segunda-feira, 15 de julho de 2019

Trairi CE - Inauguração da Ponte (Por Lucas Junior)


Um Dia de Euforia

Foto O Estado. 16 de julho de1961
16 de julho de 1961. Naquele domingo, a cidade amanheceu festiva, com seu povo eufórico, caprichando na roupa e no calçado, para subir o “Alto”, rumar para o Campo de Aviação e aguardar o governador. No caminho, porém, uma parada no monumento que tanto reivindicara, a ponte sobre o exuberante rio que a dignifica. Daquela edificação branca, com sessenta metros de comprimento por oito de largura, em concreto e com fundações em estacas premoldadas, as lembranças das travessias difíceis, das grandes cheias, contemplando os coqueirais e os morros que os cercavam.



Pouso Complicado


A ventania estava forte quando, às nove horas, avistou-se o “teco-teco”, que dava voltas em torno da pista improvisada, pois tinha dificuldades para aterrissar no “piper” de piçarra, a qual, apesar do susto, felizmente foi concluída sem acidente. Na comitiva, as maiores autoridades eram o governador do Estado, Parsifal Barroso, e o vice-presidente do Departamento Autônomo de Estrada e Rodagens (DAER), Caio Studart. Na recepção, o vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Livramento, o prefeito, Antônio Silva, e o chefe político de Trairi. Resolve-se, contudo, evitar as formalidades e um verdadeiro cortejo humano, autoridades e a comunidades, caminharam até o centro da cidade.


Passeata pela Cidade


Passeata pela ponte
Sempre ao lado de Padre Alberto Viana e do presidente da Câmara dos Vereadores, José Granja Ribeiro, o chefe do Executivo estadual inaugurou a Ponte Deputado Vilmar Pontes, alusão ao político, de origem de Massapê, que encaminhou o projeto aprovado pela Assembleia Legislativa, viabilizando a obra, embora outros também trabalharem por recursos, como Eritides Martins e Perilo Teixeira, ainda que com divergências políticas. Lembrando que o médico Dr. Auricélio Pontes representou a família do deputado homenageado.



O Governador Ora na Igreja

Após a inauguração, a passos rápidos, dirigiram-se à Matriz do Livramento, onde o governador orou, segundo o próprio pedindo “por ele e pelo município”, terra em que estivera, quando, aos 25 anos, iniciava as carreiras de advogado e professor do Liceu do Ceará. Depois de ouvir os pedidos de Padre Alberto, constaram visitas ao Grupo Escolar Raimundo Nonato Ribeiro e à velha Cadeia Pública, em precárias condições, do lado direito do casarão dos Granja. 




Rua dos Cururus (Tolentino Chaves). O primeiro logradouro da cidade. Foto O Estado.



Recitação e Reivindicações


Já na residência de José Granja, o coral do Grupo Escolar recepcionou a comitiva com cânticos ensaiados por Dona Olga Ribeiro, Maestro Silva Novo, e pelas professoras. Algumas reivindicações foram feitas ao governador, que retribuiu os manifestos de carinho, prometendo reformar a Cadeia Pública (na verdade foi construída outra), reequipar a escolar e melhorar o acesso até o vizinho município de São Luís do Curu. Já a pequena Ângela Freire Ribeiro, filha de Zé Granjinha e de Olga Nunes Freire Ribeiro, recitou um belo verso, recebendo o carinho de Parsifal Barroso.


Promessas


O governador solicitou da prefeitura a indicação de uma área a ser doada e onde se instalaria uma unidade sanitária dentro das características propostas pela Secretaria de Saúde do Estado. Completou: “Não sabia que jamais havia estado em Trairi um governador. Somente agora posso medir esta alegria que, de fato, senti em todos os semblantes, esse abrir de corações que, por toda a parte, palpitou bem perto mim, fazendo-me o vosso contentamento. Assim, a data de hoje é histórica, porque é a primeira vez que um Chefe do Executivo vem a Trairi. E por que é  essa data é histórica? Deve ser porque, como disse o vigário, Padre Alberto, a data que marca um nova vida , abrindo uma nova perspectiva, dando a todos a confortadora certeza de que os problemas de Trairi começaram a ser conhecidos e atendidos. Estabeleçamos aqui um pacto cordial e sagrado, de sempre marcharmos juntos para a conquista dos benefícios de que necessita esta terra generosa”.




Histórico cortejo da Igreja de Nossa Senhora do Livramento ao Grupo.



Tempos difíceis antes da ponte



Conforme o historiador, Professor Batista Santiago:



“Havia um aparato artesanal com estrutura apenas de madeira. Era um grande jirau de carnaúbas. Sobre elas as pessoas atravessavam o rio, usando todo seu equilíbrio e com muito medo de facilitar e cair, principalmente quando o rio estava cheio. Era um risco tremendo. Imaginem como era complicado. Mas muita gente passava, levados por determinadas necessidades. Quem no inverno tivesse que apanhar transporte no outro lado do rio, tinha que caminhar pela antiga Rua dos Cururus (hoje Tolentino Chaves) até o local desejado. Muitos paravam na casa do saudoso Cortiço, cuja casa era a última da citada rua, nas proximidades do atual posto de gasolina. Cortiço era homem hospitaleiro e prosador. Dava gosto chegar à casa dele”.



“Nesse tempo, grandes invernos em Trairi causavam transtornos. Quando algumas carnaúbas caíam danificando o processo de travessia, alguns passavam nadando ou segurando em uma longa corda amarrada de um lado a outro do rio, principalmente quem não tinha dinheiro para pagar aos donos de canoas. Contudo, existia pelo menos duas ou três canoas a serviço de quem podia pagar pela travessia. Imagino que os senhores José Florêncio (Zé Mugango) e Fransquim Maneco, eram donos de canoas que faziam esse serviço”.



“Durante o período do verão, não precisava de ponte; o rio baixava o nível e até ficava seco naquele trecho, facilitando os pedestres, cargas de animais e algum jeep ou caminhão misto passarem tranquilamente. Já no inverno, nenhum veículo chegava às ruas de nossa cidadezinha. Todo veículo ficava do outro lado, precisamente nas proximidades da casa do Sr. Zeca Tibúrcio, onde, no período ficava localizada a Agência de venda de passagens. Que velho tempo!”




Fontes: Jornais dos Diários Associados: Correio do Ceará e Unitário. O Estado e Tribuna do Ceará.

Fotos:  O Estado e Diários Associados.

