quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fortaleza 1941 - No Chão o Quarteirão do Emygdio

A Ação que a História Condena



Joaquim Emygdio
Joaquim Emygdio de Castro e Silva destacou-se como um célebre e respeitado comerciante cearense. Pioneiro no setor fotográfico cearense ao lado de Ademar Albuquerque, foi proprietário da Fotografia Americana, representante da Kodak, cuja propriedade transferiu para Inácio Parente, seu ex colaborador que montou a Casa Parente. Mas foi no ponto coração da cidade onde instalou uma Loja de tecidos e de miudeza, que funcionou de 1883 a 1921, quando faleceu. Seus filhos deram continuidade, denominando a casa de Café Emygdio até a sua demolição, por imposição da prefeitura, no dia 4 de agosto de 1941. A pretensão do chefe da municipalidade, Raimundo Araripe, não foi adiante. Mas se o prédio não foi construído na Aldeota, conforme projeto anterior, nem na Praça do Ferreira, foram-se abaixo os prédios históricos da valorizada área norte do mais importante logradouro da cidade. Do que lemos nos deslumbramos com os sonhos de então, pessoas e imprensa alimentando a queda de um pedaço da história em nome da modernidade. Somente em 26 de agosto de 1939, naquele espaço, foi inaugurado o centro comercial Abrigo Central, que funcionou até 1966.




O Povo, 5 de agosto de 1941


O Prédio da Prefeitura será Construído à Praça do Ferreira - A História da Loja e do Café Emídio


 Vai desaparecer um aspecto dos mais populares de Fortaleza: o quarteirão situado entre o lado norte da Praça do Ferreira e a Travessa Pará. A Municipalidade vai demolir aqueles prédios centenários, de sua propriedade, para, em seu lugar, construir o Palácio da Prefeitura. O Povo foi parte na execução desse problema urbano porque, batendo-se contra a nova localização do novo edifício da Prefeitura no Bairro da Aldeiota, viu, mais uma vez, seus esforços coroados de êxito, quando o dr. Raimundo de Alencar Araripe abandonou aquela ideia e deliberou construir, à Praça do Ferreira, a sede municipal. O quarteirão mais central da cidade ser demolido. Bendita a picareta que lhe der o primeiro golpe e que ela possa despertar, nos homens que nos governam, energias para novas e mais várias demolições centrais.


A Velha Intendência



 Entre os prédios a serem abatidos figura o sobrado da antiga Intendência, onde também funcionaram, por longos anos, o Tribunal do Júri e a Sala de Audiências. Foi ali, naquele Tribunal, que se inaugurou a imagem de Cristo no Júri.


Opiniões Contrárias


Há quem julgue errônea a escolha. Há quem sugira que a sede municipal não deveria erguer-se em ponto tão comercial, porque não oferece a área térrea indispensável às várias seções da Prefeitura e ainda porque o local, com seus mil atrativos, poderá desviar a atenção funcional dos empregados burocráticos da municipalidade.


Uma Sugestão


 Não deixa de haver procedência nesses reparos, notadamente no que toca a diminuta superfície do terreno. Esse inconveniente poderia, no entanto, ser afastado se, gastando mais uns dois mil contos, a Prefeitura desapropriasse alguns prédios da rua Floriano Peixoto e Major Facundo, fazendo desaparecer a Travessa Pará e criando um pequeno largo ao norte do futuro edifício.


 O Café Emygdio



Uma das casas mais populares do quarteirão a ser demolido é, sem dúvida, a da esquina da Praça do Ferreira com a rua Major Facundo, onde até ontem funcionou o Café Emygdio, fundado em 1921. Sua história, porém, recua para 1893, e por isso O Povo achou oportuno marcar esta oportunidade com o registro de algo histórico sobre a casa comercial mais antiga do quarteirão que vai desaparecer, ou seja, a Loja Emygdio. Fomos ouvir os senhores José e Estevam Emygdio, gêmeos, proprietários do Café. “Foi com extrema saudade que ontem fechamos o café. Aquela casa tinha para nós um outro valor, além do valor comercial. Foi ali onde trabalhou, desde 1893, o nosso sempre lembrado pai, Joaquim Emygdio, com a loja de fazendas e miudezas que durou 28 anos, ou seja, até o fim da vida do fundador”.



