com General Sampaio (logradouros com nomes atuais), era a sua biblioteca, com 4.000 volumes, coordenada pelo bibliotecário João Aleixo de Sá, tendo como destaque o periódico do estabelecimento. Mais uma alternativa para consultas do cearense, que praticava fervorosamente a arte da leitura diante das poucas opções culturais. Uma cidade rica em tipografias, com vários jornais, grêmios literários, embora centralizados a uma parte da população, uma minoria que podia pagar pela informação, contrapondo-se à massa desprezada oriunda do interior, fugindo das secas e das pestes.





Salão da Biblioteca do Phenix Caixeiral, segunda sede. (Instituto do Ceará)




 Livrarias e seus cuidados


 
Livraria Edésio, na Pça do Ferreira. (A Noite 1932)
Com a chegada da primeira livraria, Oliveira, do português Joaquim José de Oliveira, e em seguida a de Manoel Antônio da Rocha Junior, no século XIX, a leitura tornou-se cada vez mais um hábito do cearense. Livros e revistas se avolumaram nas residências de intelectuais, professores, educadores, e nas grandes bibliotecas. Carecia, entretanto, de meios modernos de manutenção das obras, mas essa precariedade redundou na perda de muitos volumes, principalmente de antigos jornais. Diante de tantas denúncias e tentativas de investimentos da parte do poder público, previsões de tragédias acabaram se consolidando, como o incêndio de 1987. Na do Estado, Menezes Pimentel, devido às suas péssimas condições físicas, um curto circuito provocou um incêndio que consumiu boa parte da hemeroteca, destruindo os exemplares dos históricos Pedro II, Constituição, Cearense, A Gazeta do Norte, Libertador e A Razão, jornais antigos que fizeram parte do dia a dia do fortalezense.




Livraria O Arlindo (Amoreira). De gravata, o proprietário. (Unitário 1960)



 Bibliófilos:





Livraria Moraes, na rua Major Facundo. (A Noite 1939)
O Ceará contou com grandes bibliófilos, pessoas que guardavam parte dos seus proventos para comprar e admirar livros e revistas: Paulino Nogueira, Barão de Studart, Capistrano de Abreu, Antônio Sales, Djacir Menezes (que deixou mais de 50 mil volumes com a família e parte dela cedida à UECE), Mozart Soriano Aderaldo, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares, Artur Eduardo Benevides, Cruz Filho, Luiz Sucupira, Fran Martins, Eduardo Campos, Abelardo Montenegro, Raimundo Girão, Batista Aragão, Carlos Studart Filho, Pompeu Sobrinho, José Albano, entre vários amantes. E também os das grandes ações. O professor e escritor Moreira Campos, que começou a colecionar por volta de 1930, doou sua coleção para o Curso de Letras da UFC, a sua segunda morada, quando se mudou de uma casa no Benfica para um apartamento. Já na biblioteca de João Carlos Neves, telegrafista, havia  cerca de oitenta livros sobre Padre Cícero, também doados. Adísia Sá, como professora, doou a sua coleção para o Centro de Humanidades da UECE, onde lecionava. E Cid Carvalho conserva a grandiosidade da coleção do pai, Jáder de Carvalho. 


 Graciosidades feitas no Ceará passaram pelas mãos desses ilustres apreciadores: Revista Verdes Mares (do Grêmio Estudantil do Colégio Cearense), Educação Nova (do Governo Estadual), A Ideia (do Liceu do Ceará), Terra da Luz ( do Colégio Castelo Branco), A Jangada Cearense (da Confederação dos Pescadores do Ceará), O Estímulo (do Instituto São Luiz), Revista Contemporânea (de Waldery Uchoa), Folha Estudantil (do Centro Estudantil Cearense), Lar (da Escola Doméstica São Rafael), Via Lactea (do Colégio Santa Cecília), Revista da Academia Cearense de Letras e a requíssima Revista do Instituto do Ceará.


Biblioteca Dolor Barreira



 
Dr. Dolor Barreira. Prof Emérito da UFC
Caso polêmico ocorreu em 1969. A famosa biblioteca do jurista, membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, Dolor Barreira, falecido dois anos antes, seria doada, como era desejo do proprietário.  A família acabou entrando em choque com o secretário de Cultura municipal, Raimundo Girão, ex-prefeito de Fortaleza, que insinuou na imprensa que ela estaria fazendo “leilão” com o bem, uma vez haver indicações de que o referido estaria vendido. 


