Apresentação.
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| Mapa de 1818 |
O Esboço Histórico de Trairi chega ao seu segundo volume após exaustivas pesquisas que se prolongaram pacientemente nos últimos anos. Por se tratar de um século distante, com fontes resguardadas por documentos oficiais, foi um trabalho cauteloso, em meio a uma série de dificuldades, como os acessos aos documentos mal conservados, alguns proibidos de manuseios; indisposição de servidores em procurar os acervos desejados e os riscos de saúde. Afinal, imagine folhear papeis de 1863 sem a utilização de máscaras e de luvas. Foi assim que, inocentemente, começamos os trabalhos, afinal a maioria dos que nos atenderam também não fazia uso dos equipamentos preventivos. Só depois de alertas sobre bactérias, e suas consequências mortais, passamos a nos prevenir. Enfim, escapamos.
Capítulo 1. Século XIX .
1.1. Ceará. Aspectos Políticos.
Após a subordinação a Pernambuco,
o Ceará deixava de ser governado por capitães-mores. Sua administração estava a
cargo de governadores nomeados pela Coroa, a quem passou a submeter-se,
tratando a sua relação econômica diretamente com a metrópole em forma unitária,
ficando as províncias com autonomia em gestões, como a financeira. Foram
criadas as Assembleias Legislativas Provinciais, que eram submetidas a Ato
Adicional com a prerrogativa de fazer leis sujeitas à sanção do presidente da
Província, que era, assim como seus secretários, nomeado pelo imperador.
A partir de 1834, após a
tentativa de independência do Nordeste através da Confederação do Equador, com
a nomeação de José Martiniano de Alencar presidente da província, esboçou-se a
criação de partidos políticos. De origem liberal, mas com governança rígida, o
executivo logo ganhou oposição de grupos coronelísticos do interior, que, na
capital, possuíam expressão na imprensa a partir do surgimento do jornal Pedro
II (1838), de Miguel Fernandes Vieira, cuja tradicional família dos Inhamuns
liderou os conservadores e chegou ao poder.
Após série de embates, com os lados
políticos (liberais e conservadores, com sua tendências) se confrontando e
alternando no poder, veio a Proclamação da República (15/11/1889) e os governos
estaduais foram obrigados a dissolver as câmaras municipais em obediência ao
Decreto n° 107, de 30 de dezembro de 1889, assinado pelo presidente Deodoro da
Fonseca. Durante o Governo Provisório, os vereadores seriam indicados de acordo
com a posição social, renda e posses. Ou seja, os coronéis fiscalizariam o Executivo,
na prática a eles próprios, pois assumiriam em forma de revezamento.
No Ceará, o então governador, o
primeiro do período republicano, aliado de Deodoro e igualmente militar, coronel
Luís Antônio Ferraz, assim com os demais do Brasil, pôs em prática os Conselhos
de Intendência Municipal, indicando os seus cinco membros, sendo um deles o
presidente, eleito na primeira sessão de cada mês. Foi o caso de Trairi, cuja
sede se encontrava em pleno de crescimento e o município em processo de mudança
de lideranças.
Isso em meio a paixões políticas
intensas, bajulações aos presidentes (governadores), assaltos e crimes por
bandos de prepotentes acompanhados por séquitos. Esse regime durou apenas dois
anos e meio, findando em 12 de julho de 1892.
1.1.2. Ceará. Os primeiros
governantes durante a monarquia. Sem juntas governativas.
Bernardo Manuel
O primeiro governador do Ceará foi
Bernardo Manuel de Vasconcelos (1799 - 1802), época em que Aracati era bem mais
rica que Fortaleza. Procurou superar entraves com Pernambuco, que o nomeou, referente
às exportações, conseguindo autonomia ao criar a Junta da Fazenda do Ceará.
Sua administração foi marcada por
fixação de povoações indígenas em vilas, ampliação de estradas, construção da
sede da alfândega em Aracati e pesquisas em laboratório de química sobre
minérios, como o salitre. Faleceu devido a diabete em pleno exercício do cargo
em 8 de novembro de 1802. Em vista da fatalidade, formou-se um governo
provisório pelo trio: Antônio Martins Ribeiro (vereador), Gregório José da
Silva Coutinho (ouvidor) e o capelão José Henrique Pereira.
João Carlos
João Carlos Augusto de Oeynhausen
assumiu o governo em 14 de novembro de 1803. Nomeado por Decreto Imperial e sem
interferência de Pernambuco. Denunciou o clima de terror no sertão em meio à
impunidade, reclamando de contingente ínfimo de soldados, com suas tropas em
estado de penúria, além de deserções por temor ao pior. Criou a Alfândega
Provisional em Fortaleza, obrigou o uso obrigatório da vacina contra a varíol; na agricultura priorizou o plantio da mandioca e sugeriu um cais no Mucuripe.
Deixou o governo em 14 de fevereiro de 1807.
Barba Alardo
Luiz Barba Alardo de Meneses tomou posse em 21 de junho de 1808, período da chegada do príncipe regente e família real ao Brasil. De imediato, tratou de romper o com o privilégio de Pernambuco no caso das exportações e descentralizar as operações no porto de Aracati, procurando negociar diretamente com os comerciantes de Portugal, inclusive pelo pequeno porto de Fortaleza na então Prainha, onde se construiu em seguida a Ponte Metálica.
No primeiro ano da gestão, 1808, o soberano, o rei, ordenou-lhe a exploração e envio de sal do Mundaú e das salinas do Cocó e de Mossoró para Pernambuco, e de lá para o Rio de Janeiro. Com certeza Trairi nada ganhou financeiramente com isso. Só rendia financeiramente quando havia negociação com o comprador de fora, porque a população local tinha acesso ao produto, seja naquela barra, seja no Lagamar do Sal.
Na sua administração foi feito o
segundo censo da história, contando o Ceará com 136.396 habitantes, contra 34.000 em 1775, ao passo que houve
forte avanço da pecuária e da agricultura, destacando-se o algodão, que foi
estimulada por Barba Alardo, e atraindo para Fortaleza muitos comerciantes
ingleses, surgindo então a Casa Ingleza, a primeira firma estrangeira do Ceará.
Barba Alardo fez um governo
bastante elogiado, entregando o cargo em 19 de novembro de 1811.
Governador Sampaio
Manuel Inácio de Sampaio assumiu
em 11 de março de 1812, ano no qual, a 2 de setembro, foi criada a Freguesia de
Trairi.
De estilo austero e militar, totalmente aliado
a Coroa, Antônio Sampaio foi comparado a um tirano. Reprimiu o movimento revolucionário emancipacionista
que originou, em 1817, a República de Pernambuco, influenciada pela Revolução
Francesa e pela independência dos Estados Unidos. No Ceará, começou no Crato,
vila influenciada pela capitania vizinha. Na ocasião, as reuniões eram
secretas, contando com as participações de comerciantes, militares, de padres
(José Martiniano de Alencar à frente) a seminaristas. Mas o capitão-mor Pereira
Filgueiras reprimiu e frustrou a expectativa do fim da monarquia no Ceará, fato
que não o impediu de tornar-se aliado dos Alencar sete anos depois durante a
Confederação do Equador.
Sampaio foi acusado de prender
Barbara de Alencar, mãe de Martiniano (futuro senador e presidente da
Província) e avó do escritor José de Alencar, num cubículo do Forte da
Assunção, o que, oficialmente, não foi provada essa detenção, tampouco
torturas.
Porém, no aspecto administrativo,
o seu governo visualizava a capital em vias de um projeto urbanístico. Para tal, levou ao Ceará o pernambucano Silva
Paulet a fim de dotar a cidade com uma projeção futurística, com ruas
simetricamente traçadas.
Concluiu as obras do antigo
Mercado da capital, introduziu o saneamento básico (apenas em poucas ruas da
pequena cidade), criou o Batalhão de Tropas, levou a tesouraria para Sobral,
Crato e Granja, dividindo a capitania em comarcas. Segundo arrolamento na sua
administração, o Ceará contava com 149.285 habitantes. Entregou o governo em 12
de janeiro de 1820.
1.1.3. Trairi no início do século
XIX
Após a fixação dos primeiros povoadores
brancos, como analisamos no volume anterior, com queda brusca da população
primitiva, indígena, o corpo político-administrativo de Trairi ficou enraizado
à Igreja Católica e à capitania de Pernambuco, com o seu capitão mor e seu bispo
tomando as decisões. Não foi a toa que, certamente, devido à origem da família,
o padre José Furtado de Mendonça permaneceu até o fim da vida na capela de
Nossa Senhora do Livramento, salvo algumas saídas extraordinárias, inclusive
como cura da Capela do Forte, em Fortaleza, anterior à atual.
Importante citarmos que, em 1805,
foi criado, sob orago de Nossa Senhora da Assunção, o curato amovível da
freguesia de Fortaleza, desmembrando-se de Aquiraz e da qual Trairi, no caso a
sua capela de Nossa Senhora do Livramento, pertencia, e cujo capelão era o
Reverendo Francisco Antônio Gusmão.
Sobre igrejas agregadas à freguesia
constavam a citada da Vila de Nossa Senhora da Assunção, Igreja do Rosário e a
Matriz de São José, em Fortaleza; São Francisco das Chagas (Canindé), Nossa
Senhora da Penha (Uruburetama) e Nossa Senhora da Soledade, no Siupé.
Enquanto Trairi era distrito de Fortaleza, possuiu um encarregado da instrução pública de Primeiras Letras (diretor escolar), Manoel Joaquim de Azevedo Braga, nomeado pelo presidente da Provícia Manuel Felizardo de Mello. E o Juiz de Paz antes de 1840, Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, escolhido através do voto, cargo instrumento de disputa entre os partidos políticos. Sobre a sua escolha, já naquele ano a imprensa anunciava ilegalidade durante a eleição para a sucessão e em consequência foi extinto do Distrito de Paz. Mas a Lei n° 253, de 19 de novembro de 1842, o restaurou. Em 1847, o Juiz de Paz era Manoel Francisco Pereira Junior, aos 30 anos, ou seja, um jovem coronel de casa.
Posteriormente, foi criada, a 21
de outubro de 1852, a Comarca de Itapipoca (Imperatriz), sendo Trairi e Mundaú
seus distritos. Mundaú que se tornaria Distrito de Paz por força do Projeto n°
29, de 19 de agosto de 1857, da Assembleia Provincial, ligado à Itapipoca, sua
data comemorativa. Ressalte-se a isso a importância do seu porto como destacado
entreposto comercial e de transporte por estar na rota da Companhia Maranhense (de navegação). Em vista dessa data histórica, em 1957 comemorou-se com
entusiasmo o seu centenário, a ponto de destaque pela imprensa da capital.
Já na área educacional, época em que só havia ensino primário, e para homens, o instrutor público Manoel Ferreira Sambaíba permaneceu no cargo entre 1858 e 1862, quando foi sustituído interinamente por Raimundo Xavier de Souza até a chegada de Francisco José de Souza. Deram sequência, Antônio Dias Martins e José Henrique Teixeira de Andrade, que, em Fortaleza, foi considerado um dos mais antigos tipógrafos, testemunha, ou talvez personagem, dos primeiros jornais do Ceará.
Quanto à instrução feminina, houve um concurso em 1872, tornado-se Benvinda Xavier de Souza Cordeiro a primeira professora pública de Trairi, conforme portaria do dia 2 de maio daquele ano.
Capítulo 2. As famílias no século
XIX.
Trairi, em 1800, passava pela transição entre o padre Antônio José da Fonseca, que se encontrava à frente da capela, existente ao redor dela um pequeno povoado com casebres e sem traçado de ruas nem ordem, desde a enfermidade do padre José Furtado de Mendonça (1798), ao padre Francisco Antônio da Silva (1801).
Viviam em seu território, com
seus escravos, com os índios originários já em processo de extinção, mas com a
crescente população miscigenada (parda) e sem voz, os Dormond, Vicente Guerra,
Ferreira Chaves e Rolim de Moura, vinculados aos Furtado de Mendonça; Souza
Machado, Ferreira da Cunha, Teixeira da Costa, Castro Moura, Francisco Braga, Martins
dos Santos, Tabosa Braga, Xavier de Souza, Francisco Pereira, Costa Araújo, Pinto
Damasceno, Bezerra de Menezes e os Barbosa de Amorim. Mais afastados, mas dentro da subordinação a
Trairi, os Moreira de Souza (Braga), Ponte Franco, Barroso de Souza, (Camurupim
e Curral Grande), e os Ferreira Pinto (Camurupim, Passagem do Tigre e depois
sede de Trairi), na ribeira do Curu, famílias que controlariam politicamente
Trairi e Paracuru.
Após a proclamação da República
do Equador, mais uma tentativa de instalação da República no Nordeste, em 1824,
chegaram de Pernambuco e de Portugal famílias que contribuíram com o
crescimento econômico local, com suas fazendas rentáveis, destacando-se Tolentino
Chaves e Ribeiro. Nesse período, exatamente em 1833, era criada a cadeira das
primeiras letras em Trairi, masculinas, a fim de um mínimo de formação para
futura efetivação militar. Apenas em 1856 foram convocadas as cadeiras de
primeiras letras normais, civis, assumindo Benedicto Luiz de Vasconcellos.