Agradecimento: Professor Batista Santiago.






quarta-feira, 13 de março de 2019

Brasil e Ceará - Quedas da Monarquia e do Primeiro Governo Republicano





A Monarquia x Igreja



 A partir da década de 1870, a Igreja Católica e o Exército tiveram sérios atritos com o governo imperial. Em 1874, a crise entre a Igreja Católica e a monarquia tornou-se grave. Foi quando o imperador D. Pedro II mandou prender bispos de Olinda e Belém, condenados a quatro anos de trabalhos forçados por terem proibido os católicos de suas dioceses de participar de atividades da Maçonaria. A atitude revoltou a direção da Igreja, que protestou energicamente contra a medida autoritária do imperador.

 Por outro lado, parte da oficialidade do Exército começou a se afastar da monarquia após a Guerra do Paraguai (1865 - 1870). Durante a mesma, muitos oficiais viajaram para países de regime republicano e voltaram criticando a monarquia, principalmente a corrupção, que, segundo eles, era praticada pelos políticos corruptos “aproveitando-se da miséria do país”. Em 1884, o governo proibiu os oficiais de se manifestarem via imprensa sem autorização do Ministro da Guerra.



A Queda da Monarquia







 Adoentado, o Imperador D. Pedro II afastava-se cada vez mais das crises e decisões do governo. Com as ideias republicanas espalhando-se pelo Brasil, cafeicultores paulistas, operários e a classe média, influenciada por setores privados industriais ingleses, procuravam mais espaço político e os desentendimentos cada vez maios proeminentes pressionavam a monarquia. Republicanos militares, como Benjamin Constant e Quintino Bocaiúva, procuravam o apoio do então monarquista e amigo do imperador, marechal Deodoro da Fonseca, fundador e presidente do Clube Militar, que sempre defendera os militares perseguidos e de confiança sobre  tropa. Ele que viria a demitir, em 15 de novembro de 1889, o Conselho de Ministros, assumindo o seu comando e assinando, naquela noite, o manifesto de proclamação da República. Na madrugada seguinte, 16, D. Pedro II recebeu a comunicação da mudança de regime e a intimação para deixar o Brasil em 24 horas. Na noite de 17 para dezoito de novembro a família imperial partiu para a Europa. Iniciava-se o período republicano.





A Influência do Imperialismo





A independência dos países da América Latina, no início do século XIX, não alterou o processo do antigo “pacto colonial”, no qual a economia das colônias complementava à das metrópoles, ou seja, cultivava matérias primas e destinava seus metais preciosos para o mercado europeu. Os novos países não romperam com as estruturas sociais e econômicas construídas durante o período colonial.

 A grande propriedade, latifúndio, manteve-se com base na monocultura tropical para exportação, persistindo, no caso do Brasil, a mão de obra escrava e o poder nas mãos da aristocracia rural e dos grandes comerciantes. Uma sociedade fechada e voltada às modas e costumes do Velho Continente. Isso impossibilitou o desenvolvimento econômico-social como nos Estados Unidos, igualmente independentes. Nesse sentido, com a riqueza concentrada numa minoria, recorreu-se ao capital estrangeiro.

 Foi o caminho trilhado pelas elites educadas na tradição conservadora da Península Ibérica, acomodadas às enormes desigualdades sociais e habituadas a consumir produtos de origem europeia. Para ela, seria cômodo e interessante ceder à dominação econômica dos países capitalistas industrializados, principalmente da Inglaterra, que fornecia artigos modernos e de qualidade em troca de produtos primários.

 Esses empréstimos se davam por duas vias. Uma pelo capital publico, dos governos; e privado, oriundo de bancos particulares. A outra eram investimentos diretos de capital, principalmente em mineração, operações financeiras, comércio de exportação e importação, transportes (ferroviários e companhias de navegação) e serviços públicos urbanos, como a iluminação a gás e linhas de bonde. Nesse caso, as empresas estrangeiras investiram, instaram-se e administraram os negócios no Brasil, levando praticamente todas as  receitas.

 Os países da América Latina, embora independentes, passaram a manter com as nações industrializadas uma relação de independência econômica. Entretanto, seus governos não poderiam manter esse tipo de relação sem a aprovação das elites dominantes.



República dos Marechais



  A proclamação da República no Brasil partiu de um movimento de cúpula controlada, em primeiro momento, pelos militares e pelas elites agrárias.  Não se preocupou em trabalhar por mudanças estruturais e econômicas. Tratou-se da mudança de um Estado unitário imperial pelo Estado federativo. O setor agrário, a grande propriedade rural, ainda voltado à exportação, conservou a política bem longe da reforma agrária, sustentada no coronelismo do interior e oligarquias agrárias. A implantação da República não foi fruto de um processo revolucionário em que os grupos populares tenham participado ativamente, nem ampliou a representação política no país, uma espécie de realinhamento entre os grupos dominantes, continuou sendo exclusão social, política e econômica de grande parte da população.



O Golpe Militar



 
Deodoro e seu ministérios
Os líderes do movimento republicano escolheram provisoriamente, enquanto aguardava a nova constituição, o marechal Deodoro da Fonseca, um antigo monarquista, líder do Exército, ex-combatente da Guerra do Paraguai e amigo de D. Pedro II, o novo chefe do governo. Ele compôs o ministério com civis e militares engajados nas mudanças, como Quintino Bocaiúva (relações Exteriores), Campos Sales, representante dos cafeeiros paulistas (Justiça), Benjamin Constant (Guerra) e o famoso jurista Rui Barbosa para o Ministério da Fazenda. O País passava a ser uma República Federativa com o nome de Estados Unidos do Brasil, sendo as províncias transformadas em estados, adotando, uma nova bandeira com o lema “Ordem e Progresso” e a convocação de uma Assembleia Constituinte.





Constituição de 1891



 Convocada nos primeiros dias do governo republicano, a Assembleia Constituinte só deu início a seus trabalhos em novembro de 1890. Apenas três meses foram suficientes para a sua conclusão, entrando em vigor em 24 de fevereiro de 1891. Baseada na Carta norte-americana, e revisada por Rui Barbosa, dava maior autonomia aos estados. Ela elegeu oficialmente o marechal Deodoro da Fonseca presidente da República, derrotando o representante da oligarquia cafeeira paulista, Prudente de Morais. O vice-presidente eleito o militar Floriano Peixoto. A seguir, transformou-se em Congresso Nacional constituído em Senado e Câmara dos Deputados. Até a reforma eleitoral de 1881, na Monarquia, as eleições eram indiretas e censitárias, mas a nova Constituição baixou de 25 para 21 anos a idade com direito a voto direto sem exigência de renda, voto masculino dos alfabetizados que representavam apenas 2% da população.