Famosa esquina do Emygdio (Foto O Povo)


Essas primeiras palavras dos dois rapazes despertaram, na lembrança do redator do O Povo, a figura respeitável e circunspecta de Joaquim Emygdio de Castro na direção da sua loja, que era uma espécie de Livraria Garnier ou da atual Livraria José Olímpio, no Rio: um ponto de reunião da elite política e intelectual de Fortaleza. Foi ali que nós conhecemos os secretários de governo do Comendador Acioli e do coronel Franco Rabelo. Essa função da Loja Emygdio jamais perturbou os negócios internos porque Joaquim mantinha um severo equilíbrio em suas relações, sendo a casa neutra em política e filosofia. Ali reinava um ambiente de “bureau” diplomático, onde não podia haver choques, e onde as idiossincrasias ficavam amortecidas pela discreta atitude do “mestre de cerimônias”.


 Continuam os irmãos Emygdio: “Nosso pai foi um homem que mereceu um culto filial. O seu conceito nos acompanha, como incentivo, através das amizades que ele deixou no comércio e na sociedade. É raro o dia em que os mais velhos não nos dizem algo relativo a Joaquim Emygdio de Castro ou não nos repetem episódios de sua vida, como frases anunciadas. Tudo isso alimenta em nosso espírito o fervor com que seguimos a trilha que ele soube traçar-nos. Durante os 28 anos em que dirigiu a Loja Emygdio foi um mestre de caracteres. E é, com vaidosa alegria, que ainda hoje encontramos pessoas que com ele trabalharam, entre os quais os srs. Ludgero Garcia, Francisco Hildebrando, Deocleciano Freitas, José Jucá (Jucazinho), Antonio Carvalho Rocha, Luiz Carvalho Rocha, hoje figura de relevo. Júlio Rodrigues, atual diretor do Banco de Crédito Comercial, foi um dos últimos auxiliares e com ele trabalhou cinco anos. Segundo Júlio, deve a sua formação moral às lições que recebeu do nosso pai, testemunhando visitas de várias pessoas que iam pedir conselhos a ele, fiadas em seu crédito, sua experiência e no acerto de seus juízos. Sentimo-nos, portanto, orgulhosos do conceito que nosso pai desfrutou na sociedade em que viveu e na solidez das amizades sinceras que ele deixou e que nos ajudam a fazer esta justiça à sua memória. As palavras que José Júlio sempre nos reproduz fazem muito bem ao nosso espírito, porque elas procedem de um homem de bem, caráter íntegro e que soube valorizar a influência do nosso pai sobre os que com ele trabalharam”.


Rua Major Facundo e o Café Emygdio em 1923. (Foto Lopes)



Os dois Emygdio falavam com sensibilidade e O Povo não quis prolongar as evocações. Mas esta página fica, para registro desta mudança, no livro da cidade. Vai desaparecer o velho quarteirão central. As picaretas vão começar as demolições. Mas o historiador encontrará, mais tarde, estes apontamentos em que se recorda uma figura humana que, por um quarto de século, construiu um aspecto moral naquele local que desaparecerá. (Jornal O Povo)



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Trairi CE - Padre Irineu Limaverde

 Breve Biografia



Nasceu na comunidade de Fábrica, no Crato, em 6 de janeiro de 1906, tendo como pais Antônio José Soares e Maria Limaverde Soares. Foi batizado a 4 de abril daquele ano pelo Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. Estudou no Seminário São José, na sua cidade, e, no segundo ano, Teologia no Seminário da Prainha, em Fortaleza (1933), ordenando-se no dia 6 de dezembro de 1936 na capela de Santa Conceição, em Santa Fé, na Serra do Araripe, no Crato. No mesmo ano foi indicado e tomou posse como vigário de Areias (atual Tabuleiro do Norte) em 3 de janeiro de 1937. Um ano depois, em 16 de janeiro, assumiu a paróquia de Nossa Senhora de Boa Viagem, na qual não demorou, uma vez chamado para a Freguesia de Trairi, Nossa Senhora do Livramento, onde tomou posse em 6 de março de 1938. Em 31 de janeiro de 1943 assumiu em Aracoiaba e em 14 de fevereiro de 1946 a famosa São José do Ribamar, em Aquiraz.  No mesmo ano retornou a Trairi, onde permaneceu até 17 de fevereiro do 1952. Faleceu no Crato no dia 27 de abril de 1985, aos 79 anos.