A partir da década de 1840, entre
outras famílias, Pereira de Souza, Oliveira Castro, Paixão, Dias Martins, Ferreira,
Lopes de Castro, Lopes da Cunha, Galdino da Silva, Thomaz da Cunha, Vitoriano, Soares
Almeida, Gangorra, Carneiro, Carneiro da Cunha, Carneiro de Azevedo, Izaías de Souza, Silva, Costa
Veras, Leitão, Coelho, Pires Chaves, Thomé de Oliveira (Rola), Nascimento, Nascimnto "Cazuza¨, Gonçalves de Aguiar, Souza de Oliveira, Neri, Rodrigues, Freitas
Guimarães, Salles, Felix dos Reis, Bezerra de Vasconcelos, Felix Nepomuceno, Albuquerque,
Abreu, Monteiro da Silva, Prazeres, Santos Mello, Pereira da Silva e Francisco
de Moura (João Verônica), responsável pelo erguimento da sequência de casas de
tijolos que deram surgimento a atual sede de Trairi. Depois da metade da
década, Moreira Simões (Granja)/Ribeiro da Cunha, Barroso, Azevedo e Lucas, que
por décadas travaram disputas políticas.
Obviamente havia famílias
autenticamente trairienses, algumas compostas por brancos, descendentes de
portugueses, exploradoras dos portos e das salinas, mas a maioria formada por
pessoas pardas, que viviam da agricultura de subsistência, destacadas apenas em
suas presenças religiosas, misturando-se a outras, de vida pacata e ordeira,
tais como: Lopes Machado, Menezes, Martins, Monteiro, Carvalho, Silveira, Chagas, Francisco da Costa, Gomes
da Silva, Magalhães, Ribeiro Barroso, Tamboril, Timóteo, Simplício da Silva, Vieira, Freitas, Gadelha, Vieira de Azevedo, Soares, Leal,
Senna, Mulato, Gordiano, Santos, Goes, Januário da Silva (Oliveira Silva), Linhares, Santiago, Bonifácio,
Paiva, Lopes dos Reis (Firmo, negra), Vidal, Andrade, Pena e Pinto de
Oliveira.
2.1. Furtado de Mendonça,
Escorcio e Moura Rolim.
No início do século XIX residiam
em Trairi muitos parentes de dona Maria Furtado, no Córrego, onde até hoje seus
descendentes moram e labutam. Entre eles, Maria Furtado de Mendonça (IV),
casada com Ignacio Francisco Bastos da Fonseca, que possuía escravos.
Os Vicente Guerra eram os mais
atuantes no entorno da capela. Por exemplo, o casal Estêvão Vicente Guerra (V) Junior e Joanna Maria do Nascimento (casados a 14 de outubro de 1800), participou ativamente de celebrações na capela de
Nossa Senhora do Livramento. Apadrinhava e "casava" até seus escravos, e como
padrinhos dos seus filhos chefes de famílias abastadas como Anacleto de Castro
Moura.
Os Escorcio já haviam se retirado
quase totalmente do povoado, fixando-se em Fortaleza, Uruburetama e no norte do
Ceará, mas em Trairi resistiam os casais Gonçalo e Maria de Jesus; e Octaviano
e Maria Rosalina Escorcio, também presentes a atos religiosos. Esporadicamente,
outros da família apareciam para visitas, sempre retornando à capela da
matriarca Maria Furtado.
Já a família de Manoel de Moura
Rolim continuou, como era costume da época, usando o nome do patriarca e se casando
com parentes ou com membros de outras dominantes, como o casal Manoel de Moura
Rolim Neto e Maria de Castro Moura.
2.2. Ferreira da Cunha.
Parcela do crescimento de Trairi,
durante o século XIX, se deve ao casal Luiz Ferreira da Cunha (II) e Ana Donata
dos Santos, neta de Thomé de Souza Machado, casados na capela de Nossa Senhora
do Livramento em 21 de janeiro de 1793. Dona Ana Donata, era filha do capitão Manoel
Martins dos Santos e de Ana do Sacramento, também casados em Trairi.
Introduziu a produção e comércio
da carne de charque em Mundaú, mas, herdou de Pernambuco o cultivo da
cana-de-açúcar, incrementando a lavoura em toda a região, surgindo dessa bonança
a comunidade de Lavagem (futura Canaan), que se tornaria progressivo distrito,
até hoje morada dos seus descendentes.
O tenente (depois capitão) Luiz
Ferreira da Cunha (II), escravagista , teve um filho homônimo (III), Luiz
Ferreira da Cunha Junior nascido em 1813, que chegou a ser delegado e fez parte
da representação do Parazinho que votou pela criação da Vila de Trairi em 1863;
e José Ferreira da Cunha, que deram continuidade à economia dos engenhos e à expansão
do povoado e de comunidades vizinhas, diante do solo favorável às lavagens das
riquezas dos canaviais.
Ainda no Mundaú, José Ferreira da
Cunha se casou com Maria Bezerra de Menezes, tendo 22 filhos. Ela, filha de
Manoel Francisco Pereira. Criadores da Capela de São Miguel, certamente revelando
as recordações das origens portuguesas.
Esse novo templo foi reconstruído pelo português José Joaquim Carneiro,
pois o antigo foi tragado pelo avanço do mar junto com as outras igrejinhas,
São João e São Sebastião.
2.3. Castro Moura.
Os Moura de Trairi e do Vale do
Curu têm origem portuguesa fixada em Pernambuco a partir do matrimônio de D.
Fellipe de Moura (Portugal) com Genebra de Albuquerque, filha de Jerônimo de
Albuquerque, conquistador português, fundador de Natal, e que provavelmente
pisou em solo de Trairi quando se dirigia ao Maranhão em 1612/13.
Os irmãos Antônio de Castro Moura, casado com Anna Thereza de Moura, e Anacleto de Castro Moura, escravagistas, filhos de Francisco de Castro Moura, surgem como os primeiros da família a residir em Trairi, no final do século XVIII.
Anacleto, casado com
Maria Manoela de Andrade Moura. Entre os filhos de Antônio, Ignacio de Castro Moura, Francisco
de Castro Moura (II), casado com Anna Thereza de Jesus, por sua vez pais de
Antônio de Castro Moura (II), nascido em 1821; Joaquim de Castro Moura Rolim,
casado com Anna Pereira Thereza Pereira; e Agostinho de Castro Moura, casado em 1831 com sua prima, Maria Angélica de Jesus.
Em 1841, repercutiu dolorosamente
o assassinato, em Fortaleza, de João Facundo de Castro Menezes (Major Facundo),
a 8 de dezembro, vice-presidente da Província, que, no que pese seu nobre
cargo, era o chefe do Partido Liberal, de oposição ao Partido Conservador, do
presidente, brigadeiro José Joaquim Coelho, o Barão de Vitória, cuja esposa foi
acusada de tramar a vida do Major.
A província vivia uma crise
política, com brigas e acusações que faziam crer numa tragédia a qualquer
momento, o que acabou ocorrendo. Das três versões sobre o atentado, uma
respingou em Trairi, notadamente na família Castro Moura. Embora não provada a
acusação, assim como nenhuma versão, Major Facundo teria sido morto por conta
de ter usado a sua influência para inocentar a esposa de Ignacio de Castro
Moura, supostamente assassinado por seu escravo a mando da companheira por ato
de vingança. Em resposta, os irmãos Antônio (II) e Agostinho teriam contratado
um pistoleiro que, com dois tiros certeiros de bacamarte na cabeça, ceifou a
vida do político, parente distante dos Castro Moura. Em consequência, a Rua da
Palma passou a se chamar rua Major Facundo.
Assim se manifestou o então
presidente da Província, José Joaquim Coelho, a respeito do julgamento da
questão do assassinato de Ignacio de Castro Moura, ocorrido um dia após o
veredito judicial:
Em fins do ano passado, uma mulher do
Trahiry chamada Anna Joaquina da Conceição mandou matar o marido, Ignacio de
Castro Moura por um mulato seu escravo chamado Lauriano, com quem ela vivia em
concubinato. Os irmãos do morto prometeram vingar-se da assassina e, saindo ela
criminosa, veio para aqui remetida e esteve reclusa na casa de correição desta cidade.
Antônio Barroso de Souza, homem
preponderante e domiciliado no Curu e muito amigo do falecido Moura,
declarou-se a favor da viúva e fez sabe a favor de Major Facundo, que se esta
não saísse absolvida não contasse mais com o apoio e serviços que costumava
pregar ao seu partido.
Isto explica os esforços que certa gente
principiou a fazer pelo livramento da mencionada Anna Joaquina da Conceição.
Foi o júri convocado primeiramente para maio
e depois para junho do corrente ano pelo Juiz de Direito, que então era o Dr.
João Paulo de Miranda. Mas alguns fatos conscienciosos antes quiseram
sujeitar-se à multa da Lei do que concorreram, ainda que indiretamente, coma
sua presença, para a absolvição da ré, deixando de comparecerem, pelo que não
houve sessão nos primeiros dois referidos meses.
Novo júri foi convocado para o mês de agosto
pelo Juiz de Direito interino, José Joaquim da Silva Braga, porém, conhecendo
eu que não se tendo cumprindo regularmente a disposição do art. 31do Cod do
Proc,. Achava-se o Tribunal viciado em sua organização primordial, podendo daí
resultar a nulidade de todos os seus atos, suspendi a sessão, mandando executar
bem e devidamente o sobredito artigo.
Sanada a irregularidade, passado algum
tempo, convocou-se pela quarta vez o júri para o 1° so corrente. Coube à ré em
questão ser julgada no dia 7. E sorteando-se o conselho que havia de julgá-la,
saiu esse composto de dois juízes indiferentes e de dez conhecidamente
favoráveis à criminosa, e entre estes o Major Facundo. O que assim aconteceu já
porque advogado usou largamente a faculdade de recusar, repelindo todas as pessoas
que conhecia menos pretensas a favorecer
ema sua cliente, e já mesmo porque o Tribunal composto por grande número de
amigos do Major João Facundo, e por isso sobre eles mais repetidas vezes recaia
a sorte.
Pela composição do conselho, foi a todos
patente qual seria a sua decisão. E com efeito, retirando-se ele, depois dos
debates, para deliberar não tardou a dar sentença absolutória da ré e do seu
escravo, cúmplice criminoso no mesmo processo, sentença esta que foi lida pelo
próprio João Facundo na qualidade de presidente do conselho.
Os irmãos do finado Moura, que assistindo a
sessão tinham visto o empenho e esforços empregados para a absolvição da
cunhada, retiraram-se da sala dando mostras de profundo ressentimento. Sua
indignação, até aí legítima, foi partilhada por todos os homens de bem, que
viram naquele livramento mais um prêmio animador do crime, mais uma ofensa
clamorosa à Justiça já entre nós tão profunda.
Foi tão veementemente desgosto aparecido
entre as melhores pessoas da cidade que o promotor, Ângelo Antônio da
Espectação Mendonça, como que corrido da espécie de convivência, que tinha
mostrado no júri, e que lhe exprobava, dirigiu ao Juiz de Direito, que
atualmente é o Dr. Miguel Fernandes Vieira, a carta da cópia n° 3.
2.4. Barbosa de Amorim.
Os Barbosa de Amorim são oriundos
da freguesia de São Nicolau de Alexandre, arquipélago de Braga, Portugal, onde nasceu
João Barbosa de Amorim, casado com Maria Rodrigues da Costa. Do casal, nasceu
Luiz Barbosa de Amorim, que se casou, em 1775, no Siupé, com Ignacia Maria de
Jesus.
Naquele povoado, a 27 de janeiro
de 1780, nasceu o filho de Luiz: Alexandre Barbosa de Amorim, que foi o
primeiro a residir em Trairi com a esposa Maria Vivência de Jesus. Entre os
filhos do capitão estão: Luiz Barbosa de Amorim (II), nascido a 11/11/1814, que esposou Francisca Thomé; Francisco Barbosa de Amorim, Manoel Barbosa de Amorim e o homônimo (II), casado
com dona Maria de Sant’Anna de Amorim. Trairienses e escravagistas.
Manoel Barbosa de Amorim, muito
respeitado em Trairi, tinha como esposa Bernarda Bezerra de Menezes, irmã de
Maria, casada com José Ferreira da Cunha, filhas de Manoel Francisco Pereira (Junior)
e de Clarinda Maria do Espírito Santo. Anna Thereza, filha do casal, casou-se
com Manoel Teixeira da Costa (II) no dia 3 de fevereiro de 1866, ele de forte
laço de amizade com a família e viúvo de Delfina Romana do Sacramento.
Já outro filho do casal (Manoel/Benarda), André
Barbosa de Amorim era casado com Francisca Teixeira da Costa, irmã de Manoel Teixeira
da Costa, ou seja, com elevado grau de parentesco. Entre os filhos, Alexandre
Barbosa de Amorim (II), o Alexandre Muribeca, que se casou em 31 de janeiro de
1875, pelo primeiro pároco da Matriz de Nossa Senhora do Livramento, Francisco
José da Silva Carvalho, com Antônia Tolentino Chaves, sua prima. Foi vereador a
partir de 1880. Esse casal viveu no povoado de Muribeca.