Rui Barbosa e a Economia



 A abolição da escravidão e a migração europeia criaram um número maior de assalariados. Isso carecia de maior injeção econômica. Somados ao comércio interno engatinhando, chegava o momento da ousadia. No comando da equipe financeira, a principal preocupação de Rui Barbosa foi transformar o Brasil numa república capitalista, promover uma profunda mudança na economia, atentando para o crescimento da industrialização, o que só seria possível, na sua avaliação, se houvesse recursos para investir na produção. Afinal, com a Europa duvidando do sucesso do novo regime, o Brasil não conseguiu empréstimos estrangeiros. Entretanto, praticamente sem dinheiro para investimento, a saída foi criar linhas de credito e aumentar o volume de papel-moeda em circulação.

 
Caricatura de Rui Barbosa anunciando o desenvolvimento
Em janeiro de 1890, iniciou-se uma política financeira que permitia quatro bancos, situados no Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, emitirem dinheiro praticamente sem controle governamental. Houve forte incremento de volume de negócios no país, sendo fundadas, somente naquele ano, 313 empresas, muitas delas “fantasmas”, com o objetivo de tomar dinheiro emprestado. A maioria tinha como meta a venda de ações para obtenção de lucros fáceis no mercado financeiro. Nos dois primeiros anos o aumento da quantidade de dinheiro em circulação foi espantoso, provocando onda especulativa na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. 




Encilhamento e a Crise



 A febre por “investimentos” financeiros recebeu o nome de “encilhamento”, devido à semelhança que existia entre a barulheira feita na hora fechamento dos negócios na bolsa de valores, lembrando as jogatinas das corridas de cavalo e à agitação durante o fechamento das apostas na hora em que se colocavam cilhas (arreios) nos animais.

 
Caricatura do "encilhamento"
A produção interna, porém, não cresceu. Procurando o alinhamento, Rui Barbosa tomou medidas que aumentaram tarifas alfandegárias, protegendo a produção industrial sobre produtos estrangeiros que tivessem produtos similares no Brasil. Mas prejudicava a burguesia agrária latifundiária exportadora e os investimentos internacionais. Avaliou mal a importância daquele setor, que representava ¾ das exportações brasileiras. São Paulo, cujos bancos, ligados aos cafeeiros, boicotara o plano econômico, aumentou a pressão por ajustes. Queria apoio para participar também do processo de industrialização, o que não aconteceu.

 Em 1891 ocorreu acentuada queda nos preços das ações, o princípio de um desastre. Com a alta dos preços dos produtos cresceu a inflação, de 1,1 % em 1889 para 89,9 % em 1891, não demorando muito para que uma série de crises financeiras abalasse o país. A euforia deu lugar a sequencias de falências de empresas e de estabelecimentos bancários. Fortunas foram levantadas e destruídas nesse pequeno intervalo de tempo. 

  Assim, vendo seus interesses em risco pela nova política econômica, bancos ingleses e franceses ameaçaram abandonar o País. O ministro, estudioso em legislação, reagiu citando a obrigatoriedade de seguirem os estatutos aprovados, obrigando-se às leis e regulamentos vigentes. E dessa forma os segurou, no entanto sem forças para superar o discurso pessimista e ameaçador da oposição.

Tanto os fazendeiros, sempre de olho no poder, como as empresas estrangeiras, contra a industrialização rápida e para continuar exportando para o Brasil, começaram a forçar o afastamento do ministro Rui Barbosa, sendo claro o aviso ao presidente. Pressionado, Deodoro demitiu o ministro da Fazenda, colocando em seu lugar um monarquista conservador, o Barão de Lucena, que defendia o predomínio agrícola. Desse modo, o outro lado, industrialista, reclamou. Os dois lados reivindicando e a crise cada vez mais presente.



A Queda de Deodoro



 Deodoro da Fonseca, visto como autoritário, enfrentou forte oposição desde o início do seu governo. Em agosto de 1891, os parlamentares tentaram aprovar uma lei limitando os poderes do presidente. Em resposta, ele fechou o Congresso e decretou estado de sítio, com novas eleições parlamentares, ferindo a Constituição Federal e desencadeando uma rebelião interna liderada pelo almirante Custódio de Melo. Com os navios de guerra apontando seus canhões para a cidade do Rio de Janeiro, os revoltosos exigiram a renúncia do presidente. Sem apoio para reagir, Deodoro da Fonseca deixou o cargo em 23 de novembro daquele ano. O seu vice, Floriano Peixoto, também remanescente da Guerra do Paraguai, assumiria o governo em meio ao primeiro golpe da República iniciada a partir de outro golpe. Mais um representante militar no novo regime sem conhecimento da sua doutrina.



O Ceará na República de Deodoro



 
Estátua de D. Pedro II
na Praça Caio Prado (Sé).
Fortaleza CE
Com a proclamação da República, cada província do antigo império passou a constituir um Estado, com mais autonomia para resolver os seus problemas e fazer as suas leis, respeitando a Constituição Federal. O Ceará não estava preparado para a repentina mudança. Sem bolsa de valores, eram poucos os que se aventuravam em ações, preferindo, quando muito, investir na metrópole, Rio de Janeiro, capital. Com a economia sustentada pelo comércio, em plena efervescência do algodão e prosperidade das casas de vendas de tecidos e de produtos importados de luxo, a detentora do poder, a elite, estava satisfeita com seu nível de vida, aliada da Monarquia. 


 Embora existisse em Fortaleza a União Republicana e o Centro Republicano, fundado em 9 de junho de 1889 por expoentes da literatura como Papi Junior, João Cordeiro e Antônio Sales, os civis praticamente não se manifestaram. Grupos isolados saíram às ruas de Fortaleza em protesto contra D. Pedro II. Placas que lembravam o antigo regime foram arrancadas e substituídas por nomes ligados à causa republicana. Dirigiram-se ao Palácio da Luz, sede do governo, proclamando o cidadão Luiz Antônio Ferraz (Coronel Ferraz), governador do Estado Livre.

 Coronel Ferraz dissolveu o poder legislativo municipal e criou o Conselho de Intendência Municipal. O novo processo de sistema de representatividade democrática, agora sem os tradicionais partidos, Conservador e Liberal (este dominante, embora dividido, no final da província), entretanto, não surtiram avanços. Continuou dentro dos padrões antigos, mantendo o eleitorado fidelidade ao chefe distrital, o “voto de cabresto”. 




 
Clarindo de Queiroz, governador do Ceará




Após a morte prematura de Coronel Ferraz em 10 de fevereiro de 1891, assumiu interinamente o governo estadual o major Benjamim Liberato Barroso, sendo logo substituído pelo titular, o general José Clarindo de Queiroz, em 28 de abril de 1891, enquanto o outro seu vice. “Herói” da Guerra do Paraguai e ex-presidente da Província do Amazonas (1879), o novo dirigente não teve paz. Enfrentou um período turbulento, instável, de forte oposição à sua administração. 