 Localizada na residência do Dr. Barreira, na Rua Major Facundo com a Av. Duque de Caixas, na área correspondente atualmente à agência da Caixa Econômica Federal, tinha como bibliotecária Maria Conceição de Sousa, que cuidava dos seus 40 mil volumes. Caso a prefeitura continuasse duvidando, seria provável um outro destino. Por muito pouco o rico acervo do professor, incluindo as estantes, não foi parar na UNESCO. Felizmente a biblioteca tornou-se municipal em 1971, localizando-se na Av. da Universidade, de onde se mudou para o atual endereço, do outro lado da mesma rua. 



Em 2007, as mesma foi agraciada com a doação de 5 mil volumes do famoso historiador e professor Geraldo Nobre, pela sua família. Das antigas livrarias como Ribeiro, Araújo, Gualter, Aequitas, Imperial, Humberto, Selecta, Hermínio Barroso, Renascença,  Alaor, Moraes, Comercial, surgiram os colecionadores particulares, daqueles que não se importam com o tempo quando se procura um bom livro, um bom livro mais outro livro e assim surge uma nova alternativa de consulta.



Carlyle Martins



 
Carlyle Martins e sua biblioteca (Tribuna do Ceará)
Muitos se trancam, outros liberam as suas prateleiras para os pesquisadores. Sobrinho do poeta Álvaro Martins, um dos fundadores da Padaria Espiritual, Carlyle Martins foi um desses apaixonados por leitura. Na sua eterna residência, na Av do Imperador, já próxima da parada final dos trens, o poeta e membro da Academia Cearense de Letras recebia, desde os idos de 1950, as visitas, orientando-as para a boa conservação das obras. Mostrava boa receptividade, mas também o cuidado com os seus 15 mil volumes de cunho literário, que segundo o próprio não venderia “por dinheiro algum”. Na época, o famoso jurista incentivava nomes que iniciavam nas artes e que lhe atraiam pela riqueza cultural: Eusélio de Oliveira, Sânzio de Azevedo, Horácio Dídimo, Esther Barroso, Henriques de Cêrro Azul. Dos poetas até então falecidos citava Antonio Sales e José de Albano, uma conclusão difícil diante de tantos nomes que abrilhantaram a literatura cearense.



 Tonny Ítalo



 
Biblioteca do Instituto Tonny Ítalo (Lucas Jr)

 Diante de tantas experiências de sucesso, a vontade de ajudar superou as dificuldades diversas. Chegaram à periferia de Fortaleza e à zona rural do Estado do Ceará as bibliotecas comunitárias, que trabalhavam limitadamente Diante disso, a Secult CE criou uma área de apoio a elas, promovendo discussões e ajudando com doações de livros e revistas, contribuindo com o seu fortalecimento. Particularmente, presenciamos o impacto das Bibliotecas Comunitárias e no momento comemoramos o secesso dessa parceria. A biblioteca Rodolpho Theophilo, do Instituto Tonny Ítalo, em Itaitinga, passa por um processo de crescimento a ponto de vê-se necessário sua expansão física. Como seu coordenador, notamos a satisfação das crianças carentes que a visitam, além das atenções dadas pelos adultos e estudantes. Foram duas doações em dois anos da Secretaria de Cultura do Ceará, que junto às de dezenas de colaboradores só têm dado alegrias à comunidade de Taveira, ensejando a esperança e a certeza de que com a educação evitaremos que a violência continue a desmoronar o sonho das famílias e da sociedade, por um mundo de inteligência. Que todas essas bibliotecas citadas sejam o palco de uma reviravolta cultural, a leitura como uma adoração universal, livros pequeninos ou ricos, o importante é que não nos abusemos de ler, de aprender, de nos guiar, livres, para uma vida de encantos.


“Só a educação do povo poderá obstar completamente ao progresso da imoralidade que é a causa primordial dos gravíssimos males que vexam a nossa sociedade”. (Fausto Augusto de Aguiar, Presidente da Província do Ceará, 1844)


Fontes: jornais Pedro II, Cearense e Tribuna do Ceará; Almanaque do Ceará.