Viúvo, André se casou com Maria
da Conceição de Jesus no dia 26 de novembro de 1872. Ela, filha de Antônio de
Souza Machado e bisneta de Thomaz de Souza Machado, que, de Pernambuco, chegou
a Trairi, com a esposa, Anna do Sacramento, no século XVIII. O coronel foi
vereador a partir de 1875 até o seu falecimento em 1888.
Em 1889, Alexandre Muribeca, João
Barbosa de Amorim e mais oito pessoas foram absolvidos, por júri popular, da
acusação de tentarem contra a vida do comerciante do porto de Flecheiras,
Sebastião Carneiro de Azevedo, vereador veterano de Trairi, presidente do
legislativo várias vezes, o qual foi espancado com golpes de facão e ferido à
bala no ombro no ano anterior. Na época, os Barbosa estavam com os liberais e
Sebastião Azevedo com os conservadores.
Com o passar dos anos, as novas
gerações perpetuaram os nomes primitivos.
2.5. Souza Machado.
A origem dos Souza Machado, por ser bem antiga, está descrita no primeiro volume. Porém, destacava-se, no início do século XIX, Thomé de Souza Machado (II), casado com Rosa Maria dos Santos, residentes no Sítio Palma, em Trairi. Ao contrário da maioria dos infelizes do povoado, seus escravos eram da Guiné. Foi o genitor de Thomé (III) e Thomaz de Souza de Souza Machado, esposo de Ana Joaquina do Espírito Santo em 1939. Deixaram enorme descendência. Destacamos Antônio e seu irmão, Thomaz de Souza Machado (II). Por sua vez, Antônio de Souza Machado, subdelegado, casado com Feliciana Ignacia de Jesus, pais de Luiz de Sousa Machado (Tio Lulu), de Antônio de Souza Machado (II), de Maria da Conceição de Jesus, segunda esposa de André Barbosa de Amorim, moradores do Genipapeiro.
2.6. Teixeira da Costa.
Família de origem direta de Dona Maria Furtado de Mendonça. Estêvão Vicente Guerra Junior e Joanna Maria do Nascimento tiveram o segundo, dos quatro filhos, chamado Gabriel Teixeira da Costa, nascido em Trairi a 15 de abril de 1774 e casado com Thereza Caetana, com quem teve os filhos Francisco, Maria do Carmo, Maria Teixeira da Costa e Joaquim Teixeira da Costa.
O primeiro, nascido em Amontada em 1797, casou-se com Catharina de Jesus Maria, nascendo nove filhos. A mais velha, Joanna, casou-se , no dia 8 de outubro de 1839, com o fazendeiro Nicolau Tolentino Chaves, filho do capitão espanhol João Lourenço Marques, e dali dez crias.
Manoel Teixeira da Costa (Trairi, 18/5/1835), o quarto filho de Francisco/Catharina enviuvou de Delfina Romana do Sacramento, deixando dois filhos. Em 3 de fevereiro de 1866, casou com Anna Thereza Barbosa, filha de Manoel Barbosa de Amorim e de Bernarda Bezerra de Menezes. Entre os filhos do casal, Manoel Teixeira da Costa (II), nascido em 1873, que, além de vereador, foi famoso tabelião de Trairi, esposo de Neomézia Moreira Teixeira, filha de dona Josefa Moreira, portanto enteada de José Moreira Simões (Granja). Manoel Teixeira (II), falecido a 28/03/1943, aos 70 anos, patrono do logradouro central da atual sede do município; e Dona Neomézia a 12/02/1948, aos 80 anos. A filha, Laura Teixeira casou com o comerciante Carlos Rodrigues Almeida, de Mundaú.
A sétima filha de Francisco e Catharina, Thereza de Jesus (Trairi, 3/9/1842), casou, em 7 de outubro de 1863, com o capitão Antônio Dias Martins, viúvo. Pais do famoso poeta Álvaro Martins.
2.7. Francisco
Pereira
Família portuguesa de Lisboa, onde nasceu o seu patriarca, Manoel Francisco Pereira, que, no Brasil, casou-se com Maria da Encarnação de Menezes em 25 de maio de 1809 em Amontada, passando a morar em Sobral e Trairi. O casal teve três filhos que participaram ativamente dos acontecimentos relevantes de Trairi: Manoel Junior, Izaías e José, além da filhas Maria Bezerra de Menezes (1810), Mariana Messias de Menezes (1811), Ana Bezerra de Menezes (1812), Bernarda Bezerra de Menezes (1814), Maria Theotonia Pereira (1820) e Luiza Maria da Encarnação (1824).
Manoel Francisco Pereira Junior
nasceu em Sobral a 2 de fevereiro de 1817, casando em Trairi com Clarinda Maria
do Espírito Santo. Viúvo, o major casou-se a 20 de outubro de 1832 com
Florisminda Xavier de Souza, filha do amigo da família, Francisco Xavier de
Souza. Foi o primeiro juiz de fato de Trairi, além de vereador em 1877. É de sua descendência a historiadora Maria Pia de
Salles Paixão.
Izaías
Francisco Pereira (de 1822) era casado com Delfina Maria do Livramento. Entre seus filhos, Izaías Francisco Pereira
(II), casado com Maria Pereira da Glória. Na época em que exerceu o cargo de
subdelegado foi acusado de arbitrariedades. Nomeado primeiro delegado de Trairi
a partir de 1874, como Vila de Nossa Senhora do Livramento, além de vereador
por longo período.
José Francisco Pereira (Tio Cazuza, nascido em 1818)
tinha como esposa Joana Baptista de Jesus (Tia Joaninha), sua prima. Viúvo,
casou-se com Clarinda Francisca da Conceição.
2.8. Xavier de Souza
Francisco Xavier de Souza,
nascido na atual Amontada em 14 de outubro de 1804, deixou vasta contribuição na transformação
de Trairi. Foram décadas dedicadas ao trabalho braçal em suas terras, no
Estrela e Ferrão, e de contribuição com a Igreja de Nossa Senhora do
Livramento, da qual foi assíduo fiel. Sua mãe, Maria Messias de Menezes, era prima
de dona Ana Donata, esposa de Luiz Ferreira da Cunha.
Em 20 de outubro de 1832 ocorreu seu o primeiro
casamento, com Josefa Angélica dos Santos, nascendo oito filhos, que viveram na
antiga residência da família, a primeira de alvenaria, na Rua de Baixo (atual Furtunato
Barroso), já demolida. Dos quais, nasceu,
a 10 de julho de 1836, a filha Florisminda, e a 16 de janeiro de 1843,
Raimundo, o único homem, uma vez que o outro, Miguel (1841), falecera.
Filhos bastante
unidos, Florisminda, casada com Manoel Francisco Pereira Junior, e Raimundo, de notória presença, envolvidos em cenários
históricos do povoado, depois Vila, seja na vida comunitária, na religião
católica, como nas decisões políticas que fizeram história. Outra filha, Josefa
(D. Cazuza) casou com o político e secretário da Câmara de Vereadores Francisco
Ribeiro da Cunha no dia 5 de maio de 1880, indo morar em Itapipoca, onde Chico
Ribeiro trabalhou com o promotor e o juiz da Comarca Augusto e Carlyle Dias
Martins, pai e filho. Maria Angélica de Jesus completava os filhos.
Francisco Xavier de Souza formou matrimônio pela segunda vez em 1847. Com Francisca da Cunha Xavier (Mãe Chiquinha), famosa parteira e sua companheira extraconjugal, teve o filho Francisco Xavier de Paulo de Souza, e três filhas: Francisca (Chicuta Xavieir), Ana Xavier e Benvinda.
Benvinda se casou, em 20 de julho de 1870, com Furtunato Barroso Cordeiro, filho de Francisco Alves Barroso e sobrinho de Antônio Barroso de Souza (Curral Grande). Dona Benvinda Xavier de Souza Cordeiro foi a primeira professora oficial de Trairi, afinal registros oficiais a citam como professora em 1877, durante o governo estadual de Conselheiro Estellita.
Além de subdelegado, Francisco Xavier de Souza era pessoa rica, possuidor de posses, e ao mesmo tempo não negava ter casos
amorosos. Mas jamais abandonou os filhos, doando a cada casamento dos mesmos
considerável parte dos seus bens. Centenário, montava a cavalo e escrevia poesias. Morreu com mais de 105 anos.
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| Batistério de Luiza, filha de Fortunato Barroso e de Benvinda Xavier de Souza |
2.9. Tolentino Chaves
Nicolau Tolentino Chaves foi um
respeitado fazendeiro, proprietário de terras no Córrego da Onça, delegado, e, como todos os coronéis da sua época, de
descendência portuguesa. Filho de João Lourenço Marques e de Anna Duarte dos
Prazeres , casou, na Capela de Trairi, em 8 de outubro de 1839, com Joanna
Maria da Anunciação, filha de Francisco Teixeira da Costa e de Catarina de
Jesus Maria, com quem teve cinco filhos.
O mais velho, Paulino Tolentino
Chaves, vereador a partir de 1884, chegando, brevemente, a intendente (prefeito) na época dos conselhos
municipais, era casado com Rozalina Xavier de Souza (Tia Rosa), filha de
Francisco Xavier de Souza, não deixando descendência, porem criando dois
sobrinhos. Embora entre nós não se confirmando formação superior, Paulino
entendia de medicina, destacando-se em ortopedia, e atendendo enfermos sem
cobrar pela caridade. Comerciante, arrendava serviços públicos, como a
administração do Barracão, sendo que o retorno financeiro vinha da cobrança de
impostos aos açougueiros.
Já a filha Benvinda se casou, em
20 de julho de 1870, com Furtunato Barroso Cordeiro, filho de Francisco Alves
Barroso e sobrinho de Antônio Barroso de Souza (Curral Grande). Dona Benvinda
foi a primeira professora oficial de Trairi.
O mais novo, Francisco Tolentino Chaves (Chico Tolentino), foi um honrado servidor dos Correios, fazendo, a cavalo, a linha Trairi - Fortaleza - Trairi. Todo o povoado o coroou herói ao sobreviver a um assalto durante o seu trabalho, retornando para a sua terra, ferido, deitado no animal e segurando a mala de correspondências quando chegava o seu octogenário. E assim lhe foi dedicado, como patrono, o nome da rua Tolentino Chaves, antiga Rua da Boa Vista, onde o agente residia, na curva para a antiga ponte. Também denominada pelo povo como Rua dos Cururus, é a mais antiga do povoado, junto com a Rua de Baixo (Furtunato Barroso). Como o alto do rio era chamado de Boa Vista, entende-se que a "Rua dos Cururus" era a única via oriunda da Boa Vista.
Outro laço que vinculou a
família aos primeiros povoadores brancos de Trairi ocorreu em 25 de outubro de
1867, quando a filha de Nicolau, Modesta Tolentino Chaves, se casou com Luiz de
Souza Machado (Tio Lulu), praticamente o dono do Genipapeiro. Mas naquela
região, sua outra filha, Anna, conheceu e casou, em 25 de fevereiro de 1873,
com Luiz Alves da Silva, filho de José Alves da Silva e de Maria Rodrigues de
Jesus.
2.10. Francisco de Moura
João Francisco de Moura, branco,
provavelmente português, conhecido como João Verônica, chegou a Trairi por
volta de 1840. Casado com Rozalina de Oliveira Castro, deixou muitos
descendentes, sendo sua filha. Joanna, casada com Galdino Lopes de Castro,
fazendeiro de moagens de cana de açúcar, após a sua viuvez.
Mestre em construção e
comerciante de prata, João Verônica fez fortuna e deixou seu nome marcado pelas
obras de alvenaria na sede de Trairi.
2.11. Dias Martins
Antônio Dias Martins chegou em Trairi por volta de 1840 como alferes. Ao mesmo tempo notabilizou-se como comerciante tanto no povoado, onde residia, como em Mundaú, com suas embarcações (iates) para o fluxo de produtos locais, como o algodão, madeira, sal e charque. Em 1843, teve um filho, Pedro, que faleceu ainda bebê. E em seguida faleceu a esposa, Thereza. Esse choque, provocado devido às pestes de então, fez o marido voltar para Fortaleza, onde se ocupou na fiscalização da Alfândega e se casar com Francisca Xavier de Albuquerque, nascendo o filho homônimo, Junior (1852), e Amélia (1859).
Já como capitão, perde a segunda
esposa e retorna para Trairi, onde se casa com Thereza de Jesus, em 8 de
outubro de 1863, ela filha de Francisco Teixeira da Costa. Torna-se instrutor
de aulas, um dos primeiros professores do povoado. Do casal nasceram Augusto
(famoso Promotor de Justiça de Itapipoca), Maria Augusta, Amélia (casada com o
político Antônio Gomes Bezerra, de Pentecoste), Álvaro (o poeta) e
Francisco, médico. Com os filhos educados pelo professor José Joaquim Gouveia,
em Trairi, destacou-se por sua inteligência e interação com a sociedade, seja
com os coronéis, seja com os negros durante a campanha pela escravatura. Contudo, todos da família deixaram a Vila ainda no século XIX.
Antônio Dias Martins foi católico
praticante, protetor do patrimônio de Nossa Senhora do Livramento.