 O então deputado Nogueira Accioly, presidente da Assembleia Legislativa, fundador da União Republicana (1890) e sogro do líder liberal, o falecido Senador Pompeu, estaria por trás de uma série de manifestações que tinham como objetivo a queda do governador a partir de dúvidas quanto à lisura do pleito congressual dos governos federal e local. 

 
Gal. Freire Fontenelle, ainda coronel, em 1880
Acusava-se Clarindo de Queiroz de influir nos resultados eleitorais. Em seguida veio o desentendimento entre os policiais do Estado e alunos da Escola Militar de Fortaleza, um conflito que cresceu em poucos dias, tornando-se insustável o diálogo. O governador não concordava com as exigências dos alunos, que pediam demissões na esfera administrativa. Em meio às prisões de manifestantes e clima de tensão na cidade, com muitos moradores abandonando suas casas temendo uma batalha desastrosa, veio a queda do presidente da República, entrando em cena o tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenelle, que fora deputado constituinte.



 Bezerril Fontenele, comandante da Escola Militar, tendo em vista a falta de apoio do novo presidente Floriano Peixoto ao comandante cearense, procurou convencer Clarindo de Queiroz a renúncia, o que não aconteceu formalmente. O governador do Ceará sequer atendeu a solicitação de Floriano para que fosse ao Rio de Janeiro para tratar de “assuntos militares”, só cumprindo o chamado legalmente, caso o legislativo autorizasse.

 No dia 16 de fevereiro de 1892, os alunos da Escola Militar, apoiados por tropas navais e de infantaria, incentivados por seus oficiais, cercaram o Palácio da Luz. À tarde, veio o tiroteio, destruindo a praça do largo, mas sem maiores danos ao histórico prédio. A estátua do General Tibúrcio, porém, foi ao chão, e segundo relatos tombou de pé. Pela manhã, contando apenas com a lealdade do conselheiro Rodrigues Junior, o governante se rendeu, partindo para o Rio de Janeiro, onde morreu pouco depois de prisão e tortura.



 
Assumiriam o governo do Ceará, após a interinidade de Liberato Barroso, aqueles que arquitetaram a queda do anterior, os florianistas José Freire Bezerril Fontenele, com posse em 27 de agosto de 1892, numa opulenta repressão aos deodoristas; e Nogueira Accioly, que com habilidade, conseguiu a fusão do Centro Republicano com a União Republicana, e daí a fundação do Partido Republicano Federalista, dando total apoio a Floriano Peixoto. Iniciava o período do predomínio da oligarquia acioliana.







Fontes bibliográficas:


História do Brasil. Costa, Luís César Amaud. Ed. Scipione. 1999.

História & Vida Integrada 7. Piletti, Nelson; e Piletti, Paulino. 2002

História do Ceará.  Souza, Simone (coordenadora). Fundação Demócrito Rocha, 1989.

História do Ceará. Aragão, Raimundo Batista. IOCE, 1982.





quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Narcélio Limaverde - 65 Anos de Rádio



Amor ao Rádio


Anos 1960. TV Ceará e o 
patrocínio da loja A Cruzeiro.
(Diários Associados)
“E Limaverde carregava na emoção quando descrevia os bondes lentos passando nas ruas calmas; um automóvel aqui e ali, as carroças, as charretes; os cabriolés conduzindo moças bonitas em passeio ou a caminho do colégio; as ruas de calçamento tosco ou mesmo de areia fina e solta; as casas fora do alinhamento e as calçadas em planos variados. E povoava as ruas, becos e vielas com poucas pessoas cruzando sem pressa; o silêncio quebrado pelos pregões de vendedores, como bem descrevia os vendedores de tapioca do Mucuripe”. Assim observou o memorialista Marciano Lopes a respeito de um certo Limaverde. Um locutor de rádio que buscava no passado o romantismo e carinho pela sua terra. 



 

De um microfone aos lares de milhares de cearenses, (José) Limaverde encantava as noites das segundas feiras, nos idos de 1940/50, pela PRE 9, a saudosa Ceará Rádio Clube, extinta. Tratava-se da adaptação da obra de Raymundo de Menezes, “Coisas que o Tempo Levou”, para a comunicação auditiva, uma audiência incontestável, compartilhada por outro programa, “A Hora da Saudade”, com o mesmo apresentador. Limaverde, um bancário do respeitado Frota & Gentil, um dos fundadores da Escola Dramática de Fortaleza, consagrada pela peça “O Mártir de Gólgota”, anualmente no Theatro José de Alencar, na qual o próprio interpretava Pôncio Pilatos.



Com os pais e a irmã, Reine (Foto Marciano Lopes)





O melhor de 1965

Dos três filhos com Dona Leda, Reine, Narcélio e Paulo, os dois homens se dedicaram ao mesmo ofício do pai. Porém, Narcélio encarnou uma paixão que orgulha a classe, afinal mantém a tarefa diária, um apaixonado pelo rádio. No dia 1 de fevereiro de 1954, na PRE 9 do seu pai, o futuro renomado locutor estreava. Muito jovem, passou no teste e trabalhou ao lado de Augusto Borges no programa “Segurança Marginal”. 65 anos de rádio, em várias emissoras, e em vida superados apenas por Augusto Borges, que parou no ano passado com o fim da Ceará Rádio Clube. Mas paralelo a isso, a labuta incluia a TV (Canal 2 e Canal 10) e jornais, destacando-se na Tribuna do Ceará com a coluna Dia a Dia, assim como funcionário da Teleceará. Um trabalhador.

Atualmente encontramos Narcélio Limaverde na Rádio Assembleia 96.7 FM de segunda à sexta feira pela manhã. Para os saudosistas, entretanto, a audiência comove, pois remete, com a coluna “Fortaleza Antiga”, aos passos do pai, o velho e paciente Limaverde, às lembranças da mansidão da cidade que amamos. E isso é História. 



1974. Em sua coluna, na Tribuna do Ceará, agradece o nome do pai a principal via da Barra do CE



 O comunicador insiste, com toda a razão, nas memórias do Pega Pinto do Mundico, botequim na Praça do Ferreira, mudando-se forçadamente para outros dois endereços; e das lojas que marcaram o seu tempo: A Cearense, Flama, Casas Novas, Broadway, Loja das Variedades, Casa Vilar, Zuca Accioly, Rianil, Ótica Simão, Casa Parente, Duas Américas, Lojas 4400, Sapataria Grã Fina, Casa das Máquinas e Ótica Sansão. Lembranças do Abrigo Central (e das brigas entre Bodinho e Pedão da Bananada), da Rotisserie, do Bar da Brahma e do Majestic; das padarias Lisbonense, Moderna, Estrela e Palmeira; das farmácias Galeno, Osvaldo Cruz e Pasteur; dos restaurantes Popular e Central; dos bons tempos dos cinemas, principalmente do Cine Centro, na Av. Tristão Gonçalves com Duque de Caxias, o mais próximo da sua casa. Narcélio carrega isso na memória, conhecendo cada proprietário. Sem esquecer do carnavais e as peripécias do Zé Tatá.