 Pe. Limaverde conforme a Historiadora.


 Para a Professora Maria Pia de Salles, Pe. Irineu Limaverde Soares “desenvolveu um trabalho social muito bonito. Formado em Farmácia, ensinou remédios e salvou muitas vidas. Durante os partos preparou Joaninha Mota, a qual tornou-se nossa parteira durante muitos anos. Promoveu as construções das capelas do Gengibre, Estrela e Córrego dos Furtados, iniciando as obras da capela de São Pedro, em Flecheiras”. Na segunda passagem “continuou seu apostolado de fazer o bem aos pobres. Tinha especial cuidado com os agricultores pais de família, arranjando-lhes trabalho nos tempos difíceis. Na parte espiritual, impulsionou a Associação das Filhas de Maria, da qual era diretor, as Cruzadinhas e Catequistas”.  (História da Minha Terra - Gráfica LCR, 1999)




Ata da segunda posse.


Ata de Posse do Revmo Padre Irineu Limaverde na Paróquia de Trairi (segunda vez).


 Aos vinte de junho de mil novecentos e quarenta e seis, dia de Corpus Christi, pelas nove horas, a estação da missa  paroquial procede a leitura da Provisão do Exmo Sr. Arcebispo, D. Antônio de Almeida Lustosa, datada de dezesseis de maio de ano em curso, e assim tomei posse desta Freguesia de Trairi perante as testemunhas abaixo e crescido número de fiéis. E para constar, lavrei a presente ata que assino com as testemunhas.

                                                                               Trairi, 20 de junho de 1946

                                     

                                                                                      Pe. Irineu Limaverde

                                                                                    Antônio Joaquim Barbosa

                                                                                     Raimundo Arlindo Araújo





Pe. Irineu anuncia a visita de D. Almeida Lustosa em 1946.



No próximo mês de outubro, o Exmo Arcebispo D. Antônio de Almeida Lustosa fará a Visita Pastoral a esta Paróquia de Trairi. Espero que todos os paroquianos saibam dar a esta Visita a importância que ela tem. A Bondade Divina se serve sempre destas Visitas para derramar graças abundantes sobre todos os de boa vontade. Procure todos ouvir a palavra de Deus e receber os Santos Sacramentos. Evitem as diversões profanas, sobretudo nos dias da Visita.

 

Itinerário da Visita Pastoral:


 8 de outubro: Chegada em Curral Grande.
9 e 10 de outubro: Permanência em Curral Grande.
11 de outubro: Partida de Curral Grande.
11 de outubro: Chegada em Monte Alverne.
12 e 13 de outubro: Permanência em Monte Alverne.
14 de outubro: Partida de Monte Alverne.
14 de outubro: Chegada a Lagoinha.
15 e 16 de outubro: Permanência e Lagoinha.
17 de outubro: Partida de Lagoinha.
17 de outubro: Chegada a Trairi.
18, 19 e 20 de outubro: Permanência em Trairi.
21 de outubro: Partida de Trairi.
21 de outubro: Chegada a Lavagem.
22 e 23 de outubro: Permanência em Lavagem.
24 de outubro: Partida de Lavagem
24 de outubro: Chegada a Mundaú.
25 e 26: Permanência em Mundaú.
27 de Outubro: Partida de Mundaú.


                                                             Trairi, 23 de setembro de 1946
                                                             Pe. Irineu Limaverde (Vigário)



Nota do Blog: Curral Grande, de N. Sra da Conceição, entre Paraipaba e Paracuru, terra origem do Cel. Antônio Barroso de Souza, primeiro administrador de Trairi. Foi-se com as enchentes do Rio Curu. II: Monte Alverne, sucessora de Passagem do Tigre, a velha Paraipaba tomada pelas águas do Rio Curu. III: Lagoinha, atual praia de Lagoinha (Paraipaba), que pertenceu a Trairi.  IV: Lavagem, atual distrito de Canaan.