2.12. Galdino da Silva
Francisco Galdino da Silva, o Chico
Viturino, português, ao chegar a Trairi, por volta de 1857, se casou com Rita
Alves de Moura, mulata. Foi um dos primeiros comerciantes do povoado, com loja
em frente ao antigo mercado (antes do Barracão), atualmente na rua Manoel
Teixeira, quase esquina com Pe. Irineu Limaverde, depois aos cuidados do seu
genro, Francisco Januário da Silva (II). Em seguida, o imóvel passou para seu
irmão, e em seguida à filha (sobrinha do outro), Arabela, esposa de Cassimiro
de Souza Machado, descendente de Thomé de Souza Machado.
Com dona Rita, nasceram Francisca
Jozefa, nascida em 30 de junho de 1859, e Maria (Mãe Viturino), nascida em 14
de abril de 1861, ambas pardas. Após o falecimento da jovem esposa, sua filha Maria
passou a ser criada pelos padrinhos: Raimundo e Florisminda, filhos de
Francisco Xavier de Souza.
Em 1863, viúvo, Chico Viturino se
casou com Francisca Nunes da Silva, dona Quina, com quem teve cinco filhos.
Entre eles, dona Euclides, nascida em 31 de janeiro de 1865, que se casaria com
o coronel Chico Malaquias.
Francisco Galdino da Silva foi
vereador por doze anos, chegando a ser intendente no período de revezamentos
nos conselhos municipais.
2.13. Thomaz da Cunha
Célebre boticário de Trairi,
português chegado, após separação matrimonial em sua terra, na segunda metade
do século XIX. Conhecido como Marinheiro Cunha, comercializou em Mundaú na
época das Oficinas, partindo para a sede, onde montou a farmácia que socorreu e
salvou muitas vidas durante as pestes.
Em Flecheiras, tomou a frente do
porto, o qual administrou e enfrentou muitas dificuldades por conta de questões
politicas que extrapolavam os limites das leis. Apesar de ganhar muito
dinheiro, emprestava a fim de pagar os soldos dos militares que ali chegavam e
se isolavam durantes as ausências dos superiores. Cobrava não apenas de civis
como ao governo da província, seja por empréstimos os vendas fiadas.
Marinheiro Cunha, através do
telégrafo e de ofícios cobrava seus direitos nas páginas dos jornais. Por citar
nomes “intocáveis” escapou da morte pelo grupo de Antônio Barroso de Souza, que
embora mantendo-se distância fisicamente dos atos covardes, dava as ordens e
silenciava até a Igreja. Faleceu durante a procissão de Nossa Senhora do Livramento, da qual era devoto, no início
do século XX.
2.14. Januário da Silva
Família tradicional de Trairi,
onde surgiu a partir do casal Bernardo Marques da Silva e Felismina Maria de
Jesus, nascidos por volta de 1815. Entre seus filhos, Francisco Januário da
Silva, que teve um filho homônimo e outro com nome parecido: Francisco Januário
da Silva Irmão.
Francisco Januário da Silva (II) foi vereador e chegou a assumir a prefeitura; era esposo de dona Euclides Leopoldina, filha de Francisco Galdino da Silva (Chico
Viturino). Já Francisco Januário da Silva Irmão (Chico Malaquias) tinha como
esposa dona Luzia de Oliveira Castro.
João, filho de Francisco Januário da Silva (II), tão logo enviuvou de Juliana Angélica de Jesus, casou-se, em 1885, com a filha de João Verônica, Antônia Emília Moura. Possui enorme descendência.
2.15. Thomé de Oliveira (Rola)
Consta que, no Serrote da Rola, em Santana do Acaraú, o Frei Cristovam de Lisboa, de Portugal, província de Piedade, teria encontrado mina de prata. O franciscano esteve no norte do Ceará em missão apostólica em 1626 acompanhado de tapuias, fato que não o impediu de sofrer e resistir a ataques de nativos. Paira, porém, fato documental que prove a origem da família que adotou o nome Rola. Entretanto, em determinado período ela fixou-se entre a ribeira do rio Mundaú e seus pequenos afluentes na antiga Imperatriz, entre o Deserto e Trairi.
Manoel Thomé de Oliveira (1829 - 1883) dividia sua moradia entre o sítio Retiro e a sede de Trairi antes de 1859, onde lidava com engenhos. Casou com Maria Angélica de Jesus, , com quem teve os filhos Antônio (III, nascido em 1862) e Joaquim Thomé de Oliveira (de 02 de outubro de 1864), os primeiros a adotar o sobrenome Rola, provavelmente em homenagem à família primitiva de Portugal.
Em 1883, Antônio se casou, no sítio Retiro, onde todos nasceram, com sua prima Floriana Thomé de Oliveira, filha de Hilário Thomé de Oliveira (1830 - 1890) e de Maria Theotônia de Oliveira (1825 - 1905). Portanto, Manoel tinha o pai chamado Antônio e um irmão chamado Hilário, além outro irmão com o nome de Antônio (II), todos Thomé de Oliveira.
Manoel enviuvou e se casou com Rita Xavier de Souza (Dindinha), meia-irmã da anterior, filhas de Francisco Xavier de Souza e de Josepha Angélica dos Santos.
Os filhos de Manoel Thomé de Oliveira com D. Dindinha, Magno, Francisco, João, José, Antero e Maria também passaram a adotar o outro nome, de modo que a partir da geração seguinte a família confirmou no registro Rola desde o nascimento.
Já José Thomé de Oliveira Rola (José Rola ou Zeca), nascido no sítio Retiro, a 12 de maio de 1867, partiu para Fortaleza jovem e ali trabalhou como caixeiro (comerciário), conseguindo alçar voo que, para a época, só era possível com muito trabalho, competência e simpatia. Foi leiloeiro, corretor, comerciante e industrial, fundando com o irmão Chico a empresa Rola, Irmão & Companhia. Faleceu em Fortaleza em 1 de abril de 1933.
Escreveu o historiador
Abelardo Montenegro sobre o trairiense:
José Rola era um espírito progressista e inovador.
Foi ele quem rompeu a rotina dos lustres, iluminando os seu estabelecimento
com luz elétrica. Foi ele quem inaugurou, antes do Estado, uma rede particular
de esgotos, aproveitando certo trecho da Praça do Ferreira. Foi ele quem
introduziu o mobiliário de cores, quebrando a monocromia do preto. Foi ele quem
terminou com o predomínio dos quiosques, abrindo casas confortáveis para a
freguesia. Foi ele quem construiu o Pavilhão Atlântico para abrigo dos que
embarcavam e desembarcavam. Foi ele quem se adiantou ao uso caseiro dos
ventiladores e espelhos de louça e vidro.
Em sociedade com seu genro, Augusto Fiuza Pequeno, fundou, onde hoje se localiza o ed. Granito, na Praça do Ferreira, o Maison Art -Nouveau, misto de restaurante e café, onde abrigaria o Cine Di Maio, do italiano Victor Di Maio, o que lhe influenciou a abriu a sua sala de cinema, o Cineteatro Polytheama, em 1911, atualmente localização do Ed. e Cineteatro São Luiz. Casado com Semiramis de Oliveira Rola em 12 de maio de 1888. Faleceu em Fortaleza em 1 de abril de 1933, deixando cinco filhos: Lurdinha, Ninon, Laura, Carlos e Renato de Oliveira Rola. Eis a nota da sua MISSA DA ESPERANÇA, ocorida na Igreja do Carmo a 7 de abril de 1933:
Outro filho de Manoel, João Thomé de Oliveira (Joca Rola), nascido em Trairi a 24 de março de 1870, partiu jovem, com o meio-irmão Antônio (Magro Rola), para trabalhar nas empresas do sogro na Amazônia e acabou participando da Revolução Acreana como coronel. Foi no seu seringal, Benfica, que o coronel gaúcho Plácido de Castro, viajando a cavalo, foi vítima de uma emboscada à balas, às 8horas de 9 de agosto de 1908, sendo socorrido por João Rola em sua residência, onde faleceu dois dias depois.
Magro Rola, morador de Itapipoca e de Uruburetama, também foi herói da Revolução Acreana, destacando-se, em 1902, como tenente-comandante do acampamento de Missão. Deixou dezessete documentos que relatam o seu trabalho durante os combates no Norte. O acervo foi enviado, em 1948, para o Governo do Acre.
2.16. Moreira Simões Granja
Família portuguesa oriunda do arquipélago de Açores e que teve como patriarca, em Granja CE, Manuel Moreira Simões. Seu bisneto, José Moreira Simões (III), alferes do
Estado Maior da Guarda Nacional, viúvo, chegou a Trairi provavelmente em 1868,
destacado no 4° Batalhão de Serviços, com uma de sua funções arregimentar
homens para a Guerra do Paraguai.
No final de 1873, foi promovido, pelo presidente da Província Francisco Teixeira de Sá, secretário da II
Companhia do mesmo batalhão para atuação em Paracuru, acompanhado por João
Barbosa de Amorim, Anastácio de Castro Moura e José Ferreira de Goes, chefiados
pelo capitão Ignacio Barroso Tabosa. Ali, conheceu Jozefa Moreira da Silva,
jovem e separada, mãe de Neomézia Moreira, que se tornaria esposa do tabelião
Manoel Teixeira da Costa (III). Casaram-se.
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| José Moreira Simões na Guarda Nacional |
De volta a Trairi, foi comerciante de pescado, dividindo com outros coronéis a administração do Barracão através de arremates de dízimos.
No dia 28/03/1884 anunciou nos
jornais que a partir daquela data assinaria com Granja (do município cearense e de sua origem pós Portugal), ou seja, chamar-se-ia José
Moreira Simões Granja.
No mesmo ano, estrava na política
já como presidente da Câmara de Vereadores, liderança que o acompanhou até
1889, preparando o português Antônio Ribeiro da Cunha, tabelião, e seus filhos
Raimundo e Francisco Ribeiro da Cunha (primeiro coletor) para a sua sucessão. Desse laço político, Raimundo Nonato Ribeiro (Mundoco Ribeiro), futuro
prefeito, se casaria com sua filha, Emília (Mirosa).
Naquele ano, foi nomeado tenente
ao mesmo tempo em que Francisco Ribeiro da Cunha subia para capitão.
Imediatamente, com a criação, pela Guarda Nacional, da 7° Companhia do 50°
Batalhão de Infantaria, tornou-se capitão.
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| Demonstrativo da Guarda Nacional |
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1887. Conselho de Qualificação da Guarda Nacional
2.17. Soares Almeida
Família oriunda da Província de
Beira, Portugal. O primeiro a adotar o nome foi Paio Guterres, após conquistar
o Castelo de Almeida, às margens do rio Coa. Mas o distinto comerciante
Bernardo Soares de Almeida nasceu no Porto a 13 de fevereiro de 1835, filho de
Antônio Soares e de dona Thereza Soares de Almeida.
Negociante em várias vilas e
povoados, chegou ao Mundaú em 1860 junto com outros portugueses, que seguiram
para Sobral (Linhares) e para a praia de Lagoinha. Foi ali onde se casou, a 18
de setembro de 1872, com Joanna Batista de Lima, que o acompanhou na sua viagem
de Cascavel, e com quem teve quatro filhas: Francisca (Chiquita), Antônia
(Totonha), Adelaide (Dondom) e Maria (Mariinha).
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| Casamento de Bernardo Soares Almeida e Joana Baptista Lima |
Uma das testemunhas do casamento
foi o seu amigo português Antônio Gomes de Oliveira, e do mesmo modo o casal
foi testemunha do outro no mesmo dia, sendo o padre de Paracuru quem realizou
os casamentos, Francisco José da Silva Carvalho, que dois anos após se tornaria
o primeiro pároco de Trairi.
Segundo Maria Pia, baseada no
diário do português, ao visitar o casal amigo de Portugal Galdino Francisco
Linhares/Ignez Jesuína Linhares, em Sobral, levou consigo seu filho, Januário
Figueira Linhares, que se casaria, na antiga capela de São Sebastião, no
Mundaú, com Alana de Freitas Linhares, a 20 de agosto de 1878.
Vereador de Trairi durante a
legislatura de 1892 a 1894, delegado eleitoral do Mundaú, Bernardo Soares de
Almeida pediu afastamento da função política. Preferiu o seu comércio no
povoado praiano, onde veio a falecer no dia 8 de abril de 1902. Portanto, aos
67 anos.
Capítulo 3. Curral Grande.
3.1. O domínio dos Moreira de
Souza e dos Coronéis Barroso.
No período em que Trairi se
vinculava apenas à Igreja, Curral Grande, um povoado à beira do Rio Curu, hoje
pertencente a Paracuru, destacou-se como centro das decisões políticas.
Trata-se de um sítio doado pelo capitão mor Pedro Barroso Valente de Souza e
sua esposa, Maria Moreira de Souza, mais 50 cabeças de gado, para se levantar
uma capela em devoção a Nossa Senhora dos Remédios, que não era a de Alto
Alegre (Paracuru).
Coube ao padre José Moreira de
Souza a tarefa da construção, em 1742, do templo, com o consentimento do Clero
e do Império, e ao mesmo tempo expandir a comunidade até a vizinha Camurupim.