1973. Rádio Verdes Mares com Nazareno Albuquerque e Mardônio Sampaio. (Tribuna do Ceará)




 Da antiga Rua do Imperador, residindo numa modesta casa de duas portas, onde não podia faltar um bom aparelho de rádio, para a Aldeota. O tempo é traiçoeiro, a modernidade atropela a simplicidade. Só forças (e um microfone, um rádio e um bom locutor) para encará-lo. Sei que se pudesse voltaria no tempo. Tomando “bãe de chuva” nos jacarés da Imperador à hora do pobre num cinema qualquer. Viver já valeu à pena. Mas vale mais comemorar estes 65 anos. Parabéns. 

                                                                               Por J. Lucas Jr.




Fonte: Coisas que o Tempo Levou - A Era do Rádio no Ceará - 1994 (Marciano Lopes)





 
!958. Casamento com Dona Helenira Leite Limaverde (Studio Gondim)






Reine Limaverde, irmã, com 6 anos. (O Povo)


1941. Concurso para locutor. Exigências. (O Nordeste)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Instituto Tonny Ítalo - Ação Social das Crianças e Outubro Rosa 2018


 
Para quem chegou um pouco atrasado a vista lá de cima do Barrocão era envolvente. A fila chegava a 100 metros, evidenciando as previsões da diretoria e colaboradores de que realmente contaríamos com elevado número de pessoas. Um crescimento que evidencia o empenho do voluntariado. Todo um processo elaborado durante reuniões, e delas os contatos, os ofícios em busca de apoios, os apelos pelas redes sociais, e, acima de tudo, muito trabalho individual e coletivo.



 Os esforços não foram em vão. A criançada se esbaldou em mais um evento da qual a protagonista. Divertiram-se em cada brinquedo, degustaram dos lanches, interagiram nas diversas oficinas. Pelas imagens, o Instituto e a sua gente, pequenos com seus pais, parentes e amigos, numa alegria contagiante, a qual todos os parceiros são os grandes ativos do prazeroso retorno social. A fotografia desse momento, porém, leva-nos a refletir sobre os caminhos percorridos, as adversidades inerentes ao mundo ambicioso e injusto, buscando os melhores meios, as alternativas mais viáveis para a concretização de um evento pela vida.


 No meio do caminho pisamos em espinhos, mas seguimos em frente. Foram meses de muito trabalho, dificuldades financeiras e testemunhas do grande problema mundial, a violência. Perdemos alguns colaboradores por causa dela, pessoas que participaram de nossos eventos vítimas de um mal que nos amargura, o tráfico de drogas e suas consequências arrasadoras. E como as nossas ações visam alternativas para afastar os núcleos familiares desse mal nos assola, precisamos agir e resgatar valores através da educação e da arte.





 Concluímos, felizes, que das palestras e contatos diretos, efetivou-se mais retorno por parte dos assistidos, que ajudam na limpeza e manutenção do sítio. Por isso, numa localização privilegiada, esse asseio, em meio ao privilégio do contato com a natureza, nos é recompensado pelas observações dos transeuntes e visitantes, elogiando o espaço como o mais belo da região. 

A maior temática foi a paz. Nas paredes, nas árvores, pinturas de rostos, em todas as direções a constatação do foco, que veio neste ano a contento. Como exemplo foi a apresentação musical de Tia Vera, do Projeto A Casa dos Sonhos, em todos os matizes a práxis do evento: paz.


 
Ponto alto, e, para muitos, surpreendente, a Oficina de Bordado, aos cuidados da professora Lúcia, com forte participação da criançada masculina, oferecendo oportunidade de contato e prática com a arte nordestina.  Foi das mais concorridas e aplaudidas, assim como a terapeuta Camila, com as suas habilidades de esteticista. Já o Espaço Saudável nos proporcionou um espaço ao acolhimento psicológico com a Dra. Débora Pio, sendo importante ressaltar as presenças do casal de médicos cubanos João Almeida /Taís Matos e da presidenta da AFBNB, Rita Josina, nossa colaborara em todos os eventos, do Conselho Fiscal do InsTI.

Diante da interação entre as parcerias na realização do evento(Fórum de Mulheres no Fisco e Voluntários da Alegria) fortaleceu-se com uma experiência mais rica e organizada, resultando em rostos infantis como em sonhos, numa felicidade que poderia ser duradoura.  Uma comunidade ciente de que o espaço do Instituto Tonny Ítalo se consolidou como a via de intermediação dela com os objetos de sustentação social. Provou-se que cada morador é um articulador desse intercâmbio entre os dilemas coletivos e as soluções, daí a responsabilidade em preservá-lo.




 

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Fortaleza E.C. 100 Anos. A Origem do Clube da Belle Époque


Território dos Gentios


 

(FEC)
  O Fortaleza Esporte Clube leva o nome da capital cearense e com ele a história da cidade. Ela tem como origem a presença de índios tapuias, tremembés, misturando-se com os potiguaras da Paraíba e do Rio Grande do Norte chegados ao Ceará no século XVI. Chamados gentios, os do litoral foram os mais organizados em forma de coletividade e de contato aparentemente amistoso com os portugueses.

 O ex-soldado Martim Soares Moreno, nomeado primeiro capitão-mor, fundou, na Barra do Ceará, o Forte de São Sebastião em 1612, contando com uma ermida, sob evocação de Nossa Senhora do Amparo, aos cuidados de um padre, solicitação sua ao El-Rei. Seria o fundamento para a colonização pretendida em 1603, frustrada devido à falta de recursos e um projeto sem continuidade. Contudo, suas ausências, devido às campanhas no Maranhão, Rio Grande do Norte, Bahia e moradia em Pernambuco, deixaram o Ceará entregue a um corpo policial praticamente desprotegido.

 Apenas em 1621 Moreno introduziu a criação de gado vacum, equino e o cultivo da cana de açúcar. Mas a incompetência do sucessor no comando do forte, Domingos da Veiga Cabral, seu sobrinho, indispondo-se com os portugueses e com os índios da Barra do Ceará, puseram freio à tentativa de colonização progressiva.


Fortaleza Holandesa


A colonização criou corpo durante o segundo capítulo da presença holandesa, ou seja, com Mathias Beck, a partir de 1649. Uma pequena vila surgiu em volta da fortificação que ele criou, aproveitando as estacas do antigo São Sebastião, no "Marajaig", atual 10° Região Militar, destacando-se o Riacho Pajeú ainda com águas puras. A presença flamenga primeiramente se voltou ao estudo e exploração de minérios. Após a negativa dos achados, introduziu uma administração organizada de acordo com as regras da capital do Brasil Holandês, Pernambuco, por sinal avançadas. Protestante e em choque com os judeus, deixou pacificamente o Ceará em 1654, após a rendição do príncipe Maurício de Nassau frente aos portugueses.

 Álvaro de Azevedo Barreto, capitão-mor, tratou de mudar o nome do forte para Nossa Senhora da Assunção e avançar no povoamento, mas esqueceu dos índios e com eles teve um péssimo relacionamento. O Ceará pertencia ao Maranhão desde 1621, passando para a capitania de Pernambuco em 1656, permanecendo até 1799. Um período de negligência portuguesa e de estagnação econômica e social.  Sua autonomia a partir daquele ano finalmente permitiu um avanço, ainda que lento, rumo ao progresso.


Produção e Comércio


 A partir daquele século, com a consolidação da pecuária no solo cearense, a economia local experimentou a sua primeira etapa de crescimento. As charqueadas, oficinas de carnes salgadas, enriqueceu muitas famílias nobres, surgindo estradas e portos marítimos para evacuar as produções. Em seguida a bonança do algodão, o “ouro branco”, no século XIX, e o surgimento da estrada de ferro ativaram o comércio nas grandes cidades, partindo Fortaleza para destaque de maior centro econômico do Estado. Evidenciava-se a riqueza concentrada em comerciantes, uma sociedade elitizada e influenciada pela cultura francesa, um período de inspiração francesa conhecido por “Belle Époque”. 


Foot-Ball



 
(Campo do Passeio Público, 1904 - Instituto do Ceará)


  Dos encontros elegantes no Passeio Público às diversões. Precisava-se buscar no estrangeiro uma maneira de ativar o físico e o lazer do fortalezense. Na Europa praticava-se um novo esporte. E 1903 foi um ano marcante para a história da pequena cidade. Em evidência, o futebol ainda não chegara para valer em muitos estados brasileiros, e o Ceará estava nesse rol. Apenas algumas peladas nas praças e praias da cidade usando bolas improvidas, além de qualidade técnica a desejar. Um esporte praticado por rapazes que curiosamente aprenderam regras e práticas nas cidades onde estudavam no velho continente (Inglaterra, França, Áustria e Alemanha) ou no Rio de janeiro, e, com ajuda de alguns ingleses, surgiu o Ceará Foot-Ball Club. Indivíduos com um objeto redondo que corria no areal com capim e uma multidão de curiosos procurando entender o sentido da obstinação por um objeto redondo.

 
Prof. José Silveira (Correio do Ceará)
No ano seguinte o primeiro jogo contra ingleses que moravam na cidade: 2x1 para os forasteiros. Em seguida, entretanto, aportou no antigo porto da Alfândega um navio inglês com um time que seguia para amistosos no sudeste do País e Argentina, surgindo um amistoso entre eles e os cearenses. Ocorreu novamente no segundo plano da Praça dos Mártires (Passeio Público). Um jogo considerado “profissional”, pois, pela primeira vez, desde a chegada de José Silveira da Europa com bolas duras, marca Olimpique, e regras do esporte, ocorria uma disputa contra jogadores qualificados. Campo lotado, marcando presença, também, ingleses residentes em Fortaleza, trabalhadores de armazéns, estrada de ferro e companhia de gás: 10x2 para os ingleses. Tamanha foi a repercussão que, com o passar dos tempos, novas bolas foram aparecendo, a prática esportiva uma realidade nas ruas do Centro e uma recreação nos colégios particulares e no Liceu do Ceará.


 Stella e Fortaleza


 Segundo José Silveira, em 1908, após o retorno de estudantes cearenses que estudavam na Europa, foi fundado o Stella Foot-Ball Club por João da Frota Gentil, futuro diretor geral do Banco Frota Gentil e fundador do Colégio São João. Possuía o nome da escola e time em que os cearenses estudavam e jogavam, Stella Matutina, em Feldkirch. Curioso que essa cidade pertence à Áustria, podendo haver um erro histórico quando associamos ao país vizinho. As cores, branca e vermelha, lembravam as da bandeira suíça ou austríaca. Os demais jovens dirigentes eram: Adriano Deodato Martins, Bruno Menescal, José Raimundo da Costa, Oscar Loureiro, Pedro Albano, Paulo Menescal , Ademar Albuquerque e ele, Zé Silveira. Disputava jogos no Passeio Público e na Praça da Lagoinha.

 Assim permaneceu por anos, quando, em 1912,  época em que passou a ser usado o Campo do Prado, no Benfica, destacavam-se o English Teen (cearense fundado em 1908) e o Rio Negro. Contudo,  ainda naquele ano surgiriam o Maranguape e o Rio Branco, que originou o Ceará Sporting Club, o rival do Stella Foot-Ball Club, que fincou as bases da fundação do Fortaleza Esporte Clube (Sporting na época), sendo um braço de uma equipe amadora da época, o Fortaleza Foot-Ball Club, fundado por Alcides Santos, cuja existência foi registrada pela revista carioca O Malho durante um amistoso contra o Almirante Barroso, time de marinheiros do Rio de Janeiro, em 1914. 

 
Alcides Santos (Instituto do Ceará)
A Liga Metropolitana de Futebol não passava de uma representatividade extraoficial dos clubes que disputaram torneios a partir de 1913: Rio Branco, Hispéria e Maranguape. Mas em 1914 contaria com uma novidade, o Stella. Consagrava a figura de Alcides Santos, seu presidente e da Liga naquele ano. Ele comerciante e filho do professor, intelectual e deputado Agapito dos Santos. Outros abnegados: Pedro Riquet, José Bruno Menescal, Lucio Bauerfeldt, Walter Barroso, Jaime e Oscar Loureiro. Sua equipe de estreia contou com José Raimundo da Costa, que não era o jornalista e ex-presidente do Fortaleza; Ademar Bezerra de Albuquerque, futuro funcionário do Banco Frota Gentil, documentarista audiovisual, criador da ABA Film; Aleardo Costa Sousa, Paraense, Adriano Martins, Oscar Loureiro, Paulo Bruno Fiuza Menescal, Pedro Albano, Diógenes Vasconcelos, Atahualpa Alencar e José Silveira, o homem da primeira bola. Dois anos depois despareceria o Stella por uma causa nobre, um projeto maior.