Levantar uma capela a Nossa Senhora do nosso sítio do Curral Grande, na ribeira do
Curu, e da nossa fazenda doar-lhes os bens que necessário forem para o seu
patrimônio fazemos bastante em tudo nosso procurador o Reverendo Padre
José Moreira de Souza, a quem concedemos
todos poderes em direito concedidos para que em nosso nome possa alcançar
licença para o referido, e fazer qualquer escritura ou termos se necessário for em bem e segurança do
patrimônio da dita capela, fazendo deles doação e assinará por nós onde for necessário e para clareza esta de nossa letra e sinal hoje, o primeiro
de abril de 1742. (Pedro Barroso e Maria de Souza)
Pedro Barroso Valente (1688) era
natural da freguesia de São Vítor, arcebispado de Braga, Portugal. Foi casado
com Ana Ferreira da Cunha, que faleceu de parto no quarto filho em maio de
1730, irmã de Branca Dias da Cunha, ambas filhas do primeiro Luiz Ferreira da
Cunha, morador de Mundaú, para onde seguiu de Olinda. O casal teve entre os
filhos Elena Ferreira da Cunha (1726 - 1800), casada com o capitão Domingos
Francisco Braga, troncos dos Barroso e Braga em toda a Ribeira do Curu.
Viúvo, Pedro Barroso Valente
contraiu núpcias com Maria Moreira de Souza, natural de Olinda PE, filha do
capitão Francisco Moreira de Souza e de Mariana Lobo de Macedo. Um dos seus
filhos foi Pedro Barroso Valente de Souza. A filha do casal, Vicência Maria de
Jesus, teve um filho homônimo do seu pai. O major Pedro Barroso Valente de
Souza (II), nascido a 29 de julho de 1777, deixou descendência com o nome do
patriarca, tendo a família, escravagista, como Pedro Barroso de Souza Cordeiro,
dominando, em todos os sentidos, o destino de toda a Ribeira do Curu ao
adquirir dos descendentes de Maria Furtado de Mendonça sua herança na Fazenda
Camurupim, ao lado do Curral Grande. Parte da área, conhecida como Sítio
Rosário, ficou para a Santa, Nossa Senhora do Livramento, que infelizmente não
mais pertence a mesma, como sugeriu dona Maria Furtado de Mendonça, bem como a
Lagoa de Dentro.
Pedro Barroso Valente, o
primeiro, faleceu em 12 de outubro de 1773, deixando no testamento seus bens
para a esposa e todos os filhos, inclusive do primeiro matrimônio.
3.2. Antônio Barroso de Souza.
Mais um líder da casta do Curral
Grande e de origem de tradicional família portuguesa, conhecido como “Do Curu”,
o tenente coronel das Guardas Nacionais, Antônio Barroso de Souza (22/12/1799 -
08/05/1860), semianalfabeto e rigoroso nas atitudes, era casado com dona Luiza
Francisca de Avellar Braga, filha de Anastácio Francisco Braga e de Maria Luiza
de Santiago (primos), esta casada com doze anos, neta de Elena Ferreira da Cunha e
bisneta de Luiz Ferreira da Cunha, portanto originária de Trairi, dos
colonizadores brancos de Mundaú. Por sua, vez, tia de Antônio Tabosa Braga, o
Monsenhor Tabosa (1874 - 1935), vigário-geral da Arquidiocese de Fortaleza.
Ele, filho do capitão Ignacio
Barroso de Souza (31/08/1747) e de Jozefa Moreira de Souza (04/07/1762),
primos. Implacável nas suas tarefas militares, notabilizou-se pelo cerco ao
major Francisco Xavier Torres, preso com seus oficiais na Fazenda Caiçara, em
Baturité, no dia 19 de janeiro de 1841, após fuga de Sobral a 14 de dezembro de
1840 por questões políticas.
Conta Hugo Victor, brilhante historiador, sobre uma carta redigida por “Do Curu”, da sua fazenda no Cacimbão, ao Barão de Aratanha, dono da famosa firma Albano & Irmão:
Mas
Albanos. Faco esta pa lipedir tenha a bondade de espera mais pro seu pagamento
do meu mano pois já suponho estar vencida, pois ele tinha ido fertar abroca do
Carneiro para butar ceiscentos sacos de farinha que ten no Pará i encaminho
crebro hum braço, pois estou com afamilha a que tratanto deli, o compe Antonio
Deas escreveo Je Luis pra mandar um iati pa o Barroso, voceis inpeis com ele pa
ver siven pois logo que venha eu lá vou pa cumpri os tratos deli no mais pode
mandar as suas ordens a Seu. Muito obo. Casebão, 11 de janeiro de 60. Antonio Barroso de Souza.
3.3. Antônio Barroso de Souza (Junior)
(06/01/1827 - 25/05/1910)
Filho do homônimo, conhecido como “Curral
Grande”, onde nasceu, casou-se, em 21 de novembro de 1851, com sua prima,
Jozefa Francisca Braga (D. Cazuza), filha do tenente coronel Inocêncio
Francisco Braga (1801 - 1870) e de Margarida Moreira de Souza (1798 – 1848),
primos segundo. Político primeiramente filiado ao Partido Conservador do regime
provincial, ligado ao rei, e deputado provincial durante os biênios 1868/1869,
1876/1877, 1886/1887 e 1888/1889, mostrava-se, durante as sessões, contra
quaisquer decisões que favorecessem os escravos em caso de liberdade, uma vez
que era comerciante 06/01/1827 escravagista.
Considerado pessoa amável pelos
seus aliados em Fortaleza, vestindo-se elegantemente, era implacável e
perseguidor para com os que não seguiam a sua cartilha. Temido em Trairi e
Paracuru, a sua fama atraia os mais humildes, católicos, pagando-lhes batizados
e tornando-se o maior padrinho de toda a região da Ribeira do Curu. Por outro
lado, com bandos liderados pelo seu irmão, Tristão Barroso de Souza, e mais
tarde somado a seu filho fora do casamento, Liberato Barroso de Souza, invadia
fazendas, exigindo lealdade, sendo acusado por mortes jamais comprovadas pela
Justiça contra a sua pessoa.
Faleceu na sua fazenda, em Passagem
do Tigre (Paraipaba), no dia 25 de março de 1910. E seu corpo trasladado para o
cemitério Público de Trairi, onde o seu túmulo continua protegido por correntes.
3.4. Liberato Barroso
Major da Guarda Nacional,
Liberato Barroso de Souza, pardo, filho natural de Josepha Senhorinha de Azevedo, e assumido por Antônio Barroso de
Souza (Curral Grande), foi um personagem emblemático da família. Casou com a
jovem Paulina de Pontes Franco de Oliveira, filha do fazendeiro Henrique Luiz de Pontes Barreto e de Anna Joaquina Moreira, na então Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, Paracucu, em 16 de julho de 1870. Ela que, devido
ao temperamento compulsivo do marido e sua vida desordeira, voltou a morar com
os pais. Em 17 de março de 1874,
após visita amistosa há poucos dias, Liberato a assassinou friamente e ainda ameaçou
de morte a família do sogro. O instinto cruel e covarde do marido ceifou a vida
da jovem:
17 de março de 1874. Sítio Maleitas. Liberato
Barroso de Souza assassinou a mulher com três facadas. Essa infeliz tinha-se
recolhido a casa de seus pais desde algum tempo por não mais suportar a vida
desordenada do marido. Esse criminoso é sobrinho de Tristão Barroso, seu
companheiro de devassidões. Com ele havia estado preso por ferimentos graves, e
ainda não pode ser capturado, não obstante as diligências, de uma das quais foi
incumbido o major do corpo de polícia Prudente Gomes Brasil, o qual apenas pode
capturar a nove outros criminosos. (Relatório do Governo do Ceará)
Liberato Barroso passou um período recolhido nas fazendas dos pais, abrigando-se em Maranguape (Obs: Maria Pia cita Amazonas, mas depois diz que a segunda esposa se dirigiu para lá, ameaçada de morte pelo marido). Impune, continuou importunando os cidadãos de bem.
Antes, em 1873, ao lado seu tio Tristão e de José
Gabriel, penetrou na sede de Trairi “para roubar e assassinar o comerciante
português Joaquim Thomaz da Cunha (Marinheiro Cunha, boticário e agente
portuário de Flecheiras), que fugiu. Como não encontraram nada na loja,
atacaram o caixeiro e chibatearam Benedicto de Souza Lima. Fugiram para
Fortaleza para vender gado furtado” (A Reforma). No final daquele ano,
Marinheiro Cunha, porém, não escapou do espancamento por Manoel Joaquim
Americano, que resistiu à prisão. As barbáries do coronelismo mostravam o lado
cruel da história de Trairi.
Em Paracuru, continuou
frequentando a Igreja, alheia às arruaças dos fazendeiros, como em 1872,
padrinho de criança; e em 1874, pouco antes do assassinato, testemunha de casamento. Finalmente, em 1881,
após breve prisão, foi julgado e inocentado por unanimidade pelo júri popular
no Caso Paulina. Aliás, júri pressionado pela ameaça da mãe do réu (D. Cazuza),
que prometeu cortar a garganta de quem o condenasse. Ela que era presença certa
nas igrejas de Trairi e Alto Alegre (Paracaru), aos cuidados do padre Francisco
José da Silva Carvalho.
Em 10 de fevereiro de 1888 nasceu
seu filho, Antônio Barroso de Souza (Seutônio), com Raimunda Pinto Barroso (de Mundaú), sua
segunda esposa, com quem teve oito filhos. Seutônio estudou no Seminário da
Prainha durante três anos e foi destacado líder popular de Paracuru, igualmente
deputado como o avô. Casou duas vezes e teve oito filhos.
Chefe político representando a oligarquia familiar, Liberato Barroso morou um período em Mundaú (1900 - 1904), devido à militância e comércio no porto, onde foi padrinho de crianças, assim como em Canaan, retornando para Trairi até o seu falecimento. No terceiro casamento, com Raimunda Batista, teve onze filhos, segundo Maria Pia. Uma das filhas, Arminda, tornou-se militar e teria se destacado como a única cearense a participar da II Guerra Mundial. E, assim, acobertado por uma minoria abastada e dominante, pelo silêncio da Igreja, absolvido de mortes, chegou a prefeito de Trairi em 1914, como presidente da Câmara, época em que pertencia à Comarca de Itapipoca.
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| Com testemunha de José Simões Moreira (Granja), casamento de Liberato Barroso e Paulina |
Capítulo 4. Aspectos Econômicos.
Sabemos que durante o período
anterior, a capitania sofria, na ausência e desinteresse de Portugal, invasões
de europeus em buscas de suas riquezas. Nela aportavam muitos piratas, que
negociavam com índios e saiam carregados de algodão, bichos, âmbar, pimenta
malagueta e madeiras, como a tatagiba e a uburaquatiara, segundo os
especialistas “a melhor do país, por ser como damasco”. Sem falar ação
destruidora da própria metrópole, que assim agia no Brasil, principalmente na
Mata Atlântica.
Por sua vez, as concessões de
terras aos pernambucanos, descendentes dos portugueses que lutaram contra os
holandeses, expuseram um problema sério com esses índios. As aldeias com pelo
menos cem casais, assim como os missionários, de acordo com a Lei de 1700, já
tinham direito a boa porção de terras dentre os alvarás que regiam as
sesmarias. Em Trairi, as que se encaixaram nesse entendimento estavam nas
praias e às margens dos rios, ou seja, onde havia água para beber e perspectiva
econômica de sustento, a pesca.
Embora com parcela ínfima das
terras que historicamente lhes pertenciam, os índios sofreram perseguições,
ameaças e mortes brutais. Em meio à exposição de armas de fogo, eram obrigados
a abrir mão de áreas mais proveitosas à economia pelos invasores. Várias foram
as petições de protestos enviadas à Coroa pelos missionários solicitando
garantias de que não haveria quaisquer espólios de seus sítios pelos sesmeiros
brancos. Perderam a batalha.
Por outro lado, os poucos
registros de contatos entre índios e brancos em Trairi mostram alguns batizados
acompanhados do nome do dono, concluindo-se que os índios, a partir da chegada
dos fazendeiros, e os negros de sexo masculino eram escravizados certamente
para trabalho na agricultura. E embora os casos fossem corriqueiros, cruzamento
índio x branco, raramente os mamelucos eram batizados, demonstrando o lado
preconceituoso da parte europeia. Contudo, menos escondidos eram os casos dos
mulatos. Rapidamente a população de Trairi se tornava parda. Aos padres não
importavam as raças, se estavam misturadas registravam como pardas.
Infelizmente ser humano também
rendia dinheiro e fazia parte da economia, afinal gerou fortunas a muitos
cearenses. Navios negreiros cruzavam o nosso litoral, sempre se escondendo dos
ingleses, que vislumbravam o mercantilismo com o fortalecimento da máquina em
detrimento do setor primário. Africanos chegavam do seu continente - no caso
Trairi trazia a maioria de Angola, e eram comercializados com Pernambuco e a
capital, Rio de Janeiro.
Os jornais, sem distinção de
tendências políticas, registravam as ofertas de vendas (inclusive de
trairienses) e os anúncios de fugas de negros, fato que a sociedade aceitava
com naturalidade. Os infelizes eram separados das suas famílias, aos prantos, e
levados, por exemplo, pelo vapor “Feliz Empreza” (década de 1820) e por muitos
outros que o sucederam.
No início daquele século, o
principal porto da capitania era o de Aracati, onde chegavam os produtos de
Pernambuco. De lá, a condução em carros de boi e burros para Fortaleza, vilas e
povoações interioranas. Esse dilema das exportações incomodava e trava o
crescimento econômico, perdurando até o governo de Barba Alardo.