 Em 18 de outubro de 1918, Alcides Santos, então com 29 anos, funda o Fortaleza Esporte Clube e revoluciona o futebol cearense, investindo na infraestrutura e beneficiando não apenas o seu Clube como o conjunto que fazia o esporte local. Doou o terreno no Alagadiço (atual Av. Bezerra de Menezes), mais espaçoso do que o do Passeio Publico, o do Campo do Prado (ao lado do futuro PV) e fundou a Associação Desportiva Cearense (ADC), o primeiro órgão federativo oficial do Estado, em 1920. Pela efervescência do glamour francês de então, suas cores tricolores são alusivas à bandeira daquele país.  Os dirigentes eram os mesmos do Stella mais Clóvis Gaspar, Jayme Albuquerque, Clóvis Moura e Walter Olsen, de família dinamarquesa estabelecida na cidade. O futuro do Clube o Brasil é testemunha. Só emoção e orgulho para a sua apaixonada torcida.




 José Silveira, o introdutor do futebol cearense e jogador do Stella.



 Filho de José Maria Silveira e de Glória Maria Carneiro Silveira, portugueses com familiares em Mundaú (Trairi), José Silveira nasceu em Fortaleza em 29 de setembro de 1882. Partiu para a Europa em 1898, aos 16 anos, para estudar no Instituto Internacional Dr. Schmidit, na Suíça, estando ao lado de colegas de diversas nacionalidades. Com o futebol local em evidência, jogou como center-half (volante) pelo Rosemberg FC, pertencente à instituição, que seria a segunda maior força do País, superada pelo Grasshopper (Gafanhoto). De volta à terra alencarina, municiado de bolas e com o livro de regras, constatando que os conterrâneos não sabiam praticar o esporte, procurou um inglês, sócio da firma Leite Barbosa, marinheiros e engenheiros ingleses para um racha contra os cearenses, que contavam com o próprio, Zé, mais Prisco Cruz, Julio Sá, Marcondes Ferraz, J. Queiroz, J. Henrique e quem se dispusesse a encarar o sol e a nova modalidade esportiva. Isso no segundo piso do Passeio Público, em frente ao Gasômetro, que ficava na descida da Santa Casa de Misericórdia, sentido praia.  2x1 para os ingleses. José Silveira concluiu estudos em Fortaleza em 1909, na Faculdade de Direito. Professor de Línguas do Liceu do Ceará e da Escola Normal, lecionou por cinquenta anos. Falava inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. Disse para o Correio do Ceará em 1963: “Dediquei a minha vida ao nobre ofício de ensinar, mas faço questão de frisar: nunca pedi emprego ou posição para mim. Devido a esse retraimento sempre fui um esquecido”.


Fontes: História do Campeonato Cearense de Futebol (Nirez), Jornal Correio do Ceará (1963) e Jornal A República (1903).





sexta-feira, 4 de maio de 2018

Trairi CE, 14 de agosto de 1974. O Centenário de Livramento.


 
O momento foi por demais aguardado. Nas missas, Padre Tomás Féliu ministrava os preparativos para a solenidade tão louvada. Católicos, irmandades, o bispado do Ceará, o conjunto em torno da veneração por uma Santa estava mobilizado. Um pedaço da história do Estado traçava mais algumas linhas para o futuro. Dificilmente havia um trairiense que não soubesse o que se passava. No mercado, no comércio, nas praias, escolas e comunidades do sertão a conversa era única: a Paróquia de Nossa Senhora do Livramento estava completando cem anos.





Aquele 14 de agosto caiu numa quarta-feira, fato que não tirou o brilho de um evento histórico. Cem anos de Vila e Paróquia de Nossa Senhora do Livramento. Uma verdadeira massa de fiéis presente, lembrando os festejos religiosos do fim de ano, com representações de todas as comunidades. Autoridades de diversas esferas sociais presentes, como  o ex Bispo Auxiliar de Fortaleza, D. Raimundo de Castro e Silva; do Pe. Windemburg Santana (Superior Provincial da Companhia de Jesus), de vários ex vigários da paróquia; do vigário de Baturité, Pe. Hugo Furtado, descendente de Dona Maria Furtado; do presidente da Assembleia Legislativa, Almir Pinto, além de representantes das classes operárias, agrícolas e empresariais do município e do Ceará.



Prefeito Manoel Barroso Neto com os fiéis na rua Raimundo Nonato Ribeiro


 Mas acima de todos estava o povo, os fiéis procedentes daqueles que levantaram a imagem da milagreira desde a sua origem. À meia noite a deslumbrante missa, na qual o devoto beija-mão perdurou quase uma hora. Seguindo-se os cânticos acompanhados da banda do Colégio Piamarta, atos litúrgicos e declamações de poemas, destacando-se a fiel Maria Pia de Salles.  Muitos ainda chegavam de longínquos municípios quando se iniciou o grande cortejo. Estudantes e fiéis, pessoas de origem simples mas de grandeza cristã, de fé, carregavam as imagens dos demais santos que ornamentam a Igreja, sendo a de São Pedro aos cuidados dos pescadores.




A multidão e os demais santos acompanham Nossa Senhora do Livramento


 Nossa Senhora do Livramento abençoou o seu povo. Chorou quando ali chegou após cruzar  o Atlântico;  chorou quando a viu paróquia, com o Pe. José da Silva Carvalho, em 1874, surgindo ao seu lado, triunfante, rumo ao templo idolatrado. E chorou novamente de alegria no centenário, durante uma festa católica da qual o povo trairiense  jamais esquecerá, emocionando os visitantes. E mais do que isso, nunca a abandonou. Assim conta um povo tão católico, fiel, sabedor do seu destino, que é amar a Deus e por ele ser perdoado. Assim conta a História.


                                                                                          (Acervo Lucas)



 Pesquisa: "Como Nasceu Trairi" (Maria Pia), "Ungidos do Senhor" (Aureliano D. Silveira), jornais O Povo e Tribuna do Ceará.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Correio do Ceará - 1915, Um Marco no Jornalismo Cearense


 
Rua Conde D'Eu. Primeira sede
Os grandes jornais do País se postaram como mensageiros das tragédias no Ceará. Nos séculos XIX e XX o 
Estado passou imagem negativa, uma terra enraizada nos problemas climáticos e políticos. Caricaturistas do Rio de Janeiro e de São Paulo traçavam o líder oligárquico Nogueira Accioly ao fenômeno da seca que porventura inquietasse o Sudeste: “ O comendador trouxe a seca do Ceará”. Essas informações chegam às redações através do seus representantes, que eram muitos, de Fortaleza, com seus informativos apreciados e disputados pelos leitores sedentos por notícias. Uma devoção que começou oficialmente  pelas mãos de um padre em meio a um clima político tenso e por uma concorrência de grupos partidários.