A partir da segunda metade do século
XVIII, a capitania do Ceará, no caso da pecuária, constituiu-se como um
entreposto do sistema comercial estabelecido pela Bahia e por Pernambuco.
Servia de via para a penetração do gado, em sua maioria pelo sertão sensível às
costumeiras secas, onde se fixava em enormes áreas planas, caatingas,
aproveitando-se os rios, aos cuidados dos sesmeiros portugueses e seus
descendentes oriundos daquelas capitanias, os fazendeiros que se obrigavam a
assumir as terras doadas sob pena de perdê-las.
A outra via era pelo litoral e
dali para uma pequena parte do interior, em especial a faixa do rio Jaguaribe,
onde o Ceará experimentou o seu primeiro apogeu econômico. Em segundo plano, a
bacia do rio Acaraú, com seu porto, central de distribuição das riquezas de Sobral
e daquele vale. E por fim os rios menores, interessando-nos o Trairi, também
chamado de Buriti, e o Mundaú, além do pequeno porto de Flecheiras, cujo nome
primitivo é Frexeiras. Nesses dois portos de Trairi, registrou-se que, em 1835,
o brigue inglês Maria Rainha da Escócia carregou tatajuba. O mesmo ocorrendo em
1847, o que evidencia a devastação da sua riqueza vegetal, uma madeira de alta
qualidade, resistente a cupins, oriunda de árvore de 15 a 25 metros.
Na ribeira dos seus rios, os
primeiros bois foram introduzidos por intermédio de Maria Furtado de Mendonça e
sua família, Dormond, Escócio e Moura, conforme tradição oral dos seus
descendentes segundo a qual, mesmo com as secas, em Trairi “sempre existiu
gado”.
E assim, com a fixação de
famílias brancas e um modesto apoio da colônia, a economia do Ceará sofreu um
processo de dinamização, não apenas com advento do charque, do setor pecuário,
mas sobretudo com o desenvolvimento da agricultura do algodão para exportação,
cuja produção seguia para Olinda e Recife, pagando frete e dependendo de
intermediários locais que levavam a sua parte financeira e dando poucos lucros
aos produtores cearenses. Por isso, os pernambucanos foram contra a emancipação
em 1799.
Consequentemente, a bonança algodoeira
da Serra da Uruburetama, de melhor qualidade, cujos introdutores foram
Francisco da Cunha Linhares, Januário de Albuquerque e Manoel Escócia Dormond (este neto do irmão, homônimo, de dona Maria
Furtado de Mendonça, tratado no volume anterior), incrementava safras que eram
embarcadas pelo porto do Acaraú, adotando a nova disposição de Lei. Para
comércio na província, porém, seguia por Trairi, o mais próximo e cujos portos
eram vias alternativas à ilegalidade. Esses fazendeiros, tendo em vista a
necessidade universal do que produziam, ganhavam notoriedade política, ganhando
patentes e fluidez de diálogos com os grandes centros administrativos e
econômicos.
Houve uma forte seca em 1845, causando
danos à produção. E para variar, no intuito de “resolver” o problema da fome, o
governo imperial incentivou a ida dos flagelados para a Amazônia, fato que
diminuiu a mão-de-obra local. Entretanto, o surto algodoeiro ocorreria no
período de 1860 - 1875, quando a indústria do produto na Inglaterra se
consolidou após a criação da máquina de descaroçamento.
Mas o Ceará já exportava para
aquele país desde 1809, destacando-se as cidades de Manchester e Liverpool.
Essa relação econômica e a necessidade de agilidade de todo o complexo de
venda, compra e chegada da mercadoria ao destino, fez com que as empresas
britânicas agendassem instalação na província.
Pensando no transporte da
produção agrícola da Serra da Uruburetama, através da Lei N° 24, de 24 de
outubro de 1849, Art. 1, o presidente da
Província, Fausto Augusto de Aguiar, anunciou a licitação para construção de
estrada Imperatriz (Itapipoca) a Mundaú, sendo o vencedor da licitação o major
José Carneiro da Cunha, português, construtor, administrador do porto do Mundaú,
proprietário de embarcações, e que respondia pela morte de Izaías Messias de Meneses por questões de terras.
No dia 24 de out 1850, a Câmara
de Imperatriz dispôs 500 mil réis para a construção, a sua parte, totalizando,
em 1859, 4 contos de reis pelos serviços.
O engenheiro da província, Adolfo Herbster, foi destacado para vistoriar
a obra em 1860, relatando a necessidade de construção de pontes e de aterros. A
verba necessária para os melhoramentos foi destinada ao construtor, mas a providência
do serviço novamente não se deu a contento. Em 1861, novo exame técnico, pelo
engenheiro Berthot, da estrada Itapipoca ao Retiro, e de lá ao Porto de Estivas
do Mundaú, cuja abertura estaria a cargo do citado José Joaquim Carneiro, que
recebeu, em 1862, um conto de reis para construí-la.
Os liberais questionaram a qualidade
das obras, “de má qualidade e muito aquém das despesas despendidas” (O
Cearense, 1862). Para o deputado Dr. Joaquim Antônio Alves Cordeiro a mesma
“não presta, não serve aos misteres que se tem em vista”. Além da reclamação de
a estrada ter sido construída até o Retiro e não pelas várzeas, por onde
chegaria mais rápido à praia.
Durante a "febre" do algodão, essa via de transporte levou a Trairi comerciantes de visão e, portanto, audaciosos. Um deles foi Jesuíno de Maria, natural do Arraial (Uruburetama), que ali se estabeleceu até 1876, quando mudou-se para Fortaleza, onde fundou a Casa J. Lopes, próspera firma de ferragens, com filiais no Rio de janeiro e no Recife.
Veio a grande seca e peste de 1877
- 1879, quando cerca de um terço da população cearense pereceu, e o setor sofreu
forte baixa, retomando, ainda mais dinâmico, não apenas à produção como aos
lucros, entre 1880 e 1885, período do plantio e comércio algodoeiro nas Lages,
a primeira indústria de Trairi.
Tal progresso econômico chamou a
atenção do inglês Henry Brockhurst, que ajudou a introduzir o transporte pesado
em trilhos, a célebre Estrada de Ferro de Baturité (EFB) em sociedade anônima
com os industriais e exportadores cearenses. Grandes armazéns e lojas surgiram
na Praia do Peixe (futura Praia de Iracema), em Fortaleza: Singlehust
(inglesa), Kalkmann & Sand (alemã), Boris Freres (francesa), Albano &
Irmão, Gradvohl e Barão de Ibiapaba, que também era político; além da primeira
fábrica de tecidos do Norte e Nordeste, Pompeu & Irmãos (1882), depois
denominada Fábrica Progresso, ao lado da Praça da Lagoinha, dos irmãos Thomaz e
Antônio Pompeu de Souza Brasil, em sociedade com o cunhado, o político Nogueira
Accioly.
Paralelo ao algodão, Trairi
desenvolveu, a partir da chegada dos Furtado de Mendonça, as culturas da
mandioca, batata doce, feijão, legumes e da cana-de-açúcar, esta ao longo dos lagamares
rumando para a Canabrava e na ribeira do Mundaú; do sal, que era enviado de
graça para Pernambuco e de lá para o Rio de Janeiro, endereçado ao rei; e obviamente
a modesta pecuária, do coco, da banana, do arroz e da pesca de subsistência.
Capítulo 5. Formação Administrativa.
5.1. Partidos Políticos.
Durante a conturbada fase
política da época, marcada por traições, o partido dominante, Carcará, do
Partido Conservador (ao qual pertenciam os coronéis de Trairi), liderado pelo
rico comerciante Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapina), do jornal A
Constituição, rompeu com os “caranguejos”, dos Fernandes Vieira, notadamente com
Miguel Fernandes Vieira, Chefe da Polícia (atualmente Secretário de Segurança)
desde 1843, presidente da Assembleia e dono do jornal Pedro II, alcançando a
maioria e o poder cearense após a retirada em protesto contra supostas fraudes
dos “chimangos”, do Partido Liberal, em 1860. Os conservadores, portanto,
venceram as eleições de 1852, 1856 e 1860 com facilidade.
5.2. Vila de Trairi. Instalação e
Extinção.
Durante os anos de hegemonia da
liderança de Barão de Ibiapaba, os “carcarás” marcaram, em edital de 28 de
agosto de 1863, através do seu representante maior no legislativo, José Nunes
de Melo (também chefe policial), a assembleia geral para eleições a deputado
provincial no dia 9 de setembro seguinte, no interior da antiga Catedral (Isso,
política no templo religioso). E para surpresa do grupo dominante, venceram os
liberais.
Trairi, que possuiu Juiz de Paz desde 1840, transferiu-se ao distrito (de Paz) de Parazinho (depois Paracuru), termo (subordinado) de Fortaleza,
a partir de 18 de março de 1842 (Ato Provincial que criou o distrito , teve como
delegados, além dos representantes da sede vizinha, Antônio Dias Martins,
Manoel Francisco Pereira, Luiz Ferreira da Cunha Junior, Manoel Ferreira da
Cunha e o capitão Antônio Barroso de Souza (Curral Grande), que fazia jogo
duplo, ora por Trairi, ora por Parazinho. Entretanto, a 19 de agosto de 1857, Trairi e Mundaú tornaram-se Distrito de Paz.
Nesse clima de confronto, após a
acirrada disputa de 1863, a Assembleia Provincial, de maioria conservadora até então,
a 12 de novembro, aprovou o Projeto n° 10, de autoria do deputado José Nunes de
Melo, aliado dos Fernandes Vieira, que originou a Lei Provincial n° 1068, sendo
o povoado de Trairi elevado a Vila, continuando a sede em Paracuru, ato
entendido pelos liberais como “escândalo político”, pois os novos deputados
ainda não haviam tomado posse.
Embora não saibamos em quem os
delegados em questão votaram, houve quem saiu premiado, caso do alferes Antônio
Dias Martins, que subiu de patente para capitão. O fato é que os liberais,
naquele ano, acabaram quebrando uma hegemonia conservadora de 14 anos.
Padre João Francisco Nepomuceno
Rocha, Reverendoda Igreja Nossa Senhora dos Remédios, do Alto Alegre do Parazinho
(Paracuru), não aceitando a mudança repentina, enviou ofícios para D. Luís,
primeiro Bispo do Ceará, denunciando as condições desfavoráveis para Trairi
tornar-se Vila. Mas Deus não lhe permitiu que chamasse Curral Grande, Antônio
Barroso de Souza (II), de "traidor". Menos de um ano depois, assinada a 10 de novembro
de 1864, a Resolução Provincial n° 1110 extinguiu a vila. E o padre-fundador de Paracuru faleceria no ano seguinte.
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| 1863. Padre de Paracuru condena vila em Trairi |
5.3. Vila pela segunda vez
Apenas em 27 de novembro de 1868,
através da Lei Provincial n° 1235, Trairi voltou à condição de vila, sendo
extinta, porém, no ano seguinte. Transferida, voltou a pertencer a Paracuru. Ou
seja, como da vez anterior, com sede em Paracuru, a funcionalidade da Vila não
existiu, apenas o nome no papel.
5.4. Terceira Vila: Livramento.
Assim, os liberais fortaleceram
suas bases em Paracuru e Padre Rocha comandando a capela de Nossa Senhora do
Livramento, que sempre sobressaiu sobre a outra, fundada por ele, até o seu
falecimento. Somente em 1874, pela Lei Provincial n° 1604, de 14 de agosto,
Trairi voltou à condição de Vila, mas como Livramento, com a
transferência da sede de Paracuru e da freguesia vizinha, incluindo o pároco
Francisco José da Silva Carvalho. Nesse ano, o capitão Antônio Dias Martins foi
mais uma vez nomeado instrutor de aulas, ou seja, secretário de educação de uma
vila onde as aulas eram ministradas nas salas das residências dos professores. E a Câmara, obviamente, presidida por Antônio Barroso de Souza (II).
Porém, chamar-se-ia novamente
Trairi conforme a Lei Provincial n° 1669, de 19/08/1875, independente, tendo
como distritos Mundaú e Paracuru, mas pertencendo à comarca de Itapipoca, fato
que não o levaria a um crescimento sólido, mesmo marcado pela fidelidade cada
maior à sua padroeira, por questões políticas e ao retorno das pestes e demais
consequências das secas.
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| Criação da Vila do Livramento |
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| Ao bispo, Pe. Francisco José aprova transferência. |
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| Ofício sobre sessão da Câmara da Vila do Livramento (07/09/1874) |
5.5. Câmara Municipal.
O parlamento trairiense funcionava em imóvel pertencente a Antônio Dias Martins, alugado, tendo como procurador Joaquim Thomaz da Cunha, imóvel comprado futuramente pelo tabelião e vereador Manoel Teixeira da Costa (III), coincidindo, atualmente, com a sede da Câmara de Vereadores de Trairi, ora prestes a transferência.
Para conter extravagâncias e a
corrupção, os presidentes do Ceará passaram a exigir mais em termos de
organização e lisura da Câmara Municipal de Trairi, fato que ficou constatado
nos balancetes a partir de então. Os poucos recursos arrecadados pelas
cobranças de impostos eram, segundo os vereadores, insuficientes para quaisquer
investimentos, restando a opção dos ofícios solicitando ajuda financeira
atrelada a relatos de moléstias, fome e indigência. Os empregados municipais,
servidores, eram o secretário da CMT, destacando-se os rodízios entre os
Ribeiro da Cunha; o porteiro da CMT; os fiscais de Mundaú e de Paracuru, e os
zeladores do Cemitério e da Cadeia Pública. Ou seja, não existiam subordinados
nas áreas essenciais, como na educação e saúde. Quando muito, eram temporários
e pagos pela Província.
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| 1876. Mundaú e Paracuru distritos de Trairi |
Antônio Barroso de Souza, o
Curral Grande, líder político de Trairi e Paracuru, que tinha no controle de
seus conselhos políticos sua hegemonia sediada no primeiro, ausentara-se do seu
feudo durante o período conturbado do Ceará, que antecedeu a proclamação da
República, estando entre 1886 e 1890 deputado provincial em Fortaleza, havendo
nos dois anos seguintes uma série de confrontos armados na capital. Desse modo,
José Moreira Simões Granja e os Ribeiro da Cunha surgiriam como as novas
lideranças de Trairi, legitimados pelos seus domicílios residenciais e
eleitorais na sede.
Nessa fase histórica do Brasil,
registra-se a perseguição aos defensores da mudança do sistema de governo para
a República, que no Ceará chegou a pegar até os jornais de surpresa. Na verdade
um golpe militar. Longe de uma democracia, os republicanos de Trairi foram
presos de forma humilhante sob o silêncio de uma sociedade subserviente à
censura.
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1889. Balancete da Câmara Municipal de Trairi
5.6. Intendentes.
Proclamada a República, deixaram
de existir provisoriamente as Câmaras Municipais no Brasil enquanto se
instalava a sua Constituinte na Capital, Rio de Janeiro. Em 1890, criaram-se os
Conselhos Municipais, a frente um intendente, no caso o presidente do Conselho,
e mais cinco parlamentares, eleitos na primeira sessão de cada mês pelos
próprios, os chefes políticos. Com isso, os coronéis se revezaram no poder até
1892, cumprindo-se o prazo estabelecido durante a constituinte que gerou a primeira
Constituição da República (1891). E assim os conselhos deixaram de existir,
retornando as câmaras municipal.
Em Trairi, nesse período,
obviamente não ocorriam as reuniões a cada sete dias devido às carências comuns
de então, sem estradas, comunicação e moradias distantes, mas elas ficaram
registradas pelos secretários, que, por serem remunerados, tinham que abrir mão
da vereança não assalariada mas recheada de vantagens.
Foram presidentes do Conselho de
Intendência Municipal de Trairi os seguintes vereadores (Intendentes):
De 12/02/1890 a 18/03/1892:
1: José Themístocles Telles de
Carvalho. Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 23/07/1891.
2: Anastácio Tabosa Braga.
Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 18/03/1892.
3: Furtunato Barroso Cordeiro.
Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 18/03/1892.
4: Francisco Galdino da Silva. .
Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 18/03/1892.
5: Manoel Teixeira da Costa (III).
Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 25/07/1891.
6: Galdino Lopes de Castro.
Nomeação: 12/02/1890. Exoneração: 18/08/1891.
7: Domingos Barroso de Souza.
Nomeação: 23/08/1891.
8: José Raymundo Ferreira da
Cunha. Nomeação: 11/09/1891.
9: Francisco Ribeiro da Cunha.
Nomeação: 11/09/1891. Exoneração: 18/03/1892.
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1892. Vereadores. Desentendimento entre Trairi e Mundaú
4.7. Vereadores de 1875 a 1899.
Obs: Isso não indica propriamente que os vereadores tenham participado de todo o período.
1875 - 1876: Antônio Barroso de
Souza (presidente da CMT). Manoel J. Cordeiro, Manoel Ignacio da Silva Cruz,
José Maria Pereira Braga e Luís Rodrigues de Oliveira. Secretário: Antônio
Ribeiro da Cunha.
1877 - 1880: Antônio Barroso de
Souza (presidente da CMT), Sebastião Carneiro de Azevedo (presidente da CMT),
Fortunato Barroso Cordeiro, Manoel Teixeira da Costa (III), Joaquim Francisco
Pinto de Carvalho, João Crisóstomo de Andrade, André Barbosa de Amorim, Manoel
José de Santanna, Alexandre Alves da Cruz, Manoel Francisco Pereira Junior,
Joaquim de Souza Braga, Izaías Francisco Pereira e Antônio Furtado de Mendonça.
01/06/1880 - 1884: Antônio
Barroso de Sousa (presidente da CMT), Izaías Francisco Pereira, Sebastião
Carneiro de Azevedo, Francisco Galdino da Silva, José Moreira Simões, João
Crisóstomo de Andrade, Manoel Teixeira da Costa (III) e Manoel de Mello Falcão.
Secretário: Francisco Ribeiro da Cunha.
1884 - 1888: José Moreira Simões
Granja (presidente da CMT), Francisco Galdino da Silva, Sebastião Carneiro de
Azevedo, Paulino Tolentino Chaves e Izaías Francisco Pereira. Secretário:
Antônio Barbosa de Amorim.
1888 - 1889: José Moreira Simões
Granja (Presidente da CMT), Francisco Ribeiro da Cunha (secretário e presidente
da CMT, distintamente, em cada ano). Renunciou ao primeiro cargo devido ao
impedimento de acúmulo de funções; Izaías Francisco Pereira (vice presidente e
presidente a partir de agosto de 1888), Francisco Galdino da Silva, João Chagas
Thomé de Andrade, André Barbosa de Amorim, Antônio de Freitas Guimarães (
presidente da CMT em 1889), Paulino Tolentino Chaves. Nomeação de Alexandre
Barbosa de Amorim no lugar de André Barbosa de Amorim. Secretário: Antônio
Barbosa de Amorim.
1890 - 1892: Themístocles Telles
de Carvalho (Intendente), José Raymundo Ferreira da Cunha (intendente), João
Crisóstomo de Andrade, Anastácio Tabosa Braga (intendente), Galdino Lopes de
Castro (intendente), Furtunato Barroso Cordeiro (nomeado intendente a
11/09/1891), Manoel Teixeira da Costa III (intendente), Paulino Tolentino
Chaves, Alexandre Barbosa de Amorim, Francisco Galdino da Silva, Francisco
Pereira de Souza e Domingos Barroso de Souza (intendente).
1892 - 1894: Francisco Ribeiro da
Cunha (intendente), Francisco Galdino da Silva (intendente) Liberato Barroso de
Souza, Miguel Ferreira da Cunha Gangorra, José Antônio da Paixão, Anastácio
Tabosa Braga, Antônio Carneiro de Azevedo, Bernardo Soares de Almeida, José
Joaquim de Gouveia, Domingos Barroso de Souza, José Carneiro da Cunha, José
Fernandes Braga, José Antônio da Paixão, Bento Portella de Menezes, Anacleto de
Castro Jatahy.
1895 - 1898: Francisco Ribeiro da
Cunha (presidente da CMT), Anastácio Tabosa Braga (presidente da CMT),
Furtunato Barroso Cordeiro Filho, Raymundo Nonato da Paixão, Anacleto de Castro
Jatahy, João Martins Ribeiro, Miguel Ferreira da Cunha Gangorra, Januário
Rodrigues da Costa e José Lopes do Prado.
1898 - 1900: Francisco Ribeiro da
Cunha (presidente da CMT), Anastácio Tabosa Braga (presidente da CMT), Joaquim
Rodrigues Chaves, Raymundo Nonato da Paixão, Miguel Ferreira da Cunha Gangorra,
Paulino Tolentino Chaves, Anacleto de Castro Jatahy, José Thomás de Paula.
Francisco Ribeiro da Cunha, que, entre coletor e vereador, renuncia ao segundo.
Antônio Ribeiro da Cunha, o último presidente da Câmara Municipal de Trairi no
século XIX.
Trairi Sede continuava um humilde
povoado, com duas ruas: Coronel Barroso e Coronel João Cordeiro; e duas praças:
Dr. Accioly, o governador em 1899, e Dr. Barroso, talvez com dois ou três
bancos, que se foram. E obviamente, o Barracão, o cemitério, a cadeia e a Matriz.
Capítulo 6. Igreja Católica.
6.1. Por uma Freguesia.
A freguesia de São José do
Ribamar, a qual pertencia a capela de Trairi, foi criada em 1717, com a sua
Matriz de Aquiraz existente até hoje. Dela foi desmembrada a freguesia de
Fortaleza, em 1805, sob orago de Nossa Senhora da Assunção (no antigo Quartel
Militar, no forte) e São José (no Largo da Sé), para qual Trairi foi
transferida.
Dona Maria Furtado de Mendonça,
de família de longínqua tradição fidalga portuguesa, religiosa, com certeza
procurou interceder para que Nossa Senhora do Livramento se tornasse freguesia.
Faleceu sem essa conquista.
Seu neto, Padre José Furtado de
Mendonça, contudo, não esqueceu o compromisso da família para com os fiéis, que
aumentava e atraia missionários. Das raras vezes que deixou a sua capela, tornou-se
coadjutor da Capela-Mor de São José de Fortaleza, ainda pertencente a Aquiraz,
e nesse breve período intermediou tentativas de elevar a sua Igreja, a quem
sempre serviu. Ao falecer, em 1798, passou a tarefa para o seus colegas Antônio
José da Fonseca e Francisco Antônio da Silva.
Em 1812, finalmente, a 2 de
setembro, vê-se Nossa Senhora do Livramento como freguesia, representada pelo
Reverendo Lino José de Oliveira. A ordem veio do Bispado de Pernambuco (Olinda), mas o
governo local, sem a existência de um Bispo, possuía autoridade para fazer e
desfazer em conformidade a interesses políticos, através de ofícios ao clero. O
fato é que, durante a própria administração de Manoel Ignacio de Sampaio
(Governador Sampaio), para muitos um tirano, a freguesia foi dissolvida e
Trairi retornava para Fortaleza, e como tal Parazinho (futura Paracuru) e
Siupé.
6.2. Padres em Trairi.
Os capelães e coadjutores
continuaram suas missões junto aos capuchinhos, alguns em ações rotineiras da
Igreja, de povoado em povoado, mas a maioria como visitante e não - fixa.
Passaram por Trairi até a criação da Diocese do Ceará , a 6 de junho de 1854,
os Reverendos da Freguesia de Fortaleza:
1800 - 1801: Frei José de Santa
Clara. Destacou-se pelo trabalho evangelizador na Serra da Uruburetama, São Bento de Amontada e na Ribeira do Curu
1801 - 1802: Pe. Francisco
Antônio da Silva.
1802 - 1813: Pe. Lino José de
Oliveira.
1814 - 1815: Pe. José Felix dos
Santos.
1816 - 1818: Pe. Antônio Mendes
de Mesquita. Entre visitantes, freis e convidados.
1819 - 1823: Pe. Francisco
Barbosa Cordeiro. Entre visitantes,
freis e convidados.
1824 -1833: Pe. Rodrigo José de
Mello. Entre visitantes, freis e convidados.
1833: Pe. Antônio Pinto de
Mendonça e Pe. José Gregório Junior.
1834 - 1836: Pe. Francisco
Jacinto de Sant’Anna.
1836 - 1839: Pe. José Gregório
Junior.
1840 - 1843: Pe. Luiz Antônio
Pereira e Pe. Felix de Azevedo.
1844 - 1845: Pe. Antônio Nogueira
Braveza.
1845 - 1847: Pe. Vicente da Rocha Mota e Pe. Antonino
Pereira de Alencar.
1847 - 1848: Pe. José Pinto Reis
Brazil.
1848 - 1855: Pe. José Pinto Reis
Brazil e Joaquim Pereira de Alencar.
6.3. Freguesia. Nova tentativa.
Em 29 de agosto de 1853. Parecer
de Negócios Eclesiásticos da Assembleia Provincial (Assembleia Legislativa da
época) pediu a opinião do bispo de Pernambuco a cerca da recriação da freguesia
na povoação de Trairi. D. João da Purificação Marques Perdigão, Bispo de
Olinda, consultou seus subordinados no Ceará, que certamente se surpreenderam.
Seria a primeira tentativa do líder do Partido Conservador, Barão de Ibiapaba,
de impedir a penetração dos rivais liberais no distrito, fortalecendo os
delegados aliados.
Entrava nessa discussão o Padre
João Francisco Nepomuceno Rocha, natural e padre de Nossa Senhora dos Remédios
do Parazinho, da qual foi fundador, como de Paracuru. Inteligente e de posses,
partiu para Fortaleza a procura de uma vaga de coadjutor de São José,
aproximando-se, com sua bela redação, aos superiores de Pernambuco. Seu
objetivo era impedir a ascensão da vizinha.
No ano seguinte, o bispo,
analisando respostas aos seus ofícios a respeito dos motivos da criação da
freguesia, negou o intento.
6.4. Padres (1856 - 1862).
Eis a relação dos padres que
celebraram na Capela de Nossa Senhora do Livramento até a sagração do primeiro
Bispo do Ceará, em 14 de abril de 1861:
1856 - 1859: Pe. Luiz Vieira da Costa
Delgado, Pe. Antônio Francisco da Costa e Pe. Manoel Ribeiro de Souza.