 
Primeiro número do Correio
O historiador Perdigão de Oliveira propôs que a imprensa cearense surgiu em 1817. O presidente da Província, Manoel Inácio de Sampaio, teria criado uma gazeta, fazendo-a circular por todo Ceará, informando sobre a Confederação do Equador, na verdade uma revolução. Isso lhe custou uma discussão com Barão de Studart, que manteve o jornal Diário do Governo do Ceará como o introdutor do jornalismo no Ceará. Seu redator era Gonçalo Inácio de Loiola de Albuquerque e Melo, o Padre Mororó, passando a operar a partir de 1 de abril de 1822 pelas máquinas  dos tipógrafos Felipe Lana e Urbano Paz. O destemido religioso, que foi um dos mártires fuzilados no Passeio Público por se posicionar contra o autoritarismo de D. Pedro I, é um ícone da imprensa cearense.




Passados alguns anos surgiram os famosos jornais com potencialidades comerciais, numa fase do jornalismo de cunho partidário, de críticas aos adversários e fofocas. Por um lado os conservadores, Pedro II (1840 - 1889) e Constituição (1863 - 1889), e do outro os liberais, O Cearense (que tornou-se Cearense, 1848 - 1891), este, conforme João Brígido (do Unitário, de 1908), introdutor no jornalismo científico no Ceará. Resumindo, uma imprensa atrelada a ataques que, em suma, visavam a conquista da presidência da Província, ou seja o poder.



 
A. C. Mendes
 
Contudo, foi com o surgimento do Correio do Ceará que finalmente Fortaleza pode apreciar um jornal fiel aos princípios do jornalismo, com noticiários e publicidade. Criado em 2 de março de 1915, era um órgão ligado à Diocese de Fortaleza, mas independente. Seu fundador, Álvaro da Cunha Mendes (A. C. Mendes, do Diário do Estado, 1914), instruiu-se em São Paulo, na perspectiva de inovar a maneira de levar as informações do dia a dia aos seus conterrâneos. Excêntrico, o fundador vestia-se finamente, embora gostasse do branco, a cor dos sapatos, meias, de tudo, inclusive da sua pele. E na questão higiênica cobrava de toda a equipe o devido asseio, muitas vezes em tom de deboche: "Aqui não é sujo como jornal do Rio!".

 Eram redatores padres como Silvano de Sousa, e dirigida pelo Padre Climério Chaves.  Com a criação do O Nordeste (1922,) por Monsenhor Tabosa para a Diocese, o Correio do Ceará tornou-se mais imparcial e fiel ao jornalismo. Já as receitas não partiam da exclusividade das vendas dos jornais, pois o dono possuía rendas dos Estabelecimentos Gráficos A. C. Mendes.







Cônego Climério Chaves





1960. Jornal na rua Senador Pompeu
Nos anos 1920, Fortaleza contava com alguns jornais combativos como Correio do Ceará, O Ceará (de J. Matos Ibiapina), O Nordeste (dirigido por Andrade Furtado), Gazeta de Notícias (de Antônio Drummond) e O Povo (de Demócrito Rocha). Dentro dessa linha, A. C. Mendes fez várias denúncias, mas uma delas tornou-se foco de atenção dos cearenses, digno de debates acalorados. Após publicar relatos sobre desvios de verbas da Inspetoria Federal de Obras Contra Secas (IFOCS), envolvendo personalidades como Pompeu Sobrinho, acabou preso no dia 27 de julho de 1926, durante o governo de Artur Bernardes. O STF o impôs uma pena de seis meses, das quais a metade foi cumprida, mais pagamento de multa de dois mil réis, em vista às apelações jurídicas e populares. Parecia que toda a cidade o acompanhou desde a sede do jornal, na Rua Conde D’Eu, 183, ao então quartel do 23° BC, na Av. Alberto Nepomuceno. A multidão lembrava a inauguração da estatua de D. Pedro II, em 1913, quando todo o largo da Sé foi tomado por curiosos.



 
1926. Prisão de A. C. Mendes (Arquivo Nirez. Gentileza Fortaleza Nobre)


 No estilo austero, era o mais popular, fruto de um trabalho empresarial definido, da redação à oficina com código de disciplina e política salarial, respeitando a ordem previdencial e consequentemente os direitos e deveres dos empregados. E para tal, Álvaro Mendes e H. Firmeza muitas vezes faziam concursos para atrair bons profissionais



 
Primeira edição pelos
Diários, em 1937

O Correio do Ceará acabou vendido aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em 1937, logo após a criação de um concorrente, O Estado, de José Martins Rodrigues. Muita expectativa por se tratar de um ano eleitoral, marcado pelo Estado Novo, que culminou com um regime ditatorial a partir de novembro. Nem por isso a redação do jornal se recolheu. Com a direção de João Calmon e circulando de segunda à sexta-feira à tarde (às 15 horas em ponto) e sábado pela manhã, manteve as suas editorias independentes, com grandes colunistas, valorização do esporte e da cultura cearense. Durante o Estado Novo, nos anos 40, combateu o regime autoritário, porém, durante a ditadura de 1964, sob direção de Eduardo Campos, apoiou o regime militar.






 
 
H. Firmeza, "Príncipe dos Jornalistas
do Ceará". Revisava todo o jornal
Os Diários Associados passavam a contar com três jornais: Correio do Ceará, Unitário e Gazeta de Notícias, sucessos em retorno financeiro, numa época de paixão pela leitura e pela comunicação. Então vieram a aquisição da Ceará Rádio Clube, e, em 1960, a revolucionária TV Ceará, Canal 2. Destaques da imprensa, que militaram naquele jornal, Hermenegildo Firmeza (H. Firmeza), João Calmon, Eduardo Campos, Antônio Moreira de Albuquerque, Antônio Carlos Campos de Oliveira, Blanchard Girão, Fernando Sátiro, Felizardo Montalverne, Geraldo Oliveira (fotógrafo), Vieira Queiroz (fotógrafo), J. Ciro Saraiva, Teixeira Cruz, Boaneges Facó, Antonio Soares e Silva, Raimundo Guilherme, Nery Camello, Luiz Bezerra, Hildebrando Espínola, Colombo Sá, Pádua Campos, Teobaldo Landim, Luciano Diógenes, Milano Lopes, Juarez Timóteo, Roberto Vasconcelos, Adauto Gondim, José Olívio (gráfico), Francisco Soares de Medeiros, Severino Palácio e Geraldo Nobre, este um dos maiores amantes do jornal. Contava que, ainda jovem, aguardava o vizinho ler o Correio para pedir emprestado, às segundas feiras, quando o mesmo 

saía com o resumo da semana anterior.









 Em 1965, em comemoração ao seu centenário, saiu com quatro edições especiais, sendo que a Associação Cearense de Imprensa promoveu o Curso Livre de Jornalismo. Em 1980 o jornal passaria a Venelouis Xavier Pereira, tendo Colombo Sá seu editor. Não duraria mais que dois anos, porém com magistral número de 19.962 edições.



1960. Jornal se antecipa ao rompimento de parede do Orós


.

                                                                                            Fotos e consulta: Correio do Ceará