1859 - 1860: Pe. João Francisco Nepomuceno Rocha, como coadjutor da Freguesia de São José.
1861 - 1862: Pe. João Tabosa de Silva Braga, Pe. Cônego Manoel Roberto Sobreira e Pe. João Francisco Nepomuceno Rocha.
Tão logo foi confirmado o bispado
do Ceará, deu-se início à construção do Seminário da Prainha, inaugurado em
1864, em Fortaleza, onde estudou a maioria dos Reverendos que passaram por
Trairi.
6.5. Criação da Freguesia de
Paracuru.
Após a posse de Dom Luiz Antônio
dos Santos, de conformidade com a Lei n° 1020, de 14 de novembro de 1862, foi
criada a freguesia do Alto Alegre do Parazinho, desmembrando-se da freguesia de
Fortaleza. Padre João Francisco Nepomuceno Rocha doa terras e funda um povoado,
Alto Alegre (Paracuru), construindo o novo templo de Nossa Senhora dos
Remédios, padroeira dos Açores, na Ilha de São Miguel, Portugal. O velho
Parazinho começa a ser tragado pelas dunas. E Trairi passa um bom período
subordinado a ela.
Em 3 de junho de 1863,
comunicado ao bispo diocesano sobre as resoluções n° 1025, de 18 de dezembro de
1862, e n° 1020 de dezembro de 1862, eleva à categoria de Matriz a capela de N. Sra dos Remédios do Alto Alegre do
Parazinho, sendo o primeiro vigário o próprio Rvmo. Pe. João Francisco
Nepomuceno Rocha. Após a sua morte, foi encomendado o vigário Francisco José da
Silva Carvalho, por provisão de 15 de setembro de 1865. Dois anos depois, em
1867, o dito padre avaliou, ao lado de Antônio Dias Martins, em oito contos de
réis o patrimônio de Nossa Senhora do Livramento. Considerável.
6.6. Vila do Livramento.
Por outro lado, Nossa Senhora do
Livramento, no que pese a sofrível situação financeira dos fiéis, continuava centralizada à fé, uma vez que os pobres se socorriam às orações para superarem tantas
carências e dores. Através dela, a comunidade expressava a esperança por anos
de chuvas, fartura e saúde, livre das pestes. Destacou-se o padre coadjutor
Manoel Lima de Araújo, auxiliar do pároco da freguesia de Paracuru, que
demonstrou grande carinho dos católicos de Trairi no período de 1872 a 1874.
No dia 20 de julho de 1874, o então vigário de
Pará - Curú (Paracuru), Pe. Francisco José da Silva Carvalho, na época
acumulando cargo de inspetor escolar daquela vila, respondeu ao bispo Dom Luiz
(dez do corrente mês) sobre a sua opinião quanto à criação da Paróquia de Nossa
Senhora do Livramento, o que levaria a sua Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
à subordinação da vizinha:
“Acho
conveniente a transferência da Matriz para aquela povoação por achar colocada
no centro da Freguesia (de São José, em Fortaleza), ter aquela povoação uma
capela muito boa e achar-se satisfatoriamente preparada”.
No dia 14 de agosto de 1874, a Lei Provincial
n° 1604, assinada pelo vice - presidente da Província, Barão de Ibiapaba, então
presidente em exercício, recriou a Vila com a denominação de Nossa Senhora do
Livramento, transferindo para lá a sede de Paracuru e sua freguesia, surgindo a
paróquia do mesmo nome e tendo como primeiro pároco o próprio padre citado
acima, surpreso ou não com a nova missão. A instalação e consequente posse se
deram em clima de júbilo. Nossa Senhora dos Remédios recuperaria a sua
freguesia, em definitivo, em 1884.
6.7. Párocos da Matriz de Nossa
Senhora do Livramento.
Eis a relação dos párocos ao
longo do século XIX:
1 - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA
CARVALHO (14/08/1874 a 18/02/1878).
Natural
de Arneiroz CE (18/05/1834), filho de Antônio José Carvalho e de Maria Claudina
de Carvalho. Recebeu ordens de presbítero, de D. Luís, em Fortaleza, no dia 20
de setembro de 1862, mas ordenado em Sobral (10/01/1863). Vigário da
freguesia de Nossa Senhoras dos Remédios (Paracuru) desde 15 de setembro de
1865. Foi nomeado para Nossa Senhora do Livramento (então nome de Trairi) pelo
primeiro bispo do Ceará, Dom Luiz Antônio dos Santos, tendo como primeiro
sacristão Francisco Gordiano do Nascimento. A 14 de agosto de 1874, sua chegada
foi magistral, diante de uma procissão ao lado da imagem da Milagreira.
Conviveu com a maior tragédia
humanitária de Trairi, a seca e a peste que ali imperaram em 1876, perdurando
até 1879. Fez parte da primeira Comissão de Socorros, a cata de recursos e
mantimentos para o flagelo assustador vitimado por febre que mais adiante foi
identificada como varíola, a doença da bexiga.
Anexo, abaixo-assinado ao bispo para a continuidade do padre Francisco José em Trairi:
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| 1877. Padre "identificado com o seu povo". |
2 - PEDRO LEOPOLDO DE ARAÚJO
FEITOSA (03/03/1878 a 17/09/1879).
Cearense de Arneiroz (03/05/1852)
filho do capitão João Leopoldo de Araújo Chaves e de Ana Álvares Feitosa.
Oriundo da freguesia de São José do Ribamar (Aquiraz), durante a sua posse, em
3 de março de 1878, na grande seca e da peste da varíola, estava
presente, com nome registrado, o jornalista e poeta abolicionista Antônio Dias
Martins Junior, irmão do famoso poeta trairiense Álvaro Dias Martins, cujo pai, Antônio Dias Martins foi testemunha ao lado de Joaquim Thomaz da Cunha (Marinheiro Cunha). Fez parte da Comissão de Socorros aos
indigentes, mas pediu para sair em setembro daquele ano. Após um ano tornou-se
monsenhor e partiu para Fortaleza. Visitou Trairi em 1902. Faleceu em Fortaleza
a 29/03/1863.
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| Posse de Padre Leopoldo, nomeado por Dom Joaquim |
3 - JOAQUIM FERREIRA DE CASTRO
(11/10/1880 a 31/07/1884):
Tomou posse a 11 de outubro de
1880. Batizou Pe. RODOLPHO FERREIRA DA CUNHA, bisneto do fazendeiro Luiz
Ferreira da Cunha (II), que trabalhou na ampliação da igreja. Padre Rodolpho,
futuro capelão do Asílo dos Alienados e vigário da Paróquia do Bom Jesus
(Parangaba). Padre Castro morreu de tuberculose no dia 31 de junho de 1884,
sendo enterrado no pé do altar da Matriz de Nossa Senhora do Livramento.
4 - JOAQUIM ROMUALDO DE HOLLANDA
(21/09/1884 a 09/07/1887).
Cônego, descendente de holandeses que se fixaram em Pernambuco. Filho de Manuel Romualdo de Hollanda e de Maria Augusta de Hollanda, nasceu em Fortaleza, no antigo bairro do Tauape (hoje parte do Jardim América) e estudou no seminário homônimo (no caso, São João do Tauape), ordenando-se em 30 de novembro de 1870. Ocupou o cargo de secretário da Câmara Eclesiástica até o fim de 1872. Esteve à frente sucessivamente das paróquias de Conceição, Acarape e Trairi. Foi vigário de Parnaíba e de Sarabuhy SP, além de cônego da Capela Imperial. Faleceu em 22 de setembro de 1887. Portanto, deve ter deixado Trairi devido a problema de saúde. Desse modo, seu Sítio Montebelo, em Guaramiranga, ficou aos cuidados do seu irmão, coronel Manuel Filho. Segundo a história da famíla, o sítio pertenceu ao general pernambucano Abreu e Lima (hoje nome de município pernambucano), filho de Padre Roma, líder da Revolução Praieira (PE). O filho de Abreu e Lima teria sido a primeira pessoa branca nascida no Maciço de Baturité.
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| Cônego Romualdo Hollanda. Nomeado a 21/08/1884 e posse a 21/09/1884 |
5 - VICENTE TEIXEIRA PINTO (24/07/1887 a 24/12/1892).
Natural de Lavras da Mangabeira, nascido em 19 de julho de 1856, ordenou-se em Fortaleza em 23 de novembro de 1879. Tomou posse em Trairi a 24 de julho de 1887. Padre Pinto preparou o futuro Rodolpho Ferreira da Cunha para a Primeira Eucaristia e para o Seminário. No dia 27 de junho de 1891, recebeu a visita pastoral encomendada por D. Joaquim Vieira, o qual citou a sorte da comunidade Lagoa de Dentro, mais meia légua de terra do lado esquerdo do rio Curu, no Rosário. Foi deputado por quatro legislaturas e recebeu o título de Monsenhor em 4 de março de 1904, chegando a Vigário Geral durante o bispado de D. Manoel. Faleceu no dia 19 de setembro de 1941.
6 - MELQUIDES AUGUSTO DE MATOS
(01/01/1893 a 14/12/1894).
Tomou posse a 1° de janeiro de
1893, encerrando os festejos de Nossa Senhora do Livramento. Certa feita,
durante percurso para atender um enfermo, levou uma queda do cavalo, quebrando
uma perna. Encanada, foi perfeitamente recuperada pelo Sr. Paulino Chaves. Foi
no seu tempo de vigário, ainda no bispado de D. Joaquim Vieira, que, diante de
estação chuvosa rigorosa, desabaram, na madrugada de 7 de junho de 1894, as colunas que sustentavam o prédio do Curso
Teologia do Seminário da Prainha (Fortaleza), quando dezessete seminaristas
foram soterrados e milagrosamente salvos.
7 - ANTÔNIO THOMAZ (14/09/1894 a
03/01/1897)
Antônio Thomaz Lourenço. Ordenado
em 1891, tomou posse em Trairi a 21 de outubro de 1894, aos 26 anos. Deixou a
Paróquia a 3 de janeiro de 1897.
Após Trairi foi pároco em sua terra, Acaraú, onde nasceu em 14/09/1868. Durante uma das visitas bimestrais à capela de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, em 1898, convenceu os fiéis, indígenas e descendentes, a muito custo, a levar as imagens e o sino para a igreja de Itarema, Nossa Senhora dos Navegantes, diante da invasão das dunas, que viriam a soterrá-la por 45 anos. De Itarema, a imagem primitiva de Nossa Senhora da Conceição, doação da rainha Maria I, que mandou construir o templo atual no mesmo período da de Trairi, desapareceu.
Na verdade “permuta”, em troca de uma imagem espanhola, “Labareda”, encontrada na praia pelos índios, sagrada para eles, numa decisão unilateral. Anos depois, suspeitou-se que a mesma estaria no Museu Dom José, em Sobral, sem catalogação, junto a outras da Santa na mesma situação, e praticamente ninguém de então vivo para testemunhar, se fosse o caso, qual a verídica.
Famoso pelas suas brilhantes
poesias, foi considerado o primeiro “Príncipe dos Poetas” do Ceará. Faleceu aos
72 anos, em 16/07/1941, vítima de ataque cardíaco, após operação no hospital
São João (Jacarecanga) em Fortaleza.
8 - ANTÔNIO PEREIRA DA GRAÇA
MARTINS (21/2/1897 a 15/02/1900)
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| Pe. Graça |
Nasceu em Aracati no dia 27 de janeiro de 1873. Estudou no Colégio São Luiz, dirigido pelo Padre Antônio Lopes de Araújo, até 1887. No ano seguinte, matriculou-se no Seminário da Prainha, Fortaleza, onde ordenou-se em 30 de novembro de 1893. Sua primeira missa foi, como subdiácono, em Aracati, no dia 8 de dezembro daquele ano. Em seguida transferiu-se para Maranguape como coadjutor da Matriz de Nossa Senhora da Penha, mas sua primeira paróquia foi Nossa Sra. do Livramento, em Trairi, onde tomou posse a 21 de fevereiro de 1897. Padre Graça não se adaptou à simplicidade da antiga casa paroquial, tendo em vista a sua repugnância a insetos e quaisquer anfíbios, além do medo da solidão. Foi morar com o farmacêutico Joaquim Tomaz da Cunha (Marinheiro Cunha), na casa onde residiu, até o fim da vida, a professora e religiosa Madrinha Morena, chefe dos Correios. Sua afeição a Marinheiro Cunha era de tal ordem que deixou a paróquia após a morte do amigo, em 1900. Transferiu-se para a sua terra, Paróquia de Limoeiro do Norte (posse em 22/04/1900). Ali, entrou na política, como intendente, presidente d a Câmara de Vereadores. Em 1908 retornou para Aracati, enfim pároco, assim como em Tianguá (24/05/1915), onde permaneceu pouco tempo. Voltaria definitivamente para a região jaguaribana. Assumiu a Paroquia de União (hoje Jaguaruana) em 5/7/1916, ajudando na criação da Paróquia de Itaiçaba (antiga Passagem das Pedras), da qual foi seu primeiro pároco (N. Sra. da Boa Viagem), em 29/09/1941.
FRANCISCO JOSÉ DA SILVA CARVALHO (14/08/1874 a 18/02/1878